Expansão das cabines intermediárias e de alto padrão redefine estratégias comerciais da aviação, eleva receitas por passageiro e muda o perfil de consumo no transporte aéreo mundial
A informação foi divulgada por “O Globo”, com dados complementares da Iata (Associação Internacional de Transporte Aéreo), e revela uma transformação profunda no setor aéreo global. Nos últimos anos, especialmente no período pós-pandemia, companhias aéreas passaram a apostar com força na expansão de assentos premium como estratégia central para aumentar receitas e atender um novo perfil de passageiro.
Logo de início, esse movimento não acontece por acaso. Pelo contrário, ele reflete uma mudança estrutural na forma como as empresas enxergam o equilíbrio entre volume de passageiros e rentabilidade por voo. Enquanto a classe econômica perde espaço relativo, categorias como economy premium, executiva e primeira classe ganham protagonismo.
Economy premium vira protagonista e amplia lucro das companhias aéreas
Em primeiro lugar, é importante entender o papel da chamada economy premium, que hoje ocupa uma posição estratégica dentro das aeronaves. Essa categoria funciona como um meio-termo entre a classe econômica tradicional e as cabines mais luxuosas, oferecendo mais conforto, benefícios e flexibilidade por um preço ainda acessível.
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Segundo Alessandro Oliveira, especialista do ITA, a diferença de preço entre a economy premium e a econômica pode variar de duas a três vezes, podendo chegar até oito vezes, dependendo da demanda. Isso acontece porque o setor utiliza o chamado yield management, um sistema de precificação dinâmica baseado na procura.
Além disso, quanto maior o número de segmentos dentro da aeronave, maior é a flexibilidade comercial das companhias. Dessa forma, as empresas conseguem atender passageiros com diferentes perfis de renda, preferências e expectativas, maximizando o retorno financeiro por assento.
Ao mesmo tempo, a retomada do tráfego aéreo após a pandemia, combinada com limitações na expansão da frota — resultado da desaceleração da indústria durante a Covid-19 — levou a uma ocupação média global de 84% no fim de 2025. Portanto, com aviões mais cheios, a estratégia passou a ser aumentar o valor gerado por cada passageiro.
Crescimento acelerado das cabines premium supera classe econômica
Enquanto isso, os dados reforçam a força dessa tendência. De acordo com Simone Tcherniakovsky, diretora-geral da Iata no Brasil, a capacidade de assentos premium cresceu 117% em 2025 em relação a 2019, superando o crescimento da classe econômica, que avançou 106% no mesmo período.
Além disso, o relatório do último trimestre de 2025 da Iata aponta que a América Latina e o Caribe registraram expansão de 5,5% no tráfego total de passageiros em 12 meses, enquanto o segmento internacional cresceu 6,6%. No entanto, o destaque ficou para as classes premium, que avançaram impressionantes 13,2%.
Outro dado relevante reforça essa mudança estrutural: embora as classes premium representem apenas 3,6% do total de passageiros em 2025, elas são responsáveis por cerca de 15% da receita das companhias aéreas, já que suas tarifas podem ser, em média, até cinco vezes mais caras que as da classe econômica.
Consequentemente, o setor percebeu que não é necessário aumentar apenas o número de passageiros, mas sim melhorar a qualidade da receita por cliente.
Novos investimentos, rotas e serviços impulsionam transformação do setor
Diante desse cenário, companhias aéreas ao redor do mundo estão acelerando investimentos em novas cabines, aeronaves e serviços diferenciados. Um exemplo claro é a Gol, que, após sair da recuperação judicial, anunciou a chegada de cinco Airbus A330-900, alugados da Wamos.
Esses aviões permitirão à companhia expandir sua malha internacional, com rotas para Lisboa, Nova York, Paris e Orlando a partir do Rio de Janeiro. Além disso, a empresa lançou a classe executiva Insignia, considerada um dos pilares de sua estratégia de crescimento.
Para o passageiro, os benefícios incluem assentos que viram cama, serviço de bordo assinado pelo chef Felipe Bronze (duas estrelas Michelin), check-in prioritário e acesso a lounges.
Ao mesmo tempo, a Latam também avança nessa direção. A empresa já oferece economy premium em voos domésticos desde 2020 e pretende expandir essa categoria para voos internacionais de longa distância a partir de 2027. Além disso, com a chegada de mais de dez aeronaves A321XLR, a companhia introduzirá uma nova executiva premium com assentos totalmente reclináveis.
Enquanto isso, outras companhias seguem o mesmo caminho. A TAP passará a oferecer a Economy Prime a partir de junho, com preços entre 30% e 40% superiores à econômica. Já a Delta investe mais de US$ 1 bilhão na modernização de suas cabines premium, incluindo a nova Delta One com suítes privativas em aeronaves A350-1000 a partir de 2027.
Viagens corporativas e perfil do consumidor impulsionam demanda premium
Outro fator decisivo para essa transformação é o crescimento das viagens corporativas. Esse segmento, tradicionalmente associado às tarifas mais altas, voltou a níveis pré-pandemia já em 2022, movimentando R$ 11,20 bilhões. Nos anos seguintes, seguiu em expansão, alcançando R$ 13,68 bilhões em 2025, segundo a Abracorp.
No entanto, muitas empresas adotaram políticas mais restritivas, reduzindo o uso da classe executiva. Nesse contexto, a economy premium surge como uma alternativa equilibrada, oferecendo conforto adicional sem os custos elevados da executiva.
Além disso, o perfil do passageiro mudou. Hoje, tanto viajantes corporativos quanto turistas de alto padrão buscam experiências mais confortáveis, com maior privacidade, melhor atendimento e benefícios exclusivos.
Portanto, a chamada “premiumização” da aviação não é apenas uma tendência momentânea, mas sim uma transformação estrutural que redefine o futuro do setor.
Se você pudesse escolher, pagaria mais por uma experiência premium em voo ou prefere economizar e viajar na classe econômica?

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