Um algoritmo calculou que rampas embutidas nas arestas da pirâmide permitiriam concluí-la em 14 a 21 anos. Outro estudo na Nature propõe que a Grande Galeria era uma rampa de contrapesos. Ambos dispensam tecnologias impossíveis.
A pirâmide de Quéops tem 2,3 milhões de blocos de pedra, uma base de 230 metros de lado e 147 metros de altura. Foi erguida por volta de 2.560 a.C., durante um reinado que durou cerca de 27 anos. Para cumprir esse prazo, os construtores precisavam posicionar um bloco a cada poucos minutos, todos os dias, durante décadas. Nenhuma teoria até agora havia demonstrado, com cálculos verificáveis, como isso era possível sem tecnologias que os egípcios comprovadamente não tinham.
Dois estudos publicados em periódicos científicos de alto impacto em 2026 oferecem respostas diferentes para esse problema, e ambos partem da mesma premissa: os egípcios não precisavam de nada além do que já tinham.
O que propõe o modelo de rampas integradas às arestas?

O engenheiro e pesquisador Vicente Luis Rosell Roig, da Universidade Politécnica de Valência, na Espanha, publicou na npj Heritage Science, do grupo Springer Nature, um estudo que utiliza um modelo computacional tridimensional para testar uma hipótese específica: rampas embutidas nas próprias arestas da pirâmide.
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A ideia é que os construtores deixavam faixas abertas ao longo das bordas externas de cada face durante a elevação dos blocos. Essas faixas funcionavam como rampas em espiral ascendente. À medida que a construção avançava, as seções inferiores eram preenchidas com blocos de acabamento, de cima para baixo, eliminando qualquer vestígio visível ao final da obra.
O algoritmo criado por Rosell Roig calcula a inclinação ideal, a largura das faixas e o ritmo de colocação dos blocos. Os resultados indicam que a construção poderia ser concluída entre 13,8 e 20,6 anos, dentro da janela de 20 a 27 anos aceita pelos egiptólogos quando se incluem as fases de planejamento, transporte e organização.
O aspecto mais relevante desse estudo é que a geometria das rampas propostas coincide com anomalias já detectadas pelo projeto ScanPyramids, que usa raios cósmicos para mapear espaços vazios dentro da estrutura. O corredor identificado na face norte e o desgaste acentuado nos cantos sudeste da pirâmide correspondem a pontos onde, segundo o modelo, o fluxo de blocos seria mais intenso.
“Tecnologias do Antigo Reinado excluíam ferramentas de ferro, transporte pesado com rodas e polias compostas, mas permitiam cinzéis de cobre, trenós lubrificados com água, cordas, alavancas e barcaças no Nilo”, escreveu Rosell Roig no estudo. A limitação tecnológica não é um obstáculo no modelo. É um parâmetro de entrada.
O que propõe o modelo de contrapesos na Grande Galeria?

Um segundo estudo, publicado na revista Nature, adota uma abordagem radicalmente diferente. Em vez de rampas externas ou embutidas nas arestas, a proposta sugere que estruturas internas da pirâmide, especialmente a Grande Galeria e o Corredor Ascendente, funcionavam como rampas inclinadas por onde deslizavam sistemas de contrapeso.
A Grande Galeria é um espaço de aproximadamente 47 metros de comprimento e 8,5 metros de altura, com paredes que se estreitam em direção ao topo. Sua função nunca foi explicada de forma definitiva pela egiptologia. O estudo argumenta que a inclinação, a largura e a orientação da Grande Galeria e do Corredor Ascendente formam um único sistema contínuo compatível com o funcionamento de um mecanismo de elevação baseado em peso e gravidade.
Na prática, blocos pesados seriam erguidos por meio de cordas conectadas a contrapesos que deslizavam por essas passagens internas. Esse sistema funcionaria como uma polia primitiva, multiplicando a força disponível sem exigir tecnologias que os egípcios não possuíam.
Essa hipótese oferece uma explicação para um dos maiores enigmas da construção: como blocos de granito de até 60 toneladas foram posicionados a 70 metros de altura na câmara do rei. Nenhum modelo baseado exclusivamente em rampas externas conseguiu demonstrar que isso era viável com a mão de obra e os materiais disponíveis na época.
Por que esses estudos são diferentes das teorias anteriores?
A história das teorias sobre a construção das pirâmides é longa e nem sempre rigorosa. Ao longo das décadas, já foram propostas explicações que iam desde rampas externas gigantes, que exigiriam mais material do que a própria pirâmide, até hipóteses sobre tecnologias hidráulicas, eletromagnéticas e até intervenção extraterrestre.
O que diferencia os dois estudos de 2026 é o método. Ambos são publicados em periódicos com revisão por pares, ambos utilizam modelagem computacional com parâmetros mensuráveis e ambos se limitam a tecnologias comprovadamente disponíveis no Antigo Reinado egípcio.
Rosell Roig disponibilizou todo o código computacional e os dados do seu modelo na plataforma Zenodo, permitindo que outros pesquisadores testem, critiquem e modifiquem os parâmetros. Esse nível de transparência é raro em estudos sobre construção de pirâmides e permite que a hipótese seja verificada de forma independente.
Os Papiros de Wadi al-Jarf, descobertos em 2013, também sustentam elementos centrais de ambas as teorias. Esses documentos, escritos pelo inspetor Merer há mais de 4.500 anos, descrevem a logística de transporte dos blocos de calcário utilizando barcaças no Nilo, aproveitando as cheias anuais do rio para mover cargas pesadas até o canteiro de obras.
O que a egiptologia já considera resolvido sobre as pirâmides?
Apesar da persistência do mistério construtivo, vários pontos são considerados estabelecidos pela comunidade científica. A datação da pirâmide por volta de 2.560 a.C. está ancorada em inscrições, registros de trabalhadores e análise de materiais orgânicos encontrados na estrutura.
A força de trabalho não era composta por escravizados. Essa ideia, popularizada por relatos gregos escritos mais de dois mil anos depois da construção, foi desmentida por escavações que revelaram vilas de trabalhadores com padarias, cervejarias, dormitórios e até atendimento médico. Registros encontrados nos próprios túmulos dos operários mostram que muitos tinham orgulho do seu trabalho e se identificavam por equipes com nomes como “Amigos de Quéops”.
A organização da mão de obra era complexa e hierárquica, com registros de pagamentos, escalas de folga e distribuição de alimentos. Essa estrutura administrativa é, por si só, uma das maiores realizações do Antigo Reinado, tão impressionante quanto a pirâmide que ela produziu.
Por que o debate sobre as pirâmides continua relevante?
A Grande Pirâmide não é apenas um objeto de curiosidade histórica. Ela representa um dos problemas logísticos mais complexos já resolvidos pela humanidade, e a forma como foi resolvido continua gerando aprendizados para a engenharia contemporânea.
O modelo de Rosell Roig, por exemplo, utiliza técnicas de inteligência artificial e reconhecimento de padrões desenvolvidas originalmente para aplicações industriais. O fato de que essas ferramentas podem ser aplicadas a um problema de 4.500 anos demonstra que a distância entre a engenharia antiga e a moderna é menor do que parece.
Se os egípcios conseguiram coordenar milhares de trabalhadores, movimentar milhões de toneladas de pedra e construir uma estrutura que permanece de pé após 45 séculos usando apenas cobre, corda e água, a pergunta que fica não é como eles fizeram. É por que, com tudo o que temos à disposição, tantos projetos modernos não conseguem nem cumprir prazo. O que você acha sobre isso?


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