Pesquisa revela que sinais da esclerose múltipla surgem anos antes dos sintomas, abrindo caminho para diagnóstico precoce.
A esclerose múltipla, doença neurológica autoimune que afeta principalmente mulheres entre 20 e 40 anos, pode começar a ser identificada até sete anos antes dos primeiros sintomas clínicos.
Pesquisas recentes mostram que o diagnóstico precoce, baseado na análise de biomarcadores no sangue, permite prever a progressão da doença, iniciar o tratamento mais cedo e reduzir sequelas.
O avanço ocorre em centros de pesquisa e hospitais de referência, como o Einstein Hospital, e responde a uma necessidade urgente: evitar que a doença comprometa funções essenciais do cérebro antes mesmo de ser percebida pelo paciente.
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Atualmente, quando a esclerose múltipla é confirmada, o cérebro já pode apresentar danos relevantes, afetando visão, coordenação motora e equilíbrio.
Por isso, identificar sinais invisíveis da doença se tornou prioridade na neurologia moderna.
Esclerose múltipla e o desafio do diagnóstico precoce
A progressão silenciosa é uma das principais características da esclerose múltipla.
Antes dos surtos clássicos, o cérebro sofre com processos contínuos de inflamação cerebral, que prejudicam funções básicas sem gerar sintomas claros.
Segundo o neurologista Rodrigo Barbosa Thomaz, coordenador do Centro de Excelência em Esclerose Múltipla e Doenças Desmielinizantes do Einstein Hospital, muitos pacientes convivem com sinais sutis sem associá-los à doença.
“Mesmo antes dos picos de inflamação, temos pacientes com funções primárias do cérebro prejudicadas, mas muitas vezes sem que associem os sintomas à doença”, explica.
Muitas vezes, interpretam-se a fadiga intensa, alterações de humor, ansiedade e dificuldades cognitivas como estresse ou cansaço, o que atrasa o diagnóstico precoce e o início do tratamento.
Inflamação cerebral começa anos antes dos surtos
A ciência já sabe que a inflamação cerebral associada à esclerose múltipla não surge apenas durante os surtos. Ela ocorre em ondas contínuas, danificando lentamente as fibras nervosas.
Esses processos inflamatórios afetam diretamente os neurônios, mesmo quando exames tradicionais, como a ressonância magnética, ainda não mostram lesões evidentes.
Portanto, confiar apenas nos sintomas visíveis se tornou insuficiente para um diagnóstico preciso.
Biomarcadores revelam sinais invisíveis da doença
O avanço mais promissor no diagnóstico precoce da esclerose múltipla está na identificação de biomarcadores no sangue.
Estudos indicam que pesquisadores conseguem detectar a glicoproteína oligodendrócita da mielina (MOG) até sete anos antes do surgimento dos sintomas.
Esse marcador indica os primeiros danos aos filamentos neuronais, antecipando o processo de desmielinização, que caracteriza a doença.
Em seguida, ocorre o aumento da proteína IL-3, responsável por recrutar células de defesa que atacam o cérebro e a medula espinhal.
Cerca de um ano depois, surge a cadeia leve de neurofilamento (NfL), outro biomarcador que sinaliza danos diretos ao tecido neuronal.
Tecnologia e inteligência artificial no cuidado personalizado
A análise isolada de biomarcadores não substitui a avaliação clínica. No entanto, quando combinada a exames de imagem e ao histórico do paciente, ela amplia significativamente a precisão do diagnóstico.
“A avaliação de múltiplos marcadores, associada a algoritmos de inteligência artificial, tende a personalizar o cuidado”, afirma Rodrigo Thomaz.
Segundo o especialista, essa abordagem ajuda a identificar quem tem maior risco de progressão, de sequelas e quem pode evitar surtos com tratamento antecipado.
Assim, a medicina caminha para estratégias mais individualizadas, reduzindo impactos físicos e emocionais da esclerose múltipla.
O que é a esclerose múltipla e por que ela causa desmielinização
A esclerose múltipla é uma doença autoimune e desmielinizante. Isso significa que o próprio sistema imunológico passa a atacar a bainha de mielina, estrutura que envolve os neurônios e acelera a transmissão dos impulsos nervosos.
“Essa mielina está difusa no cérebro e é essencial para a rapidez das respostas nervosas”, explica o especialista.
Quando ocorre a desmielinização, a comunicação entre os neurônios fica mais lenta ou falha, resultando em sintomas motores, visuais e cognitivos.
Por que o diagnóstico precoce muda o futuro do paciente
Os tratamentos atuais conseguem reduzir surtos, retardar a progressão da doença e, em alguns casos, estabilizar o quadro.
No entanto, o momento em que se iniciam determina diretamente a eficácia do tratamento.
Portanto, o diagnóstico precoce, aliado ao uso estratégico de biomarcadores e à compreensão da inflamação cerebral, representa uma mudança de paradigma.
Detectar a esclerose múltipla antes que os danos se tornem irreversíveis pode preservar a qualidade de vida e permitir que milhares de pacientes mantenham autonomia por mais tempo.
