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Designer sueco criou abrigo que se monta em 4 horas e já salvou 90 mil famílias desabrigadas em 80 países: estrutura de 17m² vem em duas caixas, resiste a enchentes e incêndios, tem energia solar integrada e pode ser reutilizada por 3 anos

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 17/02/2026 às 13:50 Atualizado em 17/02/2026 às 13:53
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Designer sueco criou abrigo que se monta em 4 horas e já salvou 90 mil famílias desabrigadas em 80 países: estrutura de 17m² vem em duas caixas, resiste a enchentes e incêndios, tem energia solar integrada e pode ser reutilizada por 3 anos
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Em 2010, um jovem designer recém-formado olhou para as tendas de lona que abrigavam milhões de refugiados e se perguntou: “Por que os campos de deslocados parecem exatamente como há cem anos?” A resposta para essa pergunta virou uma revolução silenciosa que já mudou a vida de 90 mil famílias em 80 países sem precisar de engenheiros, ferramentas especiais ou sequer um manual complicado.

Johan Karlsson, um recém-graduado em design industrial, questionou se era possível criar um abrigo para refugiados mais seguro e digno, que ao mesmo tempo permanecesse acessível para organizações humanitárias. Karlsson começou a desenvolver o conceito do Better Shelter como designer freelancer em 2010, quando um pequeno projeto de ajuda pediu que ele melhorasse o design de suas tendas de socorro em desastres.

“Me impressionou como elas eram ultrapassadas e frágeis, considerando que deveriam oferecer um lar aos refugiados. Aquelas tendas simplesmente não foram projetadas para durar tanto tempo. Então comecei a pensar em alternativas”, relembra.

Trabalhando no projeto, Karlsson encontrou um dado que o fez parar: o tempo médio gasto em deslocamento já era de mais de 17 anos. Aqueles não eram abrigos provisórios. Pessoas estavam criando filhos neles, envelhecendo neles.

“E lá estava eu, ajustando as costuras de uma tenda estilo militar que, se tivesse sorte, duraria seis meses. Era uma desconexão entre a prática humanitária e as ferramentas do design e manufatura modernos. Eu não conseguia mais ignorar isso”.

A solução veio de um lugar improvável

O sistema de embalagem plana da IKEA veio imediatamente à mente. “A IKEA há muito tempo tem o know-how sobre como criar construções modularizadas, embalagem e materiais. Procurá-los para apoio pareceu a coisa óbvia a fazer”.

Então Karlsson entrou em contato com a IKEA Foundation (o braço filantrópico do gigante sueco de móveis de encaixe) e perguntou se eles ajudariam a fechar essa lacuna. Eles concordaram.

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Juntos, trouxeram a Agência da ONU para Refugiados (UNHCR) para garantir que estivessem resolvendo o problema certo, não apenas o que achavam estar vendo.

Vendo uma oportunidade de colaboração entre duas entidades distintas, uma agência global da ONU com vasta experiência em resposta emergencial, a UNHCR, e uma ágil equipe sueca de design capaz de transformar ideias em protótipos rapidamente — organizaram uma reunião, delinearam um plano e iniciaram a parceria.

Construído com quem realmente entende

A ideia era simples, talvez até ingênua: e se famílias deslocadas pudessem construir um abrigo da mesma forma que você monta uma estante Billy? Embalagem plana, sem ferramentas especiais, sem engenheiros necessários.

Um abrigo que pudesse ser implantado rapidamente em uma emergência, mas construído para durar — durável, adaptável e upgradável ao longo do tempo. Mas o design não veio de uma prancheta em Estocolmo.

40 famílias de refugiados no Iraque e na Etiópia testaram e melhoraram o protótipo. A equipe do Better Shelter também passou tempo em um campo de refugiados da ONU no Irã e conduziu entrevistas com refugiados somalis no norte do Quênia antes de completar seus primeiros abrigos.

“Confiar no feedback das pessoas é essencial. Cada pessoa e situação é diferente, mas se não há diálogo com quem está no terreno, você nunca vai fazer um protótipo bem-sucedido”, diz Karlsson.

Uma solicitação comum dos refugiados era por mais privacidade, a habilidade de simplesmente fechar suas portas. Outra era que danos em suas novas casas fossem fáceis de reparar.

O abrigo que funciona como LEGO

O resultado final é um exemplo brilhante de design funcional:

ESPECIFICAÇÕES TÉCNICAS:

  • Área de 17,5 metros quadrados
  • Montagem em 4 horas com 4 pessoas
  • 68 peças que se encaixam
  • Vem em duas caixas planas de 80 kg cada
  • Capacidade para 5 habitantes
  • Vida útil de 3 anos
  • 48 unidades cabem em um container de 40 pés

CARACTERÍSTICAS DE SEGURANÇA:

  • Estrutura de chapa metálica com fachadas de polipropileno à prova de facada
  • Retarda propagação de fogo em caso de incêndio
  • Porta que fecha à chave (por dentro ou por fora)
  • 4 janelas

INOVAÇÕES:

  • Painel solar no teto que carrega lâmpada LED e tem entrada USB para celular
  • Estrutura modular que permite adaptar posição da porta
  • Pode ser desmontado e reutilizado

Esses módulos originais de 17,5 m² podiam ser montados, sem ferramentas, em quatro horas. Podiam acomodar até cinco pessoas e tinham uma expectativa de vida útil de três anos, embora Karlsson diga que muitos ainda estavam de pé depois de cinco.

O custo da dignidade

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Os Better Shelters custam cerca de US$ 1.150, aproximadamente o dobro do valor das tendas improvisadas de lona que vêm à mente quando se fala em campos de refugiados.

“Embora o preço inicial seja o dobro de uma tenda emergencial, a solução ainda é mais custo-efetiva considerando sua longevidade”, explica Johan Karlsson. “Estamos trabalhando duro para baixar para menos de US$ 1.000, e vemos bom potencial para conseguir isso nos próximos dois anos”.

A matemática é simples: uma tenda de lona dura seis meses. O Better Shelter dura três anos — seis vezes mais. E oferece porta com chave, paredes à prova d’água, iluminação interior e uma base sólida.

Os números que impressionam

IMPACTO GLOBAL:

  • 90.000 abrigos já ajudaram pessoas em 80 países
  • Meta de ter ajudado 1 milhão de pessoas até 2030
  • 10.000 unidades encomendadas pela UNHCR em 2015
  • 6.600 abrigos para Turquia e Síria em 2023, abrigando mais de 30.000 pessoas
  • Usados na Grécia, Iraque, Jibuti, Chad, Sérvia

INVESTIMENTO:

  • Mais de 15 empresas e 3 universidades em 5 países envolvidas no desenvolvimento
  • IKEA Foundation contribuiu mais de US$ 2 milhões

Reconhecimento mundial

Em 2016, o projeto ganhou o Prêmio Beazley Design of the Year do Design Museum de Londres, vencendo edificações como a Tate Modern e 57 West.

O MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York) exibiu um abrigo até janeiro de 2017 e o incluiu em sua coleção permanente.

A revista TIME listou o abrigo como uma das melhores invenções do ano.

Mais que um abrigo — um lar temporário

“Embora nossas casas sejam temporárias até que um novo lar permanente seja encontrado, muitas pessoas vivem nelas por vários anos. Fica claro para nós, das pessoas que conhecemos em nosso trabalho, que a possibilidade de poder se estabelecer é importante para a sensação de algum tipo de normalidade e que estética e a necessidade de criar um lar aconchegante é algo que todos compartilhamos, não importa quão impensável e louco o dia a dia possa ser”, diz Johan Karlsson.

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O Better Shelter permite que os parceiros no terreno decidam quais materiais locais são mais adequados para completar as casas. As escolhas variam dependendo do ambiente, clima, técnicas de construção locais e recursos disponíveis.

Em Assam, na Índia, a maioria é reforçada com bambu e rebocada com barro; no Afeganistão, painéis de madeira protegem dos invernos congelantes; e em Ruanda, esteiras de palha no teto proporcionam melhor isolamento.

“Trabalhar com o que está disponível em cada contexto não apenas impulsiona a economia local, mas também torna a manutenção e reparo muito mais fáceis. Estamos interferindo o mínimo possível”, explica Karlsson.

As histórias de quem vive dentro

Após perder sua casa nas enchentes devastadoras em Assam no ano passado, Girindra Bhakti, de 73 anos, melhorou sua casa Better Shelter — que divide com seus netos — usando materiais locais.

“Desde o primeiro dia, você pode ver que as pessoas tendem a decorar, colocando tecidos ou adicionando seus toques pessoais; adicionando uma varanda para ter alguma sombra”, observa Karlsson.

Na Síria e Turquia, após os terremotos devastadores de 2023, os abrigos ganharam um novo significado. Famílias estão desmontando seus abrigos e levando-os de volta consigo, para usar como habitação transitória enquanto reconstroem. Um abrigo que já foi temporário no deslocamento se torna um trampolim no caminho de volta para casa.

COVID-19: quando o mundo inteiro precisou de abrigo

A equipe se adaptou a uma nova realidade na pandemia de COVID-19. Das 15.797 estruturas que enviaram para 36 países, 3.000 foram usadas na resposta à COVID-19.

Quando fundamos o Better Shelter, cerca de 40 milhões de pessoas estavam deslocadas. Uma década depois, esse número triplicou. Mais de 100 milhões de pessoas estão agora sem um lugar seguro para chamar de lar.

“Casa é nosso lugar mais seguro. É onde construímos nossas vidas e guardamos nossas memórias mais ternas. Quando somos forçados a fugir, esse senso de segurança desaparece”.

E para muitos, seu abrigo é temporário e de longo prazo ao mesmo tempo.

A filosofia por trás do design do BETTER SHELTER

“Mesmo que o preço inicial seja o dobro de uma tenda emergencial, a solução ainda é mais custo-efetiva considerando sua longevidade”, explica Johan Karlsson.

Mas vai além do custo. Trata-se de dignidade. Com portas que trancam, há uma camada adicional de segurança e privacidade que atualmente é quase esquecida nos campos superlotados, e isso poderia ajudar a reduzir a taxa assustadoramente alta de agressão sexual.

Com paredes à prova de intempéries, iluminação interior e uma fundação sólida, os abrigos são projetados para durar cerca de três anos. Isso é seis vezes mais que as tendas padrão geralmente duram.

O Better Shelter lançou uma versão atualizada do abrigo após meses de testes, ajustes e avanços por desenvolvedores, institutos e fornecedores.

A organização continua inovando. Pilotaram a nova Structure e lançaram uma plataforma de arrecadação de fundos.

Por que isso importa para você

Vivemos uma mudança que não pode ser ignorada. Crises impulsionadas por conflito e clima estão se tornando mais frequentes, mais complexas e mais prolongadas. Não há sinal de que essa tendência vá reverter.

Em um mundo onde 114 milhões de pessoas estão deslocadas, o Better Shelter representa algo fundamental: a prova de que design inteligente, colaboração e respeito pela dignidade humana podem fazer diferença real.

Não é caridade. É engenharia com empatia.

Não é ajuda temporária. É infraestrutura para a crise humanitária do século XXI. E tudo começou com um designer de 20 e poucos anos que se recusou a aceitar que os campos de refugiados tivessem que parecer exatamente como há cem anos.

“Por que os campos de deslocados parecem como há cem anos?”, perguntou Johan Karlsson.

A resposta? Porque ninguém havia feito a pergunta certa até agora.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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