USDA confirma retração ampla no campo dos Estados Unidos, com menos propriedades e mais concentração em 2025
Queda ocorre em meio à crise da carne bovina, avanço das falências e ambiente de recessão no setor agrícola
Os Estados Unidos encerraram 2025 com novo recuo na base produtiva rural. De acordo com o relatório oficial Land in Farms 2025, do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), o país perdeu 15 mil fazendas em um ano e viu encolher em 1 milhão de hectares a área destinada à atividade agrícola. O total de propriedades caiu para 1,865 milhão, consolidando um ciclo de retração que se arrasta há décadas.
O movimento é acompanhado por uma transformação estrutural. O tamanho médio das fazendas subiu para 190 hectares (ante 189 no ano anterior), enquanto as grandes operações ampliam participação na terra e na renda. Em paralelo, a crise da carne bovina, o custo elevado de insumos e a pressão financeira criam um ambiente mais hostil para os pequenos.
Segundo o USDA, nenhum estado registrou aumento no número de fazendas em 2025. A retração foi generalizada, com destaque para o Texas, que concentrou a maior perda absoluta de operações.
-
Produto com menor procura no Brasil ganha força no exterior: Indonésia compra US$ 19,5 milhões em miúdos bovinos e ajuda o setor a ampliar receitas, reduzir desperdícios e aproveitar melhor cada animal
-
Plantaram soja onde antes havia Cerrado, mas o avanço dos grãos abriu disputa por água e território em uma das maiores fronteiras agrícolas do Brasil
-
Praga que saiu do México avança nos EUA, ameaça rebanho no menor nível desde 1952 e pode abrir espaço para o Brasil vender mais carne bovina, enquanto o hambúrguer dispara e americanos buscam proteína no exterior
-
Plantaram abacate para abastecer mesas da Europa e dos Estados Unidos, mas a fruta virou símbolo de rios secos, caminhões-pipa e disputa por água em uma das regiões mais afetadas pela seca no Chile
Os dados também dialogam com um quadro econômico mais duro. Houve aumento expressivo de falências no agronegócio e piora do sentimento no campo, como mostram levantamentos da Universidade Purdue em parceria com o CME Group.
Perda de fazendas se espalha pelos estados, com o Texas liderando as baixas
O Texas continua como o estado com mais fazendas do país, somando 229 mil propriedades, mas foi também o que mais perdeu em números absolutos, com 2 mil operações a menos em 2025, segundo o USDA. Nenhuma unidade da federação registrou alta no número de fazendas no período, reforçando a natureza disseminada do ajuste.
No Meio-Oeste, região estratégica para grãos e proteína animal, as quedas chamam atenção. Illinois perdeu 400 fazendas e ficou com 69.600; Iowa recuou 500 e somou 86.200; Indiana encolheu 500, totalizando 51.500; Nebraska recuou 200, para 44.100; e Minnesota teve a maior contração relativa entre esses, com menos 1.300, chegando a 64.000. O padrão aponta consolidação acelerada em estados de agricultura de larga escala.
Especialistas citados pelo USDA relacionam a tendência a múltiplos vetores, como urbanização, baixa rentabilidade por hectare em grãos, custos elevados de insumos e endividamento. Na prática, operações menores enfrentam mais dificuldade para absorver choques de preços e crédito.
Área agrícola encolhe, propriedades ficam maiores e consolidação avança
A área total em fazendas caiu para 353,7 milhões de hectares, uma retração anual de 1,02 milhão de hectares, conforme o Land in Farms 2025. Em acres, o total ficou em 873,95 milhões, queda de 0,3% frente a 2024. A combinação de menos fazendas e áreas estáveis ou ligeiramente maiores por unidade reforça o fenômeno de concentração.
O aumento do tamanho médio para 190 hectares ajuda a explicar por que a produção não necessariamente cai na mesma proporção da redução de propriedades. A tendência é que a escala e a tecnologia das maiores operações sustentem a oferta, mesmo com a base produtiva encolhendo.
Pequenos produtores recuam, grandes operações concentram terra e receita
O único grupo que cresceu em 2025 foi o das fazendas com vendas anuais acima de US$ 1 milhão, com alta líquida de 50 unidades, segundo o USDA. Já as propriedades com faturamento entre US$ 1.000 e US$ 9.999 perderam 8 mil unidades, a maior queda entre as faixas.
A concentração fundiária avançou. As fazendas com faturamento superior a US$ 500 mil passaram a controlar 50,1% de toda a área agrícola em 2025, enquanto aquelas com vendas acima de US$ 1 milhão expandiram sua base territorial em 344 mil hectares. É a fotografia de “menos, porém maiores”.
Apesar disso, a estrutura segue numericamente dominada por pequenos. 48% das fazendas faturam menos de US$ 10 mil por ano e 78,8% registram receita inferior a US$ 100 mil. O contraste é nítido: a maioria é pequena em receita, mas a maior parte da terra está nas mãos das grandes.
Para analistas do setor, citados pelo USDA, o encurtamento das margens e a volatilidade de preços tornam o ingresso e a permanência dos menores mais difíceis, acelerando a consolidação.
Falências e dívida em alta pressionam o campo, sinal de recessão agrícola
O ambiente financeiro piorou. Em 2025, os pedidos de falência no agronegócio americano subiram 46%, alcançando 315 solicitações com base no Capítulo 12 da legislação de falências dos EUA, mostra o USDA. Para 2026, a dívida agrícola total é projetada em US$ 624,7 bilhões (+5,2%), com alta de 40% nos empréstimos no último trimestre de 2025 e aumento de 30% no valor médio dos financiamentos.
O sentimento dos produtores também azedou. Pesquisa da Universidade Purdue com o CME Group indicou que a parcela de agricultores esperando dificuldades financeiras saltou de 47% para 59% entre dezembro e janeiro. Em paralelo, 76% dos economistas veem o setor de grãos em recessão e 74% dos produtores concordam.
O consenso aponta mais consolidação à frente: 72% dos economistas acreditam que preços baixos e custos altos expulsarão as operações mais frágeis, e 80% dos varejistas projetam avanço das fusões e aquisições no agronegócio, segundo o levantamento citado.
Leite em Wisconsin mostra a lógica da escala, menos propriedades com igual produção
O setor lácteo ilustra o processo. Em Wisconsin, restavam cerca de 5.100 rebanhos leiteiros no início de 2026, pouco mais da metade do registrado há dez anos, segundo dados citados no relatório.
Mesmo assim, o número de vacas ordenhadas permanece semelhante ao de duas décadas e a produção anual segue levemente crescente. É o efeito direto da escala produtiva e da eficiência técnica das maiores operações.
Impactos para o Brasil, oportunidades e riscos no comércio global
Para o Brasil, a redução estrutural da base produtiva americana, somada ao aumento da dívida e à concentração fundiária, pode reconfigurar competitividade em cadeias de carne e grãos, segundo a análise setorial resumida pelo CompreRural com base no USDA. Mudanças de oferta e custos nos EUA tendem a reverberar em preços internacionais e no fluxo de comércio.
Cenários de maior consolidação podem reduzir a elasticidade de oferta no curto prazo, elevando volatilidade em momentos de choque. Por outro lado, gargalos financeiros e produtivos nos EUA podem abrir janelas para o Brasil ampliar participação em mercados de proteína bovina e de grãos.
O país, no entanto, precisa sustentar competitividade por meio de logística, sanidade e financiamento adequado, além de gestão de risco comercial. O tabuleiro global pode oferecer oportunidades, mas também impor mais disputa e barreiras não tarifárias.
O que você acha dessa guinada no campo americano, com menos fazendas e mais concentração de terra e renda? Essa tendência fortalece a eficiência ou ameaça a resiliência das cadeias agrícolas no longo prazo? Deixe seu comentário e participe do debate, especialmente sobre como o Brasil deve se posicionar nesse novo cenário competitivo.
