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Dezenas de navios de pesquisa chineses estão mapeando discretamente o fundo do oceano em três oceanos – e analistas navais enxergam um padrão militar

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 29/03/2026 às 16:31
Atualizado em 30/03/2026 às 17:38
Navios chineses ampliam mapeamento do fundo do oceano em áreas estratégicas e levantam alerta sobre uso militar dos dados.
Navios chineses ampliam mapeamento do fundo do oceano em áreas estratégicas e levantam alerta sobre uso militar dos dados.
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O avanço do mapeamento do fundo do oceano por navios chineses em rotas próximas a Taiwan, Guam, Filipinas e Malaca ampliou o alerta de analistas navais sobre o uso estratégico desses dados em operações submarinas, sensores subaquáticos e disputas militares invisíveis sob as águas

Com navios, a China vem conduzindo uma operação ampla de mapeamento e monitoramento submarino no Pacífico, no oceano Índico e no Ártico, com concentração em águas de alto valor estratégico, como os arredores de Taiwan, Guam, Filipinas e as rotas de acesso ao estreito de Malaca.

A atividade é apresentada oficialmente como pesquisa científica, mas dados analisados por especialistas em guerra naval e por órgãos dos Estados Unidos apontam um uso dual dessas missões, com potencial impacto direto sobre navegação, ocultação e detecção de submarinos.

Uma investigação da Reuters identificou, a partir de mais de cinco anos de rastreamento de embarcações, um esforço que envolve dezenas de navios de pesquisa chineses e centenas de sensores no mar.

A apuração analisou o movimento de 42 embarcações ativas no Pacífico, no Índico ou no Ártico e concluiu que pelo menos oito realizaram mapeamento do leito marinho, enquanto outras dez levavam equipamentos aptos a esse tipo de levantamento.

Entre os casos mais citados está o do navio Dong Fang Hong 3, operado pela Ocean University of China. A embarcação passou parte de 2024 e 2025 navegando em padrões de ida e volta próximos de Taiwan, Guam e trechos estratégicos do oceano Índico.

Em março de 2025, cruzou repetidamente as águas entre Sri Lanka e Indonésia, cobrindo as aproximações do estreito de Malaca, um dos corredores marítimos mais sensíveis do planeta.

 Dong Fang Hong 3

Por que o relevo submarino virou ativo estratégico

Na guerra submarina, conhecer o ambiente é tão importante quanto possuir submarinos modernos. O relevo do fundo do mar, a temperatura da água, a salinidade e as correntes alteram a propagação do som e interferem diretamente no desempenho do sonar, principal ferramenta de detecção de embarcações submersas. Isso afeta tanto a capacidade de encontrar um adversário quanto a de permanecer invisível.

Em depoimento prestado em 2 de março de 2026 à U.S.-China Economic and Security Review Commission, o contra-almirante Mike Brookes, chefe do Office of Naval Intelligence, afirmou que esse tipo de inteligência batimétrica “permite navegação submarina, ocultação e posicionamento de sensores ou armas no fundo do mar”.

A audiência do Congresso tratou justamente da perda de vantagem americana no domínio submarino diante do avanço chinês.

A leitura de especialistas navais é que esse esforço vai além de levantamentos para pesca, clima ou sedimentos. A Reuters ouviu nove analistas de guerra naval que relacionaram o padrão das missões ao preparo de operações submarinas de longo alcance.

Jennifer Parker, ex-oficial australiana de guerra antissubmarino, avaliou que a escala do programa aponta para uma ambição de capacidade naval expedicionária em águas azuis, com forte componente submarino.

O “oceano transparente” e a instalação de sensores

O mapeamento do fundo do mar é apenas uma parte da estratégia. A outra é a instalação de sensores e sistemas permanentes de monitoramento subaquático.

Esse projeto aparece ligado ao conceito de “transparent ocean”, apresentado na China na década passada e associado à construção de uma consciência quase contínua do ambiente submarino em regiões consideradas decisivas.

Em artigo publicado pelo U.S. Naval Institute em março de 2026, a rede é descrita como composta por matrizes acústicas, sismômetros, sensores físicos e químicos e balizas de navegação capazes de auxiliar inclusive veículos submarinos não tripulados.

O texto observa que essas matrizes acústicas e planadores submarinos podem funcionar como um “fio de disparo” para detecção de submarinos, razão pela qual a rede passou a ser comparada a uma espécie de “Grande Muralha submersa”.

A Reuters informou, com base em registros do Ministério dos Recursos Naturais da China, da Ocean University e do governo de Shandong, que a China já implantou centenas de sensores, boias e arranjos submarinos no oceano a leste do Japão, a leste das Filipinas e ao redor de Guam.

Esses dispositivos monitoram mudanças em temperatura, salinidade e movimento submarino, dados valiosos para vigilância acústica e rastreamento de tráfego sob a água.

O avanço desse aparato aparece também em episódios envolvendo boias chinesas próximas ao Japão.

Em dezembro de 2024, o governo japonês informou ter identificado uma boia dentro de sua zona econômica exclusiva ao sul de Yonaguni. Em maio de 2025, o Research Institute for Peace and Security registrou que a boia remanescente nessa área havia sido removida, após meses de atrito diplomático.

Taiwan, Guam, Filipinas e Malaca no centro da disputa

As áreas mais monitoradas ajudam a explicar a preocupação crescente. O esforço chinês se concentra em parte nas águas em torno das Filipinas, perto de Guam e Havaí, e nas proximidades de instalações militares americanas no Wake Atoll, no Pacífico Norte.

São pontos decisivos para qualquer operação naval entre a China, os Estados Unidos e aliados em caso de crise envolvendo Taiwan ou rotas marítimas do Indo-Pacífico.

Guam ocupa papel central nesse tabuleiro por abrigar instalações militares americanas e funcionar como elo de sustentação logística e operacional dos EUA no Pacífico ocidental.

Já o estreito de Malaca é um gargalo vital para o comércio marítimo e para o fluxo energético que abastece economias asiáticas. Mapear acessos, canais profundos e condições acústicas nesses setores amplia a capacidade de deslocar submarinos com menor exposição e maior previsibilidade tática.

O raciocínio estratégico por trás desse movimento está ligado à chamada Primeira Cadeia de Ilhas, faixa geográfica formada por territórios e parceiros dos Estados Unidos que vai do Japão, passa por Taiwan e segue até o Sudeste Asiático.

Para analistas ouvidos pela Reuters, o levantamento oceânico chinês busca reduzir uma limitação histórica: operar além desse cinturão com maior segurança, autonomia e consciência do ambiente submarino.

Expansão ao Índico e ao Ártico

A campanha não ficou restrita ao Pacífico ocidental. O uso do Dong Fang Hong 3 nas águas entre Sri Lanka e Indonésia mostrou interesse em rotas que levam ao Índico profundo e às entradas de Malaca. A Reuters também apontou atividades de mapeamento a oeste e ao norte do Alasca, em corredores marítimos relevantes para acesso ao Ártico.

No caso ártico, a movimentação se conecta a um plano mais amplo. O white paper China’s Arctic Policy, de 2018, formalizou a intenção de ampliar pesquisa, infraestrutura e participação chinesa na governança da região.

Em paralelo, análises de Brookings e do China Maritime Studies Institute mostram que Pequim trabalha há anos com a meta de se tornar uma potência polar e de consolidar presença logística e científica nas rotas do norte.

Um exemplo recente foi registrado pelo U.S. Naval War College: no verão de 2024, os navios Xiang Yang Hong 01 e Kexue conduziram atividades de pesquisa no mar de Bering, movimento descrito como uma expansão significativa da coleta de dados marítimos chineses nessa área. A análise destaca que o Bering é um trecho-chave das rotas que ligam a China ao oceano Ártico.

Ciência civil, fusão militar e novo escrutínio internacional

O ponto mais sensível do debate não está apenas nas embarcações, mas na fronteira cada vez mais difusa entre ciência civil e aplicação militar.

A própria Reuters destacou que as missões possuem finalidades legítimas, como pesquisa climática, prospecção mineral ou levantamento sedimentar, mas ressaltou que os mesmos dados servem ao planejamento militar submarino.

O reporte também aponta que a integração entre universidades, órgãos civis e defesa ganhou força sob a política chinesa de civil-military fusion.

Essa sobreposição aparece na estrutura institucional. A Reuters informou que embarcações envolvidas pertencem a entidades estatais e instituições afiliadas ao Estado, incluindo a Ocean University.

O material também registra que, em 2021, o presidente da universidade celebrou os “laços estreitos” com a marinha chinesa e o compromisso da instituição com a construção de uma potência marítima e da defesa nacional.

O efeito mais imediato dessa expansão é o estreitamento da vantagem histórica dos Estados Unidos no conhecimento do ambiente submarino. Ryan Martinson, do U.S. Naval War College, classificou a escala da pesquisa marítima chinesa como “francamente impressionante”.

A avaliação, hoje, é que o fundo do mar se tornou uma frente central da competição estratégica, com potencial de influenciar desde patrulhas de submarinos nucleares até a instalação de redes de vigilância permanentes em oceanos inteiros.

O próximo teste estará em três pontos: até onde a rede sensorial chinesa avançará no Pacífico aberto, como EUA e aliados responderão com seus próprios investimentos em monitoramento submarino e se a natureza dual dessas missões levará a regras mais duras sobre o que pode ou não ser classificado como pesquisa científica em áreas estratégicas. A disputa já saiu da superfície e entrou de vez no relevo invisível do fundo do mar.

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Trovão
Trovão
30/03/2026 09:35

Presidente Donald trump precisa acabar com isso, antes que seja tarde de mais

Douglas
Douglas
Em resposta a  Trovão
30/03/2026 17:26

Hahahahahahaha. O laranja se meteu numa encrenca com o Irã e não sabe como sair e vc acha que ele tem fazer algo contra a China? Os americanos não são polícia do mundo, vira lata.

Trovão
Trovão
30/03/2026 09:33

Sorrateiramente estão ganhando terreno
Seremos escravos da China?

Vinicius
Vinicius
30/03/2026 06:54

O maos engraçado como e a china tudo q os cara taz e pra guerra mais se fosse os EUA ou um país **** saco deles seria so pesquisa

Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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