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Ele não vem das flores, é produzido apenas a cada dois anos e mais de 90% vai direto para a Europa: conheça o mel de melato da bracatinga de Santa Catarina, considerado um dos mais raros do mundo e desprezado pelo próprio Brasil

Publicado em 29/03/2026 às 13:38
Atualizado em 29/03/2026 às 13:41
Mel de melato da bracatinga de Santa Catarina é um dos mais raros do mundo, mas o Brasil exporta mais de 90% da produção para a Europa. Entenda por quê.
Mel de melato da bracatinga de Santa Catarina é um dos mais raros do mundo, mas o Brasil exporta mais de 90% da produção para a Europa. Entenda por quê.
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O mel de melato da bracatinga é considerado um dos mais raros do mundo, tem produção exclusiva no Sul do Brasil a cada dois anos e rende até 80 quilos por colmeia, mas Santa Catarina exporta mais de 90% para a Europa especialmente a Alemanha porque o próprio mercado brasileiro ainda prefere mel claro e ignora esse produto extraordinário.

Existe um tipo de mel que não nasce das flores, não é colhido todos os anos e tem como ingrediente principal a seiva de uma árvore nativa do Sul do Brasil. O mel de melato da bracatinga é produzido em larga escala quase exclusivamente em Santa Catarina, com destaque para a região de São Joaquim, na Serra Catarinense. Sua cor é mais escura, seu sabor é menos doce e sua composição nutricional chega a ter dez vezes mais sais minerais do que o mel convencional mas a maioria dos brasileiros nunca ouviu falar dele.

A razão para o desconhecimento é tão curiosa quanto o próprio produto. O Brasil, culturalmente, valoriza mel claro e adocicado. O mel de melato, escuro e com sabor mais complexo, foi durante anos rejeitado pelos próprios apicultores. Enquanto isso, a Europa especialmente a Alemanha descobriu suas propriedades e se tornou o principal destino de mais de 90% da produção catarinense. O resultado é um paradoxo: o país que produz um dos tipos de mel mais raros do mundo é o que menos o consome.

Como um mel que não vem das flores é produzido na bracatinga

Epagri-SC

A história começa com uma árvore. A bracatinga é uma espécie nativa da Mata Atlântica, presente nos estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul.

O que torna essa árvore especial para a apicultura não são suas flores, mas pequenos insetos chamados cochonilhas que vivem em sua casca. As cochonilhas perfuram o tronco da bracatinga para se alimentar da seiva e, nesse processo, liberam um líquido açucarado chamado melato.

É esse melato que as abelhas coletam. As principais produtoras são abelhas da espécie Apis mellifera, conhecidas como abelhas-europeias, que recolhem o líquido e o transformam em mel dentro das colmeias. O processo é fundamentalmente diferente da produção de mel floral: em vez de néctar de flores, a matéria-prima é a seiva processada da árvore. Isso dá ao mel de melato da bracatinga características únicas em sabor, cor e composição.

A produção acontece apenas a cada dois anos. O motivo é biológico: as cochonilhas precisam de um ciclo completo de reprodução para infestar a bracatinga em quantidade suficiente.

A colheita geralmente ocorre entre janeiro e março, e depende de condições climáticas favoráveis o clima seco é ideal, enquanto períodos de muita chuva prejudicam toda a safra. Em anos bons, uma única colmeia pode render até 80 quilos de mel. Em anos ruins, o máximo não passa de 10 quilos.

Por que Santa Catarina domina a produção desse mel raro

imagem: reprodução TV Brasil

Santa Catarina é o maior produtor mundial de mel de melato da bracatinga, e o epicentro dessa produção está na Serra Catarinense, especialmente no município de São Joaquim. A região reúne as condições ideais: altitude elevada, presença abundante de bracatingas nativas e uma tradição apícola consolidada ao longo de décadas no Planalto Sul.

Em 2021, o mel de melato de São Joaquim recebeu o selo de Indicação Geográfica (IG) Planalto Sul Brasileiro, abrangendo uma área de produção de 58.987 quilômetros quadrados com 134 cidades de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul.

O selo garante rastreabilidade, autenticidade e comprova que essa produção só pode ocorrer nessa região específica um reconhecimento que agrega valor e diferencia o produto no mercado internacional.

Segundo Rodrigo Durieux da Cunha, chefe da Divisão de Estudos Apícolas da Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina), existe um associativismo organizado entre os produtores da região.

“Tem instituições que prestam orientações aos produtores, a Epagri leva informações para se produzir com qualidade, além de outras parcerias”, afirma. Essa estrutura é o que permite que Santa Catarina mantenha a produção em escala mesmo com as limitações naturais do ciclo bienal.

Por que o Brasil rejeita o mel de melato e a Europa paga caro por ele

imagem: Serra Sul Ecoturismo

A rejeição brasileira ao mel de melato tem raiz cultural. “A nossa cultura valoriza méis claros, e até um tempo atrás os apicultores não gostavam porque era um mel que não era aproveitado, não tinha valor”, explica Rodrigo Durieux da Cunha, da Epagri. Durante anos, produtores consideravam o mel escuro da bracatinga como um subproduto sem mercado.

A virada aconteceu quando laboratórios europeus analisaram a composição do mel de melato da bracatinga e descobriram propriedades notáveis.

O produto é rico em sais minerais até dez vezes mais do que o mel floral, possui baixo teor de glicose e frutose, e apresenta funções antioxidantes, anti-inflamatórias e antibacterianas. Para o consumidor europeu, acostumado a pagar mais por alimentos funcionais e rastreados, esse mel se tornou artigo de luxo.

A Alemanha é o maior comprador. Mais de 90% da produção de mel de melato de Santa Catarina cruza o Atlântico, e o produto chega às prateleiras europeias com preços muito superiores ao que seria praticado no mercado interno brasileiro. O paradoxo é evidente: o Brasil produz, mas não consome; a Europa não produz, mas valoriza. Santa Catarina vem trabalhando para mudar esse cenário, mas a preferência nacional pelo mel claro ainda domina.

Mel floral e mel de melato: as diferenças que explicam a raridade

A diferença entre os dois tipos de mel começa na origem e se estende até a prateleira. O mel floral o que a maioria dos brasileiros conhece é produzido a partir do néctar das flores. Ele é colhido de duas a três vezes por ano, tem coloração clara, sabor suave e tende a cristalizar com o tempo por conter mais glicose. É o mel padrão do mercado nacional.

O mel de melato da bracatinga segue outra lógica. Sua matéria-prima é a seiva da árvore, processada pelas cochonilhas e coletada pelas abelhas. A cor é escura, quase âmbar. O sabor é menos doce e mais complexo, com notas que lembram malte.

A composição química é marcada por alto teor de minerais e baixo teor de açúcares simples, o que faz dele um mel que não cristaliza com a mesma facilidade e que oferece benefícios nutricionais superiores.

A raridade é consequência direta do ciclo de produção. Enquanto o mel floral pode ser colhido várias vezes ao ano em praticamente qualquer região do Brasil, o mel de melato da bracatinga só é produzido a cada dois anos, em uma faixa geográfica restrita ao Sul do país, e depende de condições climáticas que nem sempre colaboram. Esse conjunto de fatores torna cada safra valiosa e cada quilo, disputado.

Os desafios que ameaçam o futuro da produção

Apesar do prestígio internacional, a produção de mel de melato enfrenta problemas concretos. Joel de Souza Rosa, apicultor nos Apiários Real em São Joaquim, aponta que a bracatinga começa a secar após cinco anos de vida e que não há programa de renovação das plantações.

“Algo do governo ou de algum órgão ambiental para a gente fazer renovações das plantas. Senão a gente vai se preocupar porque está diminuindo muito, elas estão secando”, alerta o produtor.

Sem reposição das bracatingas, a base florestal que sustenta toda a cadeia de produção do mel de melato encolhe a cada ciclo.

É uma ameaça silenciosa: enquanto a demanda europeia cresce e o selo de Indicação Geográfica valoriza o produto, a matéria-prima que alimenta as cochonilhas e, por consequência, as abelhas está diminuindo. A ausência de incentivo público para o replantio coloca em risco não apenas o mel, mas a própria tradição apícola da Serra Catarinense.

O clima é outro fator de incerteza. Safras inteiras podem ser comprometidas por excesso de chuva, algo que se torna mais imprevisível com as mudanças climáticas.

Para que Santa Catarina continue sendo referência mundial na produção desse mel raro, será necessário investimento em renovação florestal e adaptação às condições climáticas que já não são as mesmas de décadas atrás.

Com informações do portal NDMAIS.

Você já experimentou o mel de melato da bracatinga ou conhecia essa história? Acha que o Brasil deveria valorizar mais esse produto em vez de exportar quase tudo para a Europa? Conta nos comentários esse debate sobre o que o país produz de melhor e não reconhece merece a sua opinião.

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Geraldo Gambini da Silva
Geraldo Gambini da Silva
03/04/2026 09:49

Sim o Brasil deveria valorizar Muito mais este mel de Melato pois cada vez se procura ter uma vida com ingredientes ou produtos mais saudáveis e olha aí a natureza dando isso para o brasileiro e o brasileiro não sabendo ou até desprezando este produto tão saudável e valorizado por seus ingredientes, aí se vê como o Brasil é rico em sua natureza e infelizmente precisa um país de fora fazer uma análise de um produto produzido pela nossa natureza para valorizá-lo, quem sabe conhecendo esses fatos e essas histórias da nossa natureza começamos a valorizar mais o que é nosso” salve o Brasil”

Teresinha DAgostini
Teresinha DAgostini
01/04/2026 23:14

Eu tive uma aula em Ubirici S. C.na ocasião fomos conhecer a planta e comprei o mel ali produzido.
Foi em uma excursão planejada por professores.
Fiquei encantada com o conhecimento, hoje li a sua reportagem e lembrei disso tudo. E necessário a reprodução dessa árvore . Gratidão !

Leonardo Cardoso Ferolla da Silvw
Leonardo Cardoso Ferolla da Silvw
30/03/2026 04:57

Onde posso comprar esse mel

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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