Investigação federal aponta indícios de fraude em modelo de negócio baseado em promessa de carros elétricos nacionais, enquanto empresa ainda não possui fábrica nem veículos homologados e aposta em adesão antecipada de consumidores como base de financiamento.
O Ministério da Fazenda identificou indícios de pirâmide financeira na venda antecipada de carros elétricos e híbridos da Lecar, empresa do empresário capixaba Flávio Figueiredo Assis, conhecido nas redes sociais como “Elon Musk brasileiro”.
A avaliação consta em nota técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas, elaborada após provocação do Ministério Público Federal, que também conduz investigação sobre o caso, apontando possíveis irregularidades no modelo de comercialização adotado pela montadora, segundo reportagem publicada pelo portal Metrópoles.
Segundo o documento, o formato de negócio apresenta sinais considerados compatíveis com estruturas potencialmente fraudulentas, especialmente por envolver promessas de entrega futura e dependência de novos participantes, elementos frequentemente observados em esquemas financeiros de risco, de acordo com apuração do portal Metrópoles.
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Modelo de compra programada levanta suspeitas
No centro da apuração está a modalidade chamada Compra Programada, apresentada ao público como alternativa para aquisição de veículos em planos de longo prazo, com prazos que variam entre 48, 60 ou até 72 meses.
Nesse formato, a empresa promete ausência de juros e entrega do veículo ainda na metade do período contratado, argumento que, segundo técnicos do governo, pode induzir percepção equivocada sobre a viabilidade econômica da proposta.
Apesar da divulgação ampla, a análise da Fazenda indica que a Lecar não possui autorização formal para operar esse tipo de modalidade, o que reforça os questionamentos sobre a legalidade e sustentabilidade do modelo adotado.
Entre os pontos destacados estão a cobrança de taxa de adesão para atuação como revendedor e a oferta de um produto que ainda não foi validado tecnicamente ou homologado por órgãos competentes, como também apontou o portal Metrópoles ao detalhar o modelo de negócio.
Além disso, foram identificadas estratégias de comunicação que utilizam senso de urgência para estimular adesões rápidas, associadas à própria admissão de dependência da entrada contínua de novos consumidores para sustentar o fluxo financeiro.
Promessas e linguagem associadas a fraude
Outro aspecto relevante citado na nota técnica envolve a promessa de “ganhos robustos sem investimentos”, considerada um forte indicativo de possível fraude por não corresponder a práticas comuns em atividades econômicas legítimas.
De acordo com o documento, esse tipo de linguagem já foi identificado em outros casos investigados por órgãos de defesa do consumidor e pela Comissão de Valores Mobiliários, sendo frequentemente associado a estruturas de pirâmide financeira.
Ainda segundo a análise, a ausência de lastro produtivo concreto reforça o alerta sobre a desconexão entre a promessa de retorno e a existência de atividade econômica real que sustente essas expectativas.
Investigação do MPF e possíveis irregularidades
A manifestação da Secretaria de Prêmios e Apostas foi encaminhada no âmbito de um inquérito conduzido pelo Ministério Público Federal, que busca esclarecer a natureza das operações realizadas pela Lecar e a atuação de seus administradores.
A leitura preliminar do material aponta dois eixos principais de investigação, sendo o primeiro relacionado à possível estrutura de pirâmide financeira e o segundo ligado à hipótese de publicidade enganosa ou omissiva.
Na prática, o foco das autoridades está em avaliar se a empresa apresenta ao público um projeto ainda em estágio inicial como se estivesse em fase mais avançada de desenvolvimento.
Esse ponto ganha relevância porque, até o momento, a Lecar não possui fábrica em operação nem veículos homologados, apesar de divulgar modelos, especificações técnicas e cronogramas de produção.
Informações institucionais indicam previsão de início da produção apenas a partir de agosto de 2027, o que amplia o intervalo entre a promessa comercial e a capacidade efetiva de entrega.
Projeto da Lecar e mudanças de estratégia
Fundada em 2022, a Lecar surgiu com a proposta de desenvolver um automóvel nacional competitivo, utilizando como referência o modelo de inovação associado à Tesla e à trajetória de Elon Musk.
A narrativa construída em torno do fundador destaca a iniciativa de desmontar um veículo da montadora americana para compreender sua tecnologia, estratégia que ajudou a consolidar a identidade da marca no ambiente digital.
Com o avanço do projeto, no entanto, decisões estratégicas foram revistas, incluindo o abandono da proposta inicial de lançar um carro 100% elétrico.
A empresa passou a priorizar o desenvolvimento de veículos híbridos, adotando o sistema conhecido como range extender, no qual um motor a combustão atua como gerador para recarregar a bateria do veículo.

Essa mudança foi oficialmente comunicada em junho de 2024 e passou a orientar a nova fase do projeto industrial apresentado pela companhia.
Modelos anunciados e promessa de autonomia
Atualmente, o principal modelo divulgado pela empresa é o Lecar 459 Híbrido Flex Range Extender, descrito como um veículo de tração totalmente elétrica, mas sem necessidade de recarga por meio de tomada convencional.
Segundo a própria fabricante, o modelo combina um motor elétrico de 165 cv com um gerador a combustão, proposta que busca contornar limitações de infraestrutura de recarga no país.
Além disso, a empresa também apresenta uma picape chamada Lecar Campo, cuja divulgação enfatiza a promessa de autonomia de até 1.000 km, argumento que contribuiu para ampliar o alcance da marca nas redes sociais.
Fábrica no Espírito Santo e cronograma
Após revisões no planejamento inicial, a cidade de Sooretama, no Espírito Santo, foi definida como sede da futura fábrica, substituindo alternativas anteriormente consideradas, como o estado do Rio Grande do Sul.
De acordo com a empresa, o terreno já foi aprovado e o projeto estaria em fase de preparação para etapas seguintes, incluindo prototipagem e estruturação da produção em escala.
Ainda assim, o início das operações industriais segue previsto apenas para agosto de 2027, o que mantém o empreendimento em estágio preliminar diante das promessas já apresentadas ao mercado.
Nesse contexto, a investigação oficial concentra atenção na sustentabilidade do modelo de financiamento adotado, especialmente na antecipação de receitas por meio da adesão de consumidores.
Defesa de Flávio Assis
Em resposta às suspeitas, Flávio Assis afirmou que a estrutura da Lecar não se configura como pirâmide financeira e que a comunicação do negócio é transparente em relação ao estágio atual do projeto, em entrevista concedida ao portal Metrópoles.
O empresário também negou a existência de mecanismos de escassez artificial ou pressão para adesão, sustentando que os clientes têm ciência das condições e riscos envolvidos.
“Não temos o carro homologado, não temos fábrica, tudo está em desenvolvimento. Não estamos vendendo algo diferente do que comunicamos”.
Segundo ele, o plano de negócio prevê contribuição de 50% para a entrega do bem, destacando ainda que a entrada de novos clientes amplia o volume de recursos disponíveis para viabilizar o projeto.
Apesar das declarações, o empresário não informou o número de veículos vendidos nem a quantidade de executivos envolvidos na operação da empresa até o momento.
Sobre a construção da fábrica, Assis reconheceu atrasos no cronograma e afirmou que o projeto segue em andamento, com expectativa de lançamento da pedra fundamental em breve.
A investigação prossegue analisando a compatibilidade entre o estágio atual do empreendimento e a forma como os veículos vêm sendo ofertados ao público.

