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Localização MG Tempo de leitura 9 min de leitura Comentários 4 comentários

Criador salva a própria vida com leite de cabra, transforma sítio em referência, e revela como cabras leiteiras rústicas produzem até 13 litros por dia e vencem o leite de vaca no organismo

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 06/12/2025 às 09:17
Atualizado em 06/12/2025 às 09:20
Assista o vídeoNo sítio mineiro, leite de cabra de cabras leiteiras e cabras rústicas salva vidas, valoriza a carne de cabrito e desafia o domínio do leite de vaca na família.
No sítio mineiro, leite de cabra de cabras leiteiras e cabras rústicas salva vidas, valoriza a carne de cabrito e desafia o domínio do leite de vaca na família.
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Depois de ser salvo ainda bebê pelo leite de cabra, Zezinho transforma o sítio em laboratório vivo, mostra cabras rústicas produzindo até 13 litros por dia, revela manejo preciso, economia altamente rentável, em relação ao rebanho bovino e benefícios digestivos decisivos para quem não tolera bem o leite de vaca.

Na zona rural de Cássia, em Minas Gerais, Zezinho transformou um drama de infância em projeto de vida ao apostar no leite de cabra, criar cabras leiteiras rústicas, atingir produções de até 13 litros por dia e mostrar vantagens digestivas, econômicas e nutricionais frente ao leite de vaca no organismo.

Há cerca de três décadas, o produtor mineiro reorganizou o sítio da família, de pouco mais de 20 alqueires, para focar em cabras leiteiras. Em conversa registrada em vídeo, ele detalha como o leite de cabra salvou sua vida ainda bebê, explica por que considera as cabras mais eficientes que vacas em uso de alimento e compartilha o manejo que permite alta produção, qualidade do leite e bem-estar dos animais.

Leite de cabra salvou o criador ainda no berço

No sítio mineiro, leite de cabra de cabras leiteiras e cabras rústicas salva vidas, valoriza a carne de cabrito e desafia o domínio do leite de vaca na família.

A relação de Zezinho com o leite de cabra começa na primeira infância.

Hoje com 57 anos, ele conta que, com cerca de um mês de vida, estava em estado crítico, “só couro e osso”, sem aceitar o leite materno nem outros leites oferecidos.

A família ouvia dos médicos que não havia mais o que fazer.

Na porta do hospital, uma senhora ouviu o desabafo da mãe e sugeriu tentar leite de cabra. Ela doou meio copo, que foi oferecido à criança.

Pela primeira vez, o bebê mamou e não vomitou. No dia seguinte, novo meio copo teve o mesmo resultado.

O pai, então, procurou um fazendeiro da região com grande plantel de cabras e, sensibilizado, o produtor escolheu “a melhor cabra” para ser levada à família.

“Eu devo a minha vida a esses bichinhos”, resume Zezinho ao explicar por que mantém cabras até hoje, mesmo sem operar mais em escala comercial como no auge da atividade.

Desde então, o leite de cabra passou de solução de emergência a pilar de saúde na casa e, mais tarde, se tornou base de um modelo de produção que atende também outras pessoas com restrições ao leite de vaca.

Sítio referência em cabras leiteiras rústicas em Cássia

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Vídeo do YouTube

A propriedade em Cássia, herdada em parte do pai, soma cerca de 20 alqueires com áreas de pasto, galinheiros, tulhas e estruturas de capril.

Em determinado momento, Zezinho chegou a manter cerca de 200 cabeças entre cabras adultas e cabritos, com os animais manejados em baias por lote: novilhas, machos, cabras em lactação e cabras secas.

O sítio funcionava em sistema intensivo, com cabras confinadas em baias coletivas e ordenha duas vezes ao dia. Segundo ele, a produção diária chegava a 60 a 70 litros de leite de cabra, volume considerado expressivo para uma propriedade familiar.

A organização por lotes, o controle do que cada cabra consome e a seleção constante de matrizes e reprodutores fizeram da área uma referência regional em cabras leiteiras rústicas.

Mesmo depois de reduzir o plantel, Zezinho mantém um núcleo de cabras de alto potencial leiteiro, direcionado principalmente ao consumo próprio, à produção caseira de queijos, iogurtes e chancliches e ao atendimento pontual de famílias que precisam de leite de cabra por questões de saúde.

Manejo de pasto, verminoses e bem-estar das cabras

O criador enfatiza que manejo correto é o ponto crítico para qualidade do leite de cabra. À noite, as cabras dormem fechadas, recebendo silo e ração equilibrada.

O pastoreio em piquetes ocorre apenas depois das 9 ou 10 horas da manhã.

O objetivo é reduzir o contato com fungos e parasitas que se acumulam no orvalho da madrugada na ponta das gramíneas.

Cabras e ovelhas são muito suscetíveis a verminoses. Zezinho explica que, durante a noite, fungos sobem pela planta com a umidade e, com o sol, voltam a descer.

Ao liberar o rebanho apenas com o capim mais seco, as cabras consomem a parte alta da planta, com menor carga de parasitas, o que reduz casos de anemia, “amarelão” e diarreias graves.

O rebanho recebe ração específica para cabras leiteiras, com cerca de 27% de proteína, além de volumoso de qualidade.

A meta é manter o equilíbrio: fezes em forma de “bolinha” indicam dieta adequada. Fezes amolecidas, segundo o produtor, sinalizam excesso de ração ou problema de manejo.

O foco é produzir leite de cabra em volume sem sacrificar saúde e longevidade das matrizes.

Cabras rústicas, fertilidade alta e produção de até 13 litros por dia

A base do plantel de Zezinho é formada por cabras cruzadas, combinando raças como Anglo-Nubiana, Saanen, Parda Alpina e animais rústicos adaptados ao clima mineiro.

Ele destaca que a gestação caprina dura cerca de cinco meses e, com um ano de idade, uma cabra bem criada já pode estar parida, o que acelera o ganho genético e a renovação do rebanho.

Nas cabras do sítio, não é raro encontrar partos duplos ou triplos. Em alguns casos, nascem até quatro cabritos, principalmente quando as mães passam a gestação em boa condição corporal e com nutrição adequada.

Esse padrão de fertilidade é um dos pilares das cabras leiteiras rústicas, permitindo maior número de crias ao longo da vida produtiva.

Em termos de produção, Zezinho relata cabras com 6,5 a 7 quilos de leite por dia, pesados em duas ordenhas, e cita registros de animais capazes de atingir 13 quilos em sistemas especializados no Nordeste.

No próprio rebanho, há relatos de fêmeas que, em uma única tirada, encheram canecas de 3 litros três vezes, atingindo volume respeitável para um plantel familiar.

Leite de cabra x leite de vaca no organismo

Na visão do produtor, o leite de cabra “vence” o leite de vaca no organismo em vários aspectos. Ele destaca que as moléculas de gordura do leite caprino são menores, facilitando a digestão, e que a quantidade de lactose é naturalmente mais baixa, embora não seja zero.

A experiência relatada é de consumo mais leve, sem sensação de estômago pesado.

Zezinho afirma que o leite de cabra costuma ser digerido em cerca de 30 minutos, contra três a quatro horas do leite de vaca em muitas pessoas.

Segundo ele, isso explica por que crianças com refluxo e adultos com digestão lenta tendem a se adaptar melhor ao leite caprino.

O queijo de leite de cabra, ao contrário do de vaca, não costuma agravar casos de intestino preso e, em vários relatos, ajuda a regular tanto quadros de constipação quanto de intestino muito solto.

Outro ponto levantado é a similaridade entre leite de cabra e leite materno em termos de composição, o que historicamente levou médicos e famílias a utilizarem o leite caprino como alternativa em casos em que a mãe não podia amamentar.

Zezinho também reforça que o leite caprino é conhecido pelo maior teor de cálcio e pela boa absorção, o que favorece ossos e metabolismo, especialmente em crianças e idosos.

Manejo de macho, cheiro e qualidade sensorial do leite de cabra

Uma das maiores resistências do consumidor é o suposto “cheiro de bode” no leite de cabra. O criador explica que isso está diretamente ligado ao manejo inadequado.

Os bodes possuem glândulas na região dos chifres que liberam um hormônio de odor forte, responsável por estimular o cio das fêmeas.

Se o macho permanece próximo ao capril, o odor se impregna no ambiente, nos pelos das cabras e até nos equipamentos de ordenha. Por isso, ele defende que o bode deve ficar a pelo menos 50 metros do rebanho leiteiro, sendo aproximado apenas no momento correto de cobertura.

Cruzou, separou. Com essa distância e higiene na ordenha, Zezinho afirma que o leite de cabra fica “sem cheiro e sem gosto estranho”, similar ao leite de vaca fresco, sobretudo quando consumido gelado ou em preparações como café com leite.

Economia: trato de uma vaca para alimentar dez cabras

No aspecto econômico, o produtor descreve uma relação direta entre custo de trato e valor de venda.

Segundo ele, “o trato de uma vaca dá para tratar dez cabras” em termos de demanda de alimento.

Em um cenário que ele viveu, o litro de leite de vaca pago ao produtor girava em torno de dois reais, enquanto o leite de cabra chegava a ser negociado a quinze reais o litro, congelado e distribuído para cidades vizinhas.

Em números simples, uma vaca produzindo 20 litros por dia e recebendo dois reais por litro gera cerca de 40 reais diários.

Já dez cabras produzindo, em média, dois litros por dia cada, somam 20 litros de leite de cabra, que, vendidos a quinze reais o litro, resultam em 300 reais por dia com custo de alimentação semelhante.

Além do leite in natura, a transformação em produtos como queijo, iogurte e chancliche de leite de cabra aumenta a margem.

O produtor cita que, com 10 litros, conseguia produzir cerca de 17 a 20 unidades de chancliche, vendidas a um valor que dobrava a receita em relação à venda do leite cru.

O congelamento das peças ainda permitia administrar melhor a oferta, evitando perdas.

Carne de cabrito e aproveitamento total do rebanho

Zezinho também defende o aproveitamento integral do rebanho caprino.

Machos não utilizados como reprodutores eram castrados e engordados para abate, resultando em carne mais macia e valorizada.

Ele lembra estudo realizado na África do Sul, que apontou carne caprina como uma das mais favoráveis para pacientes cardíacos, com bom perfil de gorduras e impacto positivo em colesterol.

Para o produtor, parte do problema da baixa presença de carne e leite de cabra na mesa do brasileiro é preconceito cultural, muitas vezes alimentado por experiências negativas de manejo e processamento.

Ele afirma que, quando bem criados, abatidos no tempo certo e preparados corretamente, cabritos e queijos caprinos entregam textura e sabor que surpreendem consumidores acostumados apenas ao bovino.

Rotina simples, cursos técnicos e vida estruturada em torno do leite de cabra

Depois de trabalhar por 30 anos em empresa de energia elétrica e se aposentar, Zezinho passou a dedicar mais tempo ao sítio, à cozinha e ao aprimoramento técnico.

Ele participou de cursos do Senar em áreas como produção de alimentos, conservação de polpas, artesanato e manutenção de máquinas, aplicando parte desse conhecimento à rotina do capril e da propriedade.

Hoje, a vida gira em torno de atividades simples, mas planejadas: tirar o leite de cabra, preparar queijos, cuidar das galinhas, manejar as mulas que usa em romarias longas e receber amigos para café passado na hora, pão caseiro e conversa em volta do fogão a lenha.

O produtor define essa rotina como uma forma de terapia e considera que muitos sonham com a tranquilidade que ele conseguiu construir.

Enquanto reduz o ritmo da produção comercial, Zezinho mantém o compromisso de repassar leite de cabra a quem precisa por indicação médica ou necessidade nutricional, sempre que consegue.

O objetivo é devolver, para outras famílias, a mesma chance que recebeu quando bebê.

Diante da história de Zezinho e de tudo o que o leite de cabra oferece em produção, saúde e economia, você acha que o Brasil deveria apostar mais em cabras leiteiras e reduzir a dependência exclusiva do leite de vaca nas fazendas e na mesa das famílias?

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Maria dos Remedios Lopes
Maria dos Remedios Lopes
08/12/2025 02:05

Excelente matéria! Carne maravilhosa de cabrito, eu gosto muito, meu pai 102 anos é o prato preferido dele.

Maria dos Remedios Lopes
Maria dos Remedios Lopes
08/12/2025 02:01

Materia muito boa! Tai, carne que gosto bastante de cabrito. Meu pai tem 102 anos e o prato preferido dele.
Parabéns pela boa matéria!
Ca de Teresina Piauí.

Jorge
Jorge
07/12/2025 19:51

Não conheço esse senhor, porém seu depoimento eu posso afirmar que é a pura vdd. Sou testemunha minha filha, até parece a história da minha filha quando bebê. O leite de cabra salvou minha filha.

Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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