Coreia do Sul usa cavernas industriais subterrâneas para armazenar 146 milhões de barris de petróleo e cargas perigosas ligadas a portos e refinarias em Ulsan.
Segundo documentos da Korea National Oil Corporation (KNOC), responsável pela estratégia energética do país, o sistema de cavernas industriais subterrâneas para armazenamento de petróleo e cargas perigosas começou a ser construído no início dos anos 1980, em plena reestruturação logística da Coreia do Sul. O objetivo era triplo: aumentar o estoque estratégico nacional, proteger substâncias inflamáveis e liberar o limitado espaço urbano e portuário para indústrias e moradia.
A primeira fase entrou em operação em 1986, e desde então novas cavernas e corredores foram escavados, ampliando a capacidade total para aproximadamente 146 milhões de barris de petróleo cru, derivados e gás liquefeito de petróleo (GLP). Para efeito de comparação, esse volume equivaleria a mais de 7 meses de consumo interno coreano nos anos 1980 ou a mais de dois superpetroleiros VLCC completamente carregados.
Por que colocar petróleo dentro de uma montanha?
Ao contrário de outros países, como Estados Unidos e China, que armazenam petróleo em cavernas salinas profundas ou tanques de superfície, a Coreia do Sul possui geologia favorável a cavernas escavadas em rocha cristalina, especialmente na região de Ulsan.
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Isso permitiu que engenheiros coreanos convertessem maciços rochosos próximos ao litoral em verdadeiros terminais subterrâneos, conectados diretamente ao mar e às refinarias da região. Armazenar petróleo dentro da rocha oferece vantagens claras:
- Segurança contra explosões
Em caso de acidente, a montanha funciona como barreira física. - Proteção contra ataques militares
Os tanques subterrâneos resistem a bombardeios muito melhor que tanques expostos. - Desafogo urbano e portuário
Ulsan é um dos maiores polos petroquímicos da Ásia e já sofre com falta de espaço. - Ausência de impacto visual
A infraestrutura energética desaparece do topo, liberando a paisagem para cidades e indústrias limpas.
Cavernas escavadas com engenharia de mineração e infraestrutura de portos
O coração do sistema é o conjunto de cavernas que abriga o petróleo em salas subterrâneas gigantes, algumas com mais de 100 metros de comprimento e dezenas de metros de largura, todas conectadas por túneis de acesso, corredores técnicos e dutos industriais. Essas cavernas não são depósitos improvisados, mas estruturas planejadas seguindo padrões de engenharia de mineração:
- Revestimento interno para evitar infiltrações
- Controle de pressão e ventilação
- Sistema de tubulação segregado
- Sensores de gás, temperatura e umidade
- Salas de válvulas e bombeamento
A proximidade com o mar permite que navios-tanque abasteçam e descarreguem diretamente, utilizando oleodutos submarinos que chegam ao terminal subterrâneo. Do outro lado, a conexão terrestre leva o petróleo para as refinarias de Ulsan, Onsan e Yeosu, consolidando um corredor petroquímico integrado à escala continental.
Um dos maiores estoques estratégicos subterrâneos do planeta
O número de 146 milhões de barris não é arbitrário. Ele faz parte de uma estratégia nacional que saltou aos olhos de países aliados e rivais. Do total:
- uma parte é estoque nacional, para emergências de abastecimento
- outra parte é estoque comercial, alugado a compradores como Japão, EUA e membros da AIE
- e o restante serve para trânsito petroquímico, abastecendo refinarias e exportações
Esse arranjo híbrido transformou Ulsan num hub energético: petróleo chega, é armazenado, refinado e reexportado. Tudo isso sob uma camada de rocha sólida, invisível para quem passa pela cidade.
Cargas perigosas e o problema da densidade urbana
Com o crescimento das cidades coreanas e o avanço da industrialização a partir dos anos 1970, surgiu um dilema: onde colocar instalações altamente perigosas quando o país é pequeno, densamente povoado e com área costeira limitada? sob as cidades, a Coreia encontrou a resposta. Além de Ulsan, o país construiu:
- postos subterrâneos de GLP
- depósitos pressurizados
- armazéns químicos blindados
Tudo para reduzir riscos urbanos e acidentes industriais em áreas densamente povoadas. Segundo a própria KNOC, esse tipo de infraestrutura subterrânea reduz drasticamente o risco de incêndios urbanos e elimina a necessidade de zonas de exclusão acima do solo.
Geopolítica e energia: um país sem petróleo virou potência petroquímica
A Coreia do Sul não tem petróleo e depende quase 100% das importações. Mesmo assim, se tornou um dos maiores produtores mundiais de:
- resinas petroquímicas
- combustíveis marítimos
- fertilizantes industriais
- polímeros técnicos
Como? Com logística integrada, refinarias gigantes e terminais subterrâneos como os de Ulsan. Hoje, o país é sede de gigantes como:
- SK Energy
- Hyundai Oilbank
- S-OIL
- LG Chem
O resultado é um paradoxo fascinante: um país sem petróleo que abastece o mundo com petroquímica. Os terminais subterrâneos são uma peça-chave desse quebra-cabeça.
Por que quase ninguém conhece esse tipo de infraestrutura?
Existem três motivos principais:
- É subterrâneo Não há “foto bonita” como plataformas offshore ou refinarias iluminadas.
- Não foi criado para ser turístico A função é técnica, defensiva e industrial.
- O mundo presta atenção em petróleo no Oriente Médio, não na Coreia
Enquanto o foco global está em Arábia Saudita, Iraque e Irã, poucos percebem que a Coreia construiu um modelo silencioso de segurança energética.
Do subterrâneo para o futuro da energia
Com a transição energética em andamento, estruturas como as cavernas de Ulsan podem ganhar novos usos. Especialistas sul-coreanos já estudam a possibilidade de converter cavernas de hidrocarbonetos em:
- depósitos de hidrogênio
- reservatórios de ar comprimido
- armazenamento estratégico de CO₂
Ou seja, aquilo que começou para petróleo pode virar uma infraestrutura da descarbonização. Isso coloca o país na mesa da próxima década: o subsolo como ativo logístico.
