Gás VX: a substância mais mortal criada pelo homem mata em 15 minutos, 1 gota na pele basta e é 100 vezes mais letal que Sarin
Em 13 de fevereiro de 2017, no movimentado Aeroporto Internacional de Kuala Lumpur, na Malásia, Kim Jong-nam — meio-irmão do ditador norte-coreano Kim Jong-un, caminhava tranquilamente em direção ao check-in para seu voo para Macau. Às 9h da manhã, duas mulheres se aproximaram dele. Em questão de segundos, esfregaram algo em seu rosto e desapareceram na multidão. Kim sentiu imediatamente que algo estava errado. Cambaleou até uma clínica no aeroporto, pedindo ajuda desesperadamente. Relatou que havia sido atacado com “algum tipo de spray químico”. Minutos depois, começou a ter convulsões violentas. Sua pressão arterial disparou para níveis mortais. Foi colocado em uma ambulância correndo contra o tempo.
Ele morreu a caminho do hospital. Tempo decorrido desde o ataque: 15 a 20 minutos. A autópsia revelaria que Kim Jong-nam havia sido assassinado com VX, o agente nervoso mais tóxico e de ação mais rápida entre todos os agentes de guerra conhecidos. As duas mulheres, uma indonésia e uma vietnamita, alegaram que pensavam estar participando de uma pegadinha para um programa de TV. Não sabiam que estavam carregando componentes de uma das substâncias mais mortais já criadas pela humanidade.
O que é o Gás VX e por que é tão mortal
VX não é exatamente um “gás”, o termo popular é tecnicamente incorreto. É um líquido inodoro e insípido que se parece um pouco com óleo de motor. Mas não se deixe enganar pela aparência inócua: VX é a arma química mais letal do arsenal moderno.
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A exposição ao VX pode causar morte em minutos. Uma única gota de VX na pele pode ser fatal. Para colocar isso em perspectiva: são necessários apenas 10 miligramas de VX em exposição dérmica (na pele) para matar um adulto, o equivalente a algumas gotas.
Compare isso com o sarin, o agente nervoso usado no ataque ao metrô de Tóquio em 1995 e nos ataques sírios em 2013 e 2017. O VX é entre 100 e 200 vezes mais potente que o sarin. Enquanto o sarin evapora rapidamente, o VX persiste no ambiente por dias ou até semanas, dependendo das condições climáticas.
VX é o agente de guerra química mais potente; uma única gota de VX na pele pode ser fatal. Sua potência excepcional levou as Nações Unidas a classificá-lo como arma de destruição em massa.
Como o VX mata: uma morte consciente e aterrorizante
A morte por VX é particularmente horrível porque a vítima permanece consciente durante grande parte do processo de morte.
VX é um organofosforado quimicamente similar aos pesticidas organofosforados, mas muito mais potente. Ele afeta o sistema nervoso bloqueando a ação da enzima acetilcolinesterase (AChE). Essa enzima é responsável por quebrar a acetilcolina, um neurotransmissor que transmite sinais entre nervos e músculos.
Quando a acetilcolinesterase é bloqueada, a acetilcolina se acumula nas sinapses nervosas. Os músculos são impedidos de receber sinais de “relaxamento” e ficam efetivamente paralisados. É a composição dessa paralisia por todo o corpo que rapidamente leva a complicações mais graves, incluindo o coração e os músculos usados para respirar.
Os sintomas aparecem assustadoramente rápido. Os primeiros sintomas geralmente aparecem dentro de 30 segundos após a exposição, e a morte pode ocorrer por asfixia ou parada cardíaca em poucos minutos, dependendo da dose recebida.
Os efeitos físicos incluem:
- Contração involuntária dos músculos
- Secreção aumentada de fluidos (lágrimas, saliva, suor)
- Aperto no peito e dificuldade extrema para respirar
- Convulsões resultantes do acúmulo de acetilcolina no sistema nervoso central
- Náusea e vômito intensos
- Perda total de controle corporal (urinação e defecação involuntárias)
A morte por exposição ao VX geralmente resulta de disfunção respiratória causada pela paralisia dos músculos respiratórios, acúmulo de secreções pulmonares e depressão do centro respiratório do cérebro.
O mais aterrorizante: durante grande parte desse processo, a vítima permanece consciente, aprisionada em um corpo que não responde mais aos comandos do cérebro. É uma morte por asfixia lenta enquanto se está plenamente ciente do que está acontecendo.
A origem sinistra: de inseticida a arma de destruição
A história do VX é uma das ironias mais sombrias da ciência moderna. VX foi desenvolvido em uma instalação governamental britânica em 1952, não como arma, mas como pesticida.
Um cientista industrial britânico estava pesquisando compostos organofosforados para uso agrícola quando descobriu o composto base da série V de agentes nervosos. Rapidamente percebeu-se que o novo composto era letal demais para uso comercial, mas perfeito para uso militar.
O Reino Unido renunciou a todas as armas químicas e biológicas em 1956, mas trocou informações sobre a produção de VX com os Estados Unidos em troca de informações técnicas sobre a produção de bombas termonucleares.
Em 1961, os Estados Unidos iniciaram a produção em larga escala de VX. Os únicos outros países que se acredita terem construído arsenais de VX foram a União Soviética, França e Síria.
Os arsenais mortais: toneladas de morte armazenadas
Durante a Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética produziram quantidades aterrorizantes de VX. Quando a Convenção sobre Armas Químicas entrou em vigor, as partes declararam estoques mundiais de 19.586 toneladas de VX. Para colocar isso em perspectiva: com 10mg sendo potencialmente fatal, 19.586 toneladas de VX teoricamente poderiam matar quase 2 trilhões de pessoas — cerca de 250 vezes a população mundial.
A União Soviética desenvolveu sua própria versão, VR (também conhecida como “VX russo”), na década de 1950. Na década de 1970, a União Soviética havia produzido mais de 15.000 toneladas do composto químico.
Os Estados Unidos armazenaram VX em múltiplas instalações militares, incluindo o Blue Grass Army Depot em Kentucky, Pine Bluff Arsenal no Arkansas, e outros locais. O estoque do Blue Grass consistia em 101.764 ogivas e recipientes contendo um total de 523 toneladas de agentes químicos carregados em foguetes M55, projéteis de obuseiro M104 de 155 mm e projéteis de artilharia M426 de 8 polegadas.
O longo caminho para a destruição
Após décadas de produção e armazenamento, a comunidade internacional finalmente reconheceu o perigo existencial que esses arsenais representavam.
Após a assinatura da Convenção sobre Armas Químicas (CWC) em 1993, os Estados Unidos e a Rússia começaram a eliminação de seus estoques de guerra química.
Os esforços para destruir esses agentes começaram em 2019, com o objetivo de eliminar todo o estoque de armas químicas dos Estados Unidos até 30 de setembro de 2023. A destruição foi lenta e perigosa — o VX é tão tóxico que até o processo de eliminação representa riscos enormes.
Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças anunciaram em setembro de 2022 que o último estoque de gás VX dos Estados Unidos havia sido destruído, confirmando que o último foguete VX foi desmontado e destruído em 19 de abril de 2022.
Os Estados Unidos foram o último dos oito países que assinaram a Convenção sobre Armas Químicas a destruir todo o seu estoque, ironicamente porque aderiram a protocolos de segurança mais rigorosos que outros países, o governo queria garantir a proteção do público e dos trabalhadores acima de tudo.
Em dezembro de 2015, 98% dos estoques mundiais haviam sido destruídos. Mas isso não significa que o mundo está completamente livre de VX.
Casos reais: quando o VX escapa do laboratório
O assassinato de Kim Jong-nam é o caso mais notório do uso de VX, mas não é o único.
Culto Aum Shinrikyo (Japão, 1994-1995)
Em 12 de dezembro de 1994, membros do culto Aum Shinrikyo atacaram uma vítima nas ruas de Osaka, espalhando o agente nervoso em seu pescoço. Ele os perseguiu por cerca de 90 metros antes de colapsar, morrendo dez dias depois sem nunca sair de um coma profundo.
O culto Aum Shinrikyo, que também realizou o ataque com sarin no metrô de Tóquio em 1995 (matando 12 pessoas), usou VX em tentativas de assassinato contra inimigos do culto em 1994 e 1995. Uma pessoa morreu.
Guerra Irã-Iraque (1980-1988)
Embora não haja evidência conclusiva, especialistas e um desertor iraquiano afirmam que Saddam Hussein usou VX contra forças iranianas durante a guerra de 1980-1988, e novamente em 1988 em um ataque químico contra curdos iraquianos na cidade de Halabja — massacre que matou 5.000 pessoas e criou sérios problemas de saúde para milhares mais.
Síria (anos 2010s)
Há relatórios de que a Síria produziu com sucesso VX ou agente similar e testou ogivas de mísseis armadas com VX, embora o governo sírio tenha negado.
O antídoto que não salvou Kim Jong-nam
Uma das revelações mais trágicas do caso Kim Jong-nam foi descoberta meses depois de sua morte. A Corte Superior da Malásia ouviu que Kim Jong-nam carregava 12 doses de atropina em sua bolsa no momento de sua morte.
Atropina é o antídoto primário para envenenamento por agentes nervosos. É frequentemente distribuída a soldados em caso de ataque químico. Kim sabia que estava em perigo, de acordo com um parlamentar sul-coreano, citando briefing do Serviço Nacional de Inteligência, Pyongyang havia tentado assassinar Kim Jong-nam por cinco anos antes do incidente na Malásia.
Mas ter o antídoto não salvou sua vida. Para que a atropina seja eficaz, deve ser injetada quase imediatamente após a exposição. A atropina é mais comumente injetada em um músculo, sob a pele ou administrada intravenosamente, mas também está disponível em forma de comprimido ou colírio.
Kim carregava comprimidos. Como um especialista explicou: “Se você engolir como comprimido, levará de 15 a 20 minutos até que entre na corrente sanguínea, e nesse estágio o VX já terá feito efeito”.
Ele tinha o antídoto literalmente em suas mãos, mas na forma errada e sem tempo para usá-lo.
Por que o VX é tão difícil de combater
VX apresenta desafios únicos para prevenção e tratamento:
Persistência extrema
VX é considerado um agente muito persistente. Se liberado, pode permanecer no ambiente por dias a semanas antes de evaporar. Isso significa que áreas contaminadas permanecem perigosas por longos períodos.
Múltiplas rotas de exposição
VX é tóxico em suas formas líquida, aerossol e vapor. É mais perigoso quando absorvido pela pele. Como aerossol, pode ser inalado e absorvido pelos pulmões. Também pode ser absorvido pelo sistema digestivo se ingerido.
Ação ultra-rápida
A exposição ao VX produz efeitos na saúde em segundos a minutos. Grandes exposições podem causar morte em 1 a 10 minutos.
Tratamento complexo
O tratamento padrão para envenenamento por agente nervoso é uma combinação de um anticolinérgico (atropina) para gerenciar os sintomas e uma oxima (2-PAM Cloreto) como antídoto. Ambos devem ser injetados imediatamente após a exposição para serem eficazes.
Mas mesmo com tratamento imediato, a sobrevivência não é garantida. E se o tratamento for atrasado mesmo por alguns minutos, geralmente é tarde demais.
O legado sombrio
VX representa um dos paradoxos mais sombrios da ciência moderna: um composto descoberto acidentalmente durante pesquisa para melhorar a agricultura se tornou uma das substâncias mais mortais já criadas pela humanidade.
Hoje, após décadas de produção e armazenamento, finalmente destruímos a maioria dos estoques mundiais de VX. Mas a tecnologia para produzi-lo ainda existe. O conhecimento não pode ser apagado. E casos como o assassinato de Kim Jong-nam provam que VX ainda é uma ameaça real.
Uma única gota pode matar. Quinze minutos da exposição à morte. Cem vezes mais letal que sarin. Invisível, inodoro, persistente. VX não é apenas a arma química mais mortal já criada — é um lembrete aterrorizante do que a humanidade é capaz de fazer quando a ciência é colocada a serviço da morte.
Como disse um especialista em armas químicas: “VX foi projetado com um único propósito: matar seres humanos da forma mais eficiente possível. E nesse objetivo terrível, os cientistas tiveram um sucesso assustador.”

