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Navios chineses com tanques de 80 mil metros cúbicos e sensores em tempo real transformam o mar em megaestruturas de criação capazes de produzir até cinco mil toneladas de peixe por ano

Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 01/12/2025 às 16:54
Assista o vídeoA estrutura flutuante chinesa armazena tanta água quanto dezenas de piscinas olímpicas e entrega uma produção equivalente à de vastas fazendas terrestres, redefinindo a aquicultura industrial
A estrutura flutuante chinesa armazena tanta água quanto dezenas de piscinas olímpicas e entrega uma produção equivalente à de vastas fazendas terrestres, redefinindo a aquicultura industrial
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A China constrói navios gigantes de criação de peixes com sensores inteligentes, tanques colossais e propulsão elétrica para ampliar a produção em alto mar e reduzir a dependência de importações

A demanda por peixe na China cresce ano após ano. Para evitar depender de importações, o país decidiu investir em soluções tecnológicas que ampliam a oferta e garantem o abastecimento interno. A estratégia mais recente envolve a construção de enormes navios de criação em alto-mar, estruturas tão avançadas que já são apelidadas de porta aviões flutuantes para peixes.

O interesse global pelo setor pesqueiro chinês não é novo. Dados da FAO mostram que quase um terço do volume mundial de pesca está relacionado ao país. Também se multiplicam denúncias sobre frotas chinesas atuando em águas distantes, como no Peru. Agora, além da pesca tradicional, a China aposta na aquicultura marinha em escala industrial e com forte presença tecnológica.

Wan Qu Ling Ding: o porta aviões de peixes da nova geração

Um dos símbolos dessa nova estratégia é o imponente Wan Qu Ling Ding. O navio parece ter saído de um filme futurista e foi lançado em 27 de maio, segundo informações da CCTV. A construção ficou a cargo do estaleiro Jiangmen Hangtong Shipbuilding Co.

A entrega está prevista para agosto, quando o navio passará a operar para a empresa Zhuhai Ocean Development Group Co. Ele funcionará como uma imensa fazenda flutuante, com dimensões impressionantes. São 155,8 metros de comprimento e 44 metros de largura.

O destaque principal está nos doze compartimentos de criação, capazes de armazenar até 80 mil metros cúbicos de água. Esse volume equivale a cerca de 32 piscinas olímpicas. A expectativa de produção anual varia entre três mil e cinco mil toneladas de peixes. Em comparação, esse volume corresponderia ao rendimento de uma fazenda terrestre com cerca de 3,33 milhões de metros quadrados.

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Aquicultura inteligente e monitoramento contínuo

O Wan Qu Ling Ding foi projetado para criar espécies de alto valor na China. A lista inclui palometa dourada, seriola e garoupa. Além de abastecer o mercado interno, parte da produção também deve atender empreendimentos de turismo.

Um dos pontos mais avançados do projeto é o sistema de troca constante de água com o ambiente marinho. Isso melhora a qualidade da água nos tanques e favorece o crescimento saudável dos peixes. Cada compartimento possui sensores modernos e sistemas automáticos de alimentação.

Os sensores são capazes de detectar mudanças bruscas na qualidade da água e sinais de poluição. Quando isso ocorre, os compartimentos semi submersos podem ser elevados rapidamente. O processo reduz a resistência na água e permite que o navio se desloque com mais velocidade para regiões seguras.

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Autonomia total e navegação inteligente

Outro diferencial do Wan Qu Ling Ding é sua autonomia operacional. O sistema de propulsão elétrica permite o que seus criadores chamam de nomadismo marítimo autônomo. O navio tem alcance de até duas mil milhas náuticas e consegue navegar sozinho para evitar fenômenos naturais como tufões.

Além disso, o navio possui um sistema de geração eólica de 20 kW. Essa energia é suficiente para alimentar integralmente os sistemas de aquicultura a bordo. É um exemplo claro de como energia limpa e tecnologia podem ser integradas ao setor pesqueiro.

A Salmar Ocean apresenta um sistema de filtragem semelhante no Guoxin 1, outro navio moderno usado para aquicultura em mar aberto.

Hai No. 1: o primeiro navio dedicado exclusivamente ao salmão

Enquanto o Wan Qu Ling Ding se prepara para iniciar suas operações, outro gigante já está pronto. O Hai No. 1 foi construído pelo estaleiro Huangpu Wenchong, em Guangzhou. Ele é o primeiro navio do mundo criado exclusivamente para a produção de salmão.

Com 250 metros de comprimento, o Hai No. 1 impressiona pelo porte e pela capacidade de locomoção para fugir de áreas poluídas ou zonas perigosas. Os primeiros testes ocorreram em abril e a produção deve começar em junho.

A capacidade anual chega a oito mil toneladas de salmão. Graças a uma planta de processamento instalada a bordo, o navio consegue entregar salmão fresco em alguns mercados nacionais em apenas 24 horas.

Estratégia nacional para alcançar independência alimentar

A construção desses navios atende a uma prioridade estratégica da China: ampliar a autossuficiência alimentar. Segundo o SCMP, o país importou cerca de cem mil toneladas de salmão em 2024. A expectativa é que a demanda ultrapasse duzentas mil toneladas até 2030.

Mais de 80 por cento do salmão consumido pelos chineses depende de importações. Por isso, projetos como o Wan Qu Ling Ding e o Hai No. 1 são vistos como essenciais para reduzir a dependência externa e estabilizar a cadeia de fornecimento.

Em 2023, o Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China publicou diretrizes para incentivar o desenvolvimento da aquicultura marinha. A expansão desses navios está alinhada a essas metas.

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Uma tecnologia que pode transformar a indústria global

Os colossais porta aviões de peixes chineses não têm como objetivo apenas abastecer o consumo interno. Eles também reforçam a segurança alimentar do país em um cenário internacional marcado por tensões comerciais e incertezas logísticas.

Como ocorre em outros setores estratégicos, a China aposta em tecnologia avançada para fortalecer sua soberania alimentar. A aquicultura em alto mar, impulsionada por navios como o Wan Qu Ling Ding e o Hai No. 1, surge como uma peça central dessa estratégia e pode transformar a indústria pesqueira mundial nos próximos anos.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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