Pesquisa sugere que erupções vulcânicas no século XIV resfriaram o clima, pressionaram sistemas alimentares e estimularam rotas comerciais de grãos que ajudaram a introduzir a Peste Negra no Mediterrâneo europeu
Em 1347 d.C., a Peste Negra alcançou o sul da Europa e se espalhou rapidamente pela península italiana, matando metade da população em algumas áreas e transformando cidades inteiras em cenários de terror coletivo duradouro.
Relatos de testemunhas oculares descrevem famílias inteiras sucumbindo em poucos dias, valas comuns abertas às pressas e um colapso social que marcou profundamente a memória europeia medieval.
O impacto devastador da peste levou cientistas a estudarem extensivamente a bactéria Yersinia pestis, além de ratos e pulgas envolvidos na transmissão da doença.
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Uma nova análise científica, porém, amplia esse quadro ao apontar a atividade vulcânica como possível elemento adicional na cadeia de eventos que levou à pandemia.
A chegada tardia da peste ao Mediterrâneo
Ainda não está claro por que a doença, surgida no início dos anos 1300, só alcançou o Mediterrâneo em 1347, após devastar regiões da Ásia Central.
Um estudo publicado na revista Communications Earth & Environment relaciona o avanço da peste ao resfriamento climático causado por erupções vulcânicas.
Esse resfriamento teria provocado escassez alimentar e incentivado importações de grãos, criando rotas comerciais que também podem ter transportado a peste.
Para a historiadora Hannah Barker, vários fatores precisaram coincidir para que a pandemia se consolidasse na Europa medieval.
Segundo ela, mudanças climáticas, interações entre animais e decisões humanas formaram uma combinação improvável, mas decisiva, para a propagação da doença.
Evidências climáticas em anéis de árvores
O geógrafo Ulf Büntgen encontrou novas pistas ao analisar um arquivo climático baseado em anéis de árvores europeias.
Esses registros permitem reconstruir temperatura e precipitação dos últimos 2.000 anos com datação extremamente precisa, segundo o próprio pesquisador.
Entre 1345 e 1357, as temperaturas do Mediterrâneo ficaram ligeiramente abaixo da média, um resfriamento discreto, mas persistente no período analisado.
Büntgen suspeitou que erupções vulcânicas estariam por trás do fenômeno e buscou confirmação em registros preservados em núcleos de gelo.
Sinais de erupções nos polos
Núcleos de gelo da Groenlândia e da Antártida revelaram níveis elevados de enxofre em camadas datadas de cerca de 1345.
O enxofre é liberado por erupções vulcânicas e seus aerossóis refletem a luz solar, contribuindo para o resfriamento do clima global.
Os dados sugerem uma ou várias erupções, possivelmente nos trópicos, ocorridas pouco antes da chegada da peste ao Mediterrâneo.
Essas evidências reforçaram a hipótese de que fatores naturais influenciaram indiretamente a dinâmica da pandemia europeia.
Registros históricos e fenômenos celestes
Para aprofundar as conexões sociais, Büntgen se uniu ao historiador medieval Martin Bauch.
Bauch identificou relatos históricos de eclipses lunares observados na China e na Boêmia em datas incompatíveis com cálculos astronômicos conhecidos.
A presença de partículas vulcânicas na atmosfera pode ter alterado a aparência da Lua, gerando registros considerados estranhos à época.
Esses relatos reforçam a ideia de uma perturbação atmosférica ampla, perceptível em diferentes regiões do hemisfério norte.
Comércio de grãos e decisões humanas
O período de frio prolongado afetou colheitas mediterrâneas, pressionando cidades-estado italianas a priorizarem fortemente a segurança alimentar, segundo Bauch.
Após fomes anteriores, essas urbes haviam estruturado redes comerciais de longa distância para importar trigo do norte da África e do Mar Negro.
Registros administrativos indicam disparada nos preços dos grãos entre 1346 e 1347, acompanhada por crescente ansiedade política e social.
Mesmo potências como Veneza e Gênova passaram a importar volumes máximos de trigo, buscando evitar o colapso alimentar interno.
Reabertura comercial e disseminação da peste
Antes disso, uma guerra comercial com os mongóis havia interrompido rotas do Mar Negro, limitando o acesso europeu aos grãos.
Com a morte de mongóis pela peste e o desespero italiano por trigo, ambos os lados reduziram hostilidades e reabriram o comércio.
Navios carregados de grãos também transportavam ratos, camundongos e pulgas portadoras de patógenos, facilitando a entrada da doença.
As pulgas podiam sobreviver no pó dos grãos e no sangue de roedores, tornando os carregamentos um vetor improtante de transmissão.
Consequências regionais e expansão final
As cidades marítimas evitaram a fome imediata, mas introduziram um risco sanitário devastador em seus próprios territórios, afirma Bauch.
Parte dos grãos importados foi redistribuída para cidades como Pádua e Trento, possivelmente desencadeando surtos locais de peste.
Até o final de 1348, grande parte da Itália e áreas do Mediterrâneo já haviam sido severamente atingidas pela Peste Negra.
Lições científicas e históricas
Em 2021, Barker já havia relacionado o comércio de grãos à peste, mas a ligação com vulcões era desconhecida até agora.
Para Timothy Newfield, a colaboração entre historiadores e paleocientistas eleva o padrão dessas pesquisas.
O historiador Kyle Harper avalia que estudar essas conexões ajuda a entender melhor doenças e clima.
Embora hoje a mortalidade por Yersinia pestis seja baixa, o passado oferece estudos de caso essenciais sobre riscos sanitários complexos.
Segundo Harper, surtos impressionantes exigem coincidências raras. A Peste Negra, afirma ele, foi extremamente improvável, mas aconteceu.
Com informações de Aventuras na História.

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