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Egito ergue maior estação de tratamento de esgoto do mundo, limpa água suja, irriga 140 mil hectares, reaproveita milhões de metros cúbicos por dia e vira arma gigante contra sede e calor em crise hídrica

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 27/12/2025 às 14:29
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No Egito, a maior estação de tratamento de esgoto do mundo, Bahr el Baqar, usa tratamento de esgoto e reuso de água para enfrentar crise hídrica no deserto.
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Projetada para captar e tratar águas residuais do canal Bahr el Baqar, a maior estação de tratamento de esgoto do mundo reaproveita 5,6 milhões de metros cúbicos por dia, irrigando 140 mil hectares e virando escudo egípcio contra escassez, calor extremo e insegurança hídrica futura no século XXI mais quente

Em setembro de 2021, o Egito inaugurou na região de Porto Said, no norte do país, a maior estação de tratamento de esgoto do mundo, o complexo Bahr el Baqar, construída entre setembro de 2019 e maio de 2021 para tratar até 5,6 milhões de metros cúbicos de água por dia e processar 64,8 metros cúbicos por segundo em quatro linhas idênticas de tratamento avançado.

O projeto, orçado em cerca de 739 milhões de dólares com financiamento dividido entre governo egípcio, Fundo Árabe para o Desenvolvimento Econômico e Social e Fundo do Kuwait, foi pensado para reverter décadas de poluição do canal aberto no fim dos anos 1960, ao mesmo tempo em que responde a uma crise hídrica crescente em um país cuja população saltou de 34,78 milhões de habitantes em 1970 para 107,5 milhões em 2020 e que registrou em 2021 o verão mais quente em mais de 70 anos de medições, com média de 31,2 graus Celsius.

De canal de drenagem agrícola a foco de poluição crítica

No Egito, a maior estação de tratamento de esgoto do mundo, Bahr el Baqar, usa tratamento de esgoto e reuso de água para enfrentar crise hídrica no deserto.

A história da maior estação de tratamento de esgoto do mundo começa com um outro projeto de engenharia, o canal Bahr el Baqar, construído no fim da década de 1960 para drenar águas residuais agrícolas e industriais de áreas secundárias do delta do Nilo.

O objetivo original era desviar o excesso de água do rio e recuperar terras para a agricultura em uma região estratégica próxima ao Mediterrâneo e ao Canal de Suez.

Com o avanço da industrialização em Porto Said, quinta cidade mais populosa do Egito, o canal deixou de ser apenas rota de drenagem agrícola e virou ponto de descarte de efluentes industriais, escoamento agrícola e esgoto doméstico apenas parcialmente tratado.

O resultado foi um curso d’água altamente poluído, com níveis elevados de matéria orgânica, nitrogênio, fósforo, metais pesados e patógenos, comprometendo a vida aquática e a saúde da população ao redor.

A deterioração da qualidade da água somou-se a um contexto global em que apenas cerca de 1 por cento da água do planeta é própria para consumo, 40 por cento das terras são áridas e aproximadamente 4,2 bilhões de pessoas vivem sem saneamento básico, segundo dados da ONU, o que colocou pressão adicional sobre países de clima árido como o Egito.

Como funciona a maior estação de tratamento de esgoto do mundo

No Egito, a maior estação de tratamento de esgoto do mundo, Bahr el Baqar, usa tratamento de esgoto e reuso de água para enfrentar crise hídrica no deserto.

O complexo Bahr el Baqar ocupa cerca de 650 mil metros quadrados perto de Porto Said e foi construído em aproximadamente 20 meses, com mais de 6,5 mil trabalhadores atuando em três turnos e exigindo a cravação de 6,5 mil estacas de 80 por 100 centímetros para estabilizar o solo arenoso e sustentar as fundações.

As águas residuais chegam à maior estação de tratamento de esgoto do mundo por três grandes drenos, um deles com 106 quilômetros ligando a parte leste da Grande Cairo ao lago Manzala.

A partir daí, a água passa por canais de captação, estações de bombeamento, bacias de mistura rápida e lenta, etapas de coagulação, floculação, decantação, filtração e desinfecção por ozônio e cloro, em um tratamento terciário físico e químico desenhado para produzir água de qualidade adequada à irrigação e à aquicultura.

O sistema é composto por quatro unidades idênticas de tratamento, cada uma com sua linha completa de captação, mistura, sedimentação e filtragem, o que permite modular a operação de acordo com a vazão e fazer manutenção sem parar toda a planta.

Em capacidade plena, o conjunto consegue processar cerca de 5,6 milhões de metros cúbicos de água por dia, o equivalente a encher aproximadamente 2 mil piscinas olímpicas diariamente.

Lodo, energia solar e três recordes mundiais no deserto

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Além do tratamento da água, a maior estação de tratamento de esgoto do mundo opera uma linha complexa de manejo de lodo.

O sistema inclui bacias de espessamento, unidades de secagem mecânica e estruturas de secagem solar que, juntas, permitem processar cerca de 490 mil toneladas de lodo por ano a um nível de secagem de 24 por cento, convertidas em aproximadamente 165 mil toneladas a 75 por cento de secagem.

Essas unidades de secagem formam o maior sistema de secagem de lodo movido a energia solar do mundo, com cerca de 250 mil metros quadrados de área dedicada, o que reduz o uso de energia convencional e diminui o volume de resíduos a serem dispostos ou reaproveitados.

Pelos números e pela escala dos equipamentos, Bahr el Baqar detém três recordes homologados pelo Guinness World Records: maior instalação de tratamento de água com capacidade de 64,8 metros cúbicos por segundo, maior estação de tratamento de lodo e maior gerador de ozônio operado por um único operador, consolidando o projeto como vitrine de engenharia hídrica em clima árido.

Irrigação de 140 mil hectares e reforço à produção agrícola

A água tratada na maior estação de tratamento de esgoto do mundo não volta simplesmente para o canal.

O projeto prevê que o volume processado seja encaminhado por túneis que cruzam sob e ao longo do Canal de Suez até o canal Sheikh Jaber, de onde é distribuído para áreas agrícolas.

De acordo com os números oficiais, a água reaproveitada permite irrigar cerca de 140 mil hectares de terras, o equivalente aproximado a 129.629 campos de futebol com medidas padrão da Fifa, ampliando a fronteira agrícola em uma região marcada por clima seco e solos que dependem fortemente de irrigação para serem produtivos.

Na prática, isso significa que cada metro cúbico recuperado em Bahr el Baqar deixa de ser apenas resíduo e passa a ser insumo para a agricultura e para a pesca locais, aliviando a pressão sobre o Nilo e transformando esgoto e drenagem agrícola em parte da solução para o abastecimento de água em áreas rurais do país.

Crescimento populacional, calor extremo e a crise hídrica egípcia

O Egito é apontado pela ONU como país em rota de potencial crise hídrica até 2050, pressionado por três vetores principais: secas mais frequentes, aumento da temperatura média e crescimento acelerado da população.

Dados do Banco Mundial indicam que a população egípcia passou de 34,78 milhões em 1970 para 107,5 milhões em 2020, um crescimento de aproximadamente três vezes em meio século, superior ao aumento proporcional registrado no Brasil no mesmo período.

O aquecimento recente agrava o cenário.

Arquivos do serviço meteorológico alemão mostram que 2021 registrou o verão mais quente em mais de 70 anos de medições no país, com média de 31,2 graus Celsius.

Temperaturas mais altas significam maior demanda de água para consumo humano e, sobretudo, para irrigação agrícola, justamente o setor que mais consome água e que depende da estabilidade de projetos como Bahr el Baqar.

Nesse contexto, a maior estação de tratamento de esgoto do mundo aparece como peça central da estratégia Vision 2030, plano do governo egípcio que prioriza a reutilização de água para o setor agrícola e integra um pacote de projetos de infraestrutura, transporte, saneamento e habitação que recebeu mais de 20 bilhões de dólares em investimentos entre 2014 e 2020.

Investimento bilionário e efeito demonstração para outros países áridos

O investimento de aproximadamente 739 milhões de dólares em Bahr el Baqar, com participação relevante de fundos árabes multilaterais, vai além da solução local.

O projeto funciona como vitrine de que é tecnicamente possível recuperar grandes volumes de água residual, tratar lodo em escala industrial e sustentar irrigação com base em reuso em regiões áridas, combinando engenharia civil pesada, tecnologia de tratamento avançado e gestão integrada.

Por reunir capacidade recorde de tratamento de água, maior estação de lodo e maior gerador de ozônio sob um único operador, a maior estação de tratamento de esgoto do mundo tende a inspirar iniciativas semelhantes em outros países de clima árido que enfrentam desafios combinados de escassez, crescimento populacional e necessidade de ampliar produção agrícola sem esgotar fontes tradicionais de água doce.

Ao mesmo tempo, o projeto reforça a mensagem básica apontada pelos dados globais de água: mesmo em um planeta em que 70 por cento da superfície é coberta por água, a parcela efetivamente disponível e segura para consumo é limitada, e soluções de reuso em grande escala passam a ser parte estrutural das estratégias nacionais de segurança hídrica.

Diante de um cenário em que o Egito recorre à maior estação de tratamento de esgoto do mundo para transformar esgoto e drenagem agrícola em água útil e irrigar 140 mil hectares em área árida, na sua opinião projetos gigantes de reuso como Bahr el Baqar deveriam ser prioridade absoluta em outros países com seca crônica ou ainda existe resistência em apostar tanto dinheiro nessa solução de longo prazo?

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Bruno Teles

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