Pesquisa publicada na Nature identifica cinco fatores genéticos que conectam depressão, ansiedade, esquizofrenia, TDAH e outros transtornos mentais.
Um estudo global descobriu que 14 transtornos psiquiátricos compartilham cinco raízes genéticas comuns, indicando que fatores de genética explicam grande parte da semelhança biológica entre essas condições, segundo pesquisa publicada em dezembro de 2025 na revista Nature.
A equipe internacional, liderada por cientistas dos Estados Unidos e Europa, analisou dados genéticos de mais de 1 milhão de pessoas diagnosticadas com ao menos um transtorno psiquiátrico e de 5 milhões sem diagnóstico, o que permitiu mapear padrões comuns no DNA.
O resultado, obtido nos Estados Unidos e em diversas instituições parceiras, sugere um caminho para entender por que muitos pacientes têm mais de um diagnóstico ao longo da vida e pode influenciar futuros tratamentos.
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Genética e transtornos psiquiátricos: cinco fatores compartilhados
A análise detalhada revelou que os 14 transtornos psiquiátricos estudados não são tão distintos geneticamente quanto eram considerados.
Em vez disso, a pesquisa identificou cinco fatores genéticos principais que influenciam a maioria das condições, compostos por 238 variantes genéticas distintas.
Cada um dos cinco grupos resumiu um conjunto de características genéticas compartilhadas entre várias condições:
- Transtornos com traços compulsivos, como transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e anorexia nervosa.
- Condições internas, incluindo depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático.
- Distúrbios relacionados ao uso de substâncias, como dependência de álcool ou outras drogas.
- Condições neurodesenvolvimentais, como autismo e TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade).
- Transtornos psiquiátricos severos, como esquizofrenia e transtorno bipolar, que compartilham aproximadamente 70% de sinais genéticos.
Esse agrupamento mostra que a genética pode explicar por que esses transtornos muitas vezes ocorrem juntos ou têm sintomas sobrepostos, um fenômeno observado na prática clínica há muito tempo.
Por que essa descoberta em genética importa?
Por décadas, psiquiatras diagnosticam pessoas com base nos sintomas que apresentam, muitas vezes sem uma confirmação biológica clara.
Isso explica por que um paciente com um transtorno psiquiátrico frequentemente recebe diagnóstico adicional de outra condição ao longo do tempo — como ansiedade além de depressão, por exemplo.
A nova análise genética sugere que essas condições não são entidades completamente separadas, mas compartilham componentes biológicos fundamentais.
Assim, a genética pode ser a chave para entender por que um paciente com um transtorno tem maior probabilidade de desenvolver outro.
Como o estudo foi feito
Os pesquisadores do chamado Psychiatric Genomics Consortium (PGC) coletaram e analisaram dados de DNA de milhões de participantes, incluindo mais de 1 milhão com ao menos um diagnóstico de transtorno psiquiátrico e outros 5 milhões sem diagnóstico.
Eles compararam variantes genéticas entre esses grupos para identificar padrões que surgem com mais frequência nas pessoas com transtornos.
Usando técnicas avançadas de análise genética — que examinam pequenas variações no código de DNA —, os cientistas conseguiram identificar padrões comuns que se repetem em diferentes condições psiquiátricas.
Essas metodologias são baseadas em grandes bancos de dados globais e em modelos estatísticos que conseguem separar sinais genéticos de ruídos aleatórios.

Interpretação dos resultados e limitações
Apesar do grande avanço, os pesquisadores alertam que genética sozinha não determina o surgimento de transtornos psiquiátricos.
Fatores ambientais, experiências de vida e interações complexas entre genes e ambiente também influenciam quando, como e se um transtorno se manifesta.
Além disso, embora o estudo revele raízes genéticas comuns, ele não substitui diagnósticos clínicos atuais que são baseados em sintomas e comportamentos observados.
Ainda assim, entender as bases genéticas pode ajudar a criar tratamentos mais eficazes, que não dependam apenas de sintomas superficiais, mas de processos biológicos subjacentes.
O que pode mudar na prática médica?
Com base nesses dados, especialistas esperam que no futuro a medicina psiquiátrica possa:
- Redefinir como os transtornos psiquiátricos são classificados, com foco em causas biológicas em vez de sintomas isolados.
- Aprimorar estratégias de tratamento, potencialmente desenvolvendo terapias que atuem em mecanismos genéticos compartilhados.
- Prever melhor o risco de comorbidade, ou seja, a probabilidade de um paciente desenvolver múltiplos transtornos ao longo da vida.
Essas perspectivas não são imediatas, mas indicam uma mudança de paradigma: entender a influência da genética nos transtornos psiquiátricos pode abrir novas portas para intervenções personalizadas.
Os autores do estudo afirmam que pesquisas futuras devem se expandir para populações ainda mais diversas e incluir ainda mais dados genéticos. Isso permitirá refinar a compreensão de como a genética interage com fatores sociais, culturais e ambientais para moldar a saúde mental.

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