Tratado entre Mercosul e União Europeia entra na reta final após mais de 25 anos, amplia o comércio, reduz tarifas gradualmente e gera impactos diretos no bolso, na indústria e no agronegócio até 2040
Após mais de 25 anos de negociações, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia entrou, em 2026, na fase decisiva. Desde então, analistas já conseguem antecipar mudanças relevantes no fluxo de mercadorias entre os blocos. No Brasil, os efeitos tendem a alcançar o consumo diário. Ao mesmo tempo, atingem setores estratégicos como indústria e agronegócio.
De acordo com a professora Regiane Bressan, da Universidade Federal de São Paulo, uma das transformações mais perceptíveis deve atingir diretamente o consumidor. Segundo ela, a integração comercial amplia a presença de produtos tradicionais europeus no mercado brasileiro. Com isso, tende a estimular concorrência e reduzir preços ao longo do tempo.
O tratado tem como objetivo central facilitar as trocas comerciais entre os 27 países da União Europeia e os integrantes do Mercosul. Nesse grupo estão Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Para isso, o acordo prevê a redução gradual de tarifas alfandegárias. A medida vale tanto para produtos europeus vendidos no Brasil quanto para mercadorias sul-americanas exportadas à Europa.
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O acordo abrange um mercado estimado em cerca de 720 milhões de consumidores. Desse total, aproximadamente 450 milhões estão na Europa. Outros 270 milhões vivem na América do Sul. Segundo projeções do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Brasil tende a ser o principal beneficiado. Até 2040, o PIB brasileiro pode registrar alta de 0,46%. Esse avanço supera as projeções para os demais países do Mercosul e para a própria União Europeia.
Produtos importados devem ganhar espaço no mercado brasileiro
Entre os itens que devem ganhar maior presença no Brasil estão vinhos, queijos e lácteos. Esses produtos passam a contar com acesso diferenciado. Assim, abre-se espaço para uma redução gradual de preços. Além disso, itens como azeite, chocolates e bebidas destiladas também podem ficar mais baratos. Esse movimento deve ocorrer no médio e no longo prazo, segundo o consultor Rodrigo Provazzi.
A redução de preços ocorre, principalmente, pela eliminação progressiva das tarifas. Um exemplo são os automóveis europeus, atualmente taxados em 35%. Essa alíquota deverá ser zerada em até 15 anos. Ainda assim, especialistas destacam que a queda será gradual. Isso ocorre devido à complexidade das cadeias globais de produção. Essas cadeias envolvem insumos de diversos países, inclusive da China.
Enquanto alimentos e veículos ganham destaque, medicamentos e produtos farmacêuticos seguem como os principais itens importados da União Europeia. Nesse grupo estão incluídos os produtos de uso veterinário. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços indicam que esses itens representam mais de 8% das importações brasileiras vindas do bloco europeu.
Custos produtivos e investimentos também devem ser afetados
Os impactos do acordo não se restringem aos bens finais. O acesso a máquinas, equipamentos e tecnologias europeias mais baratas tende a reduzir custos de produção. Além disso, pode estimular novos investimentos. Segundo Leonardo Munhoz, pesquisador da Fundação Getulio Vargas, itens como tratores, fertilizantes, drones e sistemas de agricultura de precisão devem se tornar mais acessíveis ao produtor rural.
Na indústria, o efeito é semelhante. A ampliação da importação de bens manufaturados e tecnologias pode viabilizar a modernização produtiva. Para Regiane Bressan, exportar produtos com maior valor agregado para a União Europeia pode gerar mais empregos. Esse impacto tende a ser superior ao da simples venda de commodities.
Exportações crescem, mas impacto inflacionário tende a ser limitado
O acordo também abre caminho para ampliar exportações brasileiras de calçados, frutas e produtos agrícolas. Em 2025, as vendas do Brasil para a União Europeia alcançaram US$ 49,8 bilhões. No mesmo período, as exportações europeias ao Brasil somaram US$ 50,3 bilhões.
Segundo a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, o tratado cria uma rede comercial avaliada em US$ 22 trilhões. Esse cenário tem potencial de adicionar R$ 7 bilhões às exportações brasileiras. Apesar disso, especialistas avaliam que o risco de aumento relevante de preços internos é baixo. Os efeitos inflacionários tendem a ser limitados no curto prazo. Além disso, variam conforme o setor.
Para o agronegócio, os ganhos podem se espalhar por toda a cadeia produtiva. Esse movimento beneficia grandes exportadores. Também alcança pequenos e médios produtores que atuam por meio de tradings.
Diante desse cenário, a pergunta que fica é: o Brasil está preparado para transformar o acordo UE-Mercosul em ganhos duradouros para consumidores e produtores ao mesmo tempo?

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