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Ela trocou o atendimento ao cliente pela solda de gasodutos e virou a 2ª mulher soldadora da história da concessionária, onde hoje lidera uma equipe inteira em San Diego

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 27/06/2026 às 14:00 Atualizado em 27/06/2026 às 14:03
Do atendimento ao cliente à solda de gasodutos: a 2ª mulher soldadora da concessionária de energia de San Diego hoje lidera uma equipe inteira.
Do atendimento ao cliente à solda de gasodutos: a 2ª mulher soldadora da concessionária de energia de San Diego hoje lidera uma equipe inteira.
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Kyla Hagge trabalhava no atendimento ao cliente até trocar de carreira e virar soldadora de gasodutos na SDG&E, a concessionária de energia de San Diego, nos EUA. Hoje, ela é a segunda mulher soldadora da história da empresa e lidera uma equipe inteira, num ofício ainda dominado por homens.

Trocar o fone de ouvido de um call center por uma máscara de solda não é uma mudança comum, mas foi exatamente o caminho de Kyla Hagge. Depois de anos no atendimento ao cliente e em funções administrativas, ela migrou para a operação de gasodutos da SDG&E, a San Diego Gas & Electric, concessionária de energia do sul da Califórnia, nos Estados Unidos. A trajetória foi contada pela SDG&E Today, o canal de notícias da própria empresa.

A virada a colocou nos livros de história da companhia. Kyla se tornou a segunda mulher soldadora da história da SDG&E, atrás apenas de Noelya Collon, a primeira, e hoje comanda a própria equipe como líder de turma. Em um setor de energia tradicionalmente masculino, é uma quebra de estereótipo construída na base da competência técnica, e não de discurso.

Mais do que uma história pessoal bonita, o caso ilumina um ponto caro à indústria de energia. A solda de gasodutos é uma das funções mais críticas e mais bem pagas do setor, e também uma das mais fechadas para as mulheres. Ver uma profissional sair do atendimento ao cliente e chegar à liderança de uma equipe de solda diz muito sobre como portas começam a se abrir.

Do atendimento ao cliente para a solda de gasodutos

Ela trocou o atendimento ao cliente pela solda de gasodutos
Ela trocou o atendimento ao cliente pela solda de gasodutos

A entrada de Kyla no mundo técnico não foi por acaso, e sim por um programa. Segundo a SDG&E, ela chegou à empresa pelo “Intro to Construction Career”, uma iniciativa de formação criada em parceria com a San Diego Workforce Partnership para levar pessoas de fora do setor para as carreiras de construção e operação. Foi a ponte que ligou o atendimento ao cliente ao canteiro de obras.

Uma vez dentro, ela apostou no departamento de gás. Em vez de buscar uma função administrativa parecida com a que já tinha, Kyla escolheu permanecer na área operacional e esperar a chance de virar soldadora, mesmo sabendo que era um caminho difícil. “Fico muito feliz por ter ficado no departamento de gás e ter buscado a oportunidade de soldadora quando chegou a minha vez”, disse ela à SDG&E.

Essa decisão exigiu coragem para recomeçar quase do zero. Sair de uma rotina de escritório para aprender um ofício braçal e técnico significa encarar uma curva de aprendizado íngreme, sem garantia de sucesso. Mas foi justamente essa disposição de se reinventar que transformou uma funcionária do atendimento ao cliente em uma soldadora de gasodutos qualificada.

O caso dela se encaixa em um movimento crescente. Cada vez mais pessoas trocam empregos de escritório e de atendimento por carreiras técnicas, atraídas por salários melhores, estabilidade e a satisfação de um trabalho concreto, feito com as próprias mãos. Kyla entrou nessa onda antes de ela virar tendência e provou que a mudança é possível mesmo sem experiência prévia na área.

A 2ª mulher soldadora da história da SDG&E

Do atendimento ao cliente à solda de gasodutos: a 2ª mulher soldadora da concessionária de energia de San Diego hoje lidera uma equipe inteira.
Do atendimento ao cliente à solda de gasodutos: a 2ª mulher soldadora da concessionária de energia de San Diego hoje lidera uma equipe inteira.

O feito tem peso porque é raro. A SDG&E tem mais de 140 anos de história, e Kyla é apenas a segunda mulher a se tornar soldadora na companhia, vindo logo depois de Noelya Collon, que abriu o caminho como a primeira. Em mais de um século de operação, foram pouquíssimas as mulheres a ocupar esse posto.

A raridade não é só da empresa, é do setor inteiro. Levantamentos do mercado americano apontam que cerca de 5% dos soldadores nos Estados Unidos são mulheres, um número pequeno que mostra o tamanho da barreira cultural e profissional. Cada nova soldadora, nesse contexto, é uma exceção que ajuda a empurrar a média para cima.

Por isso a marca de “segunda da história” carrega um simbolismo grande. Não se trata apenas de uma estatística interna da concessionária de San Diego, e sim de um sinal de que um ofício historicamente masculino está, aos poucos, deixando de ser exclusivo dos homens. Kyla virou referência para outras mulheres que pensam em seguir o mesmo rumo.

Há também um lado prático que costuma ser esquecido. Em uma concessionária de energia, a vaga de soldador costuma vir com salário robusto, plano de carreira e estabilidade, do tipo que muitos empregos de escritório não oferecem. Para Kyla, a aposta arriscada de recomeçar não foi só uma realização pessoal, mas também um salto de qualidade de vida e de renda.

Quem foi a primeira: a trilha aberta por Noelya Collon

Para entender a história de Kyla, é preciso conhecer quem veio antes. Noelya Collon entrou na SDG&E como auxiliar de construção de gás e, ao perceber que nenhuma mulher havia concluído a escola de solda na empresa, decidiu ser a primeira a tentar. Sua determinação a levou de auxiliar a soldadora pioneira, abrindo a porta que Kyla atravessaria em seguida.

O pioneirismo virou também um trabalho de equipe. Noelya passou a integrar a primeira turma totalmente feminina de gás da SDG&E, que, segundo a 10News, chegou a disputar o tradicional rodeio de habilidades da concessionária, uma competição interna que testa a destreza das equipes de campo. Foi a primeira vez em mais de 140 anos que um time só de mulheres entrou na disputa.

A frase de Noelya resume o espírito das duas. “É sobre mostrar aos meus filhos e a outras mulheres que somos capazes de fazer coisas difíceis”, afirmou a primeira soldadora da empresa. É nesse mesmo terreno, aberto por ela, que Kyla construiu a própria carreira e chegou à liderança.

O que é soldar um gasoduto e por que é tão difícil

O que é soldar um gasoduto e por que é tão difícil
O que é soldar um gasoduto e por que é tão difícil

Soldar gasoduto não é o mesmo que soldar qualquer peça de metal. O trabalho exige unir tubos que vão transportar gás sob pressão, o que torna cada cordão de solda uma questão de segurança, e não só de acabamento. Uma falha minúscula pode virar um vazamento, então o nível de precisão cobrado é altíssimo do começo ao fim.

Por isso a formação é dura e seletiva. A escola de solda combina esforço físico, leitura técnica e horas de prática até a mão ganhar firmeza, e reprova quem não atinge o padrão exigido. “A escola de solda foi difícil, mental e fisicamente, mas foi uma experiência extremamente gratificante”, contou Kyla, descrevendo o desafio que enfrentou para se qualificar.

No dia a dia, o ofício mistura força e delicadeza. As equipes de gás cortam tubos, encaixam tubulações de polietileno em canos de metal e conectam tudo às linhas principais de distribuição, sempre seguindo normas rígidas de qualidade. É um trabalho que une o corpo e a técnica, e que não perdoa pressa nem distração.

Há ainda o peso emocional de ser exceção. Aprender um ofício difícil já é duro por si só, e fazê-lo sendo uma das pouquíssimas mulheres na sala aumenta a pressão. Kyla lembra que o apoio dos colegas foi decisivo: “Enquanto eu estava na escola de solda, recebi muitas mensagens e ligações de incentivo de gente da empresa. Esse apoio me manteve motivada e me lembrou do objetivo final.”

Por que a solda é crítica para a segurança do gás

reportagem da ABC 10News

A função de Kyla está no coração da infraestrutura de energia. Os gasodutos são as artérias que levam o gás natural das redes principais até as casas, o comércio e a indústria, e cada junção soldada precisa aguentar pressão, variações de temperatura e décadas de uso. Sem solda de qualidade, não há distribuição segura de gás.

É por isso que a concessionária trata a solda como item de segurança máxima. Empresas como a SDG&E mantêm programas rígidos de integridade de gasodutos, com inspeção, testes e manutenção constante, e os soldadores são peça central nesse sistema. O trabalho que Kyla executa é, na prática, uma das últimas barreiras entre o gás e um acidente.

Esse caráter estratégico valoriza a profissão. Em um momento em que o setor de energia discute transição, segurança e modernização das redes, a mão de obra técnica qualificada se tornou escassa e disputada. Soldadores de gasoduto bem treinados, homens ou mulheres, são justamente o tipo de profissional que falta ao mercado, o que torna histórias como a de Kyla ainda mais relevantes.

Um ofício bem pago e em falta no mundo todo

A solda é uma daquelas profissões que desmentem a ideia de que só o diploma universitário garante futuro. Bem remunerada e quase sempre em demanda, ela exige formação técnica intensa, mas não um curso de quatro anos, o que a torna uma porta de entrada relativamente rápida para uma carreira sólida. Em muitos lugares, um soldador qualificado ganha mais do que profissionais de nível superior.

No setor de energia, a procura é ainda maior do que a oferta. Boa parte da força de trabalho técnica está envelhecendo e se aposentando, enquanto poucos jovens entram para substituí-la, criando um gargalo que preocupa concessionárias e empreiteiras. Faltam mãos qualificadas para construir e manter gasodutos, redes elétricas e as demais estruturas que sustentam a energia.

É exatamente nesse vácuo que histórias como a de Kyla ganham importância estratégica. Ao trazer mulheres e pessoas de outras áreas para a solda, o setor praticamente dobra o tamanho do time disponível e ataca a escassez de mão de obra por um caminho que sempre esteve à vista, mas era pouco usado. Diversidade, aqui, é também eficiência.

Para quem busca recomeço, o recado é animador. A trajetória de Kyla mostra que é possível entrar num ofício em falta, ser bem pago e ainda crescer até a liderança, mesmo começando sem nenhuma experiência técnica. Num mundo de empregos instáveis, dominar a solda de gasodutos virou uma espécie de seguro de carreira.

De soldadora a líder de equipe

A trajetória de Kyla não parou na bancada de solda. Hoje, ela atua como líder de equipe, responsável por coordenar o trabalho em projetos de grande porte, garantindo que as obras sejam concluídas com eficiência e segurança. Em poucos anos, saiu de quem aprendia o ofício para quem orienta os colegas no campo.

Liderar uma turma de gás é uma camada nova de responsabilidade. Além de soldar, ela precisa planejar, distribuir tarefas, cuidar dos prazos e, acima de tudo, zelar pela segurança de todos os integrantes da equipe. É um papel que exige domínio técnico e capacidade de gestão ao mesmo tempo, raramente associado, no imaginário comum, a uma ex-atendente de call center.

Kyla também usa a posição para abrir portas a outras pessoas. Segundo a SDG&E, ela participa de iniciativas de diversidade e inclusão na empresa, e enxerga nas próprias oportunidades uma forma de inspirar quem vem atrás. “Pude conhecer, aprender e colaborar com tantos colegas que compartilham os mesmos valores no trabalho”, disse, sobre o que ganhou no caminho.

Liderar sendo mulher também manda um recado silencioso. Quando uma equipe de campo passa a ser comandada por quem já foi a exceção na sala, a próxima mulher que chega encontra um ambiente um pouco menos hostil e um exemplo concreto de até onde dá para ir. É assim, na prática do dia a dia, que um estereótipo vai sendo desmontado.

A quebra de estereótipo no setor de energia

O caso de Kyla é parte de um movimento maior. O setor de energia, das distribuidoras às empreiteiras de gasoduto, sempre foi um ambiente de forte predomínio masculino, especialmente nas funções de campo. Ver mulheres assumindo a solda e a liderança de equipes é uma mudança recente e ainda tímida, mas concreta.

Programas de formação têm sido a chave dessa virada. Iniciativas como o “Intro to Construction Career”, que levou Kyla para a área técnica, mostram que a barreira muitas vezes está no acesso, e não na capacidade. Quando empresas e governos criam pontes para que mulheres entrem em carreiras industriais, os resultados aparecem.

A representatividade, nesse cenário, vira combustível. Cada soldadora ou líder de equipe que aparece serve de exemplo para meninas e mulheres que jamais tinham se imaginado naquele papel. Como resumiu uma colega de Kyla em outra reportagem da concessionária, liderança e ética de trabalho não têm gênero, e é essa ideia que histórias como a dela ajudam a espalhar.

O que o Brasil tem a ver: mulheres na energia e no gás

A discussão chega cheia ao Brasil. O país tem uma indústria de petróleo e gás robusta, com gasodutos, distribuidoras e um parque industrial que dependem de soldadores e técnicos qualificados, em funções historicamente ocupadas por homens. A presença feminina nesses cargos de campo ainda é pequena, mas cresce ano a ano.

Empresas brasileiras de energia já correm atrás dessa mudança. Petrobras, distribuidoras de gás e companhias do setor elétrico vêm criando programas para atrair e formar mulheres em áreas técnicas, do chão de fábrica à operação de plataformas, na mesma lógica do programa que abriu caminho para Kyla. O desafio é transformar essas iniciativas em números expressivos.

Há também uma oportunidade econômica clara. O Brasil convive com escassez de mão de obra técnica especializada, e abrir de fato as profissões de solda e manutenção de gasodutos para as mulheres amplia o time disponível justamente onde faltam profissionais. Diversidade, nesse caso, não é só justiça social, é também solução para um gargalo do setor de energia.

No fim, a lição de San Diego serve para qualquer lugar. A trajetória de Kyla Hagge mostra que, com formação, oportunidade e apoio, uma mulher pode sair do atendimento ao cliente e chegar à liderança de uma equipe de solda de gasodutos. É o tipo de história que o setor de energia brasileiro pode não só aplaudir, mas também repetir.

E você, conhecia uma história assim?

A trajetória de Kyla Hagge prova que estereótipo nenhum é definitivo: ela trocou o atendimento ao cliente pela solda de gasodutos, virou a segunda mulher soldadora da história da concessionária de energia de San Diego e hoje lidera uma equipe inteira, num dos ofícios mais técnicos e masculinos do setor.

E você, acha que o Brasil está abrindo espaço suficiente para as mulheres nas profissões técnicas de energia, como a solda de gasodutos? Conta aqui nos comentários se você conhece alguma mulher que quebrou esse tipo de barreira e o que ainda falta para que histórias como a de Kyla se tornem comuns por aqui.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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