Com energia solar a pouco mais de 1 centavo por kWh, a Arábia Saudita aposta em data centers de IA ultrabaratos para virar potência global da inteligência artificial.
Duas horas ao sul de Jeddah, às margens do Mar Vermelho, um pedaço do deserto saudita está se transformando em um dos projetos mais estratégicos do planeta. A Fazenda Solar Al Shuaiba, que ocupa cerca de 50 quilômetros quadrados, entrou no centro dos planos da Arábia Saudita para um novo tipo de poder global: o poder computacional. A primeira fase do projeto, com início previsto para 2024, deverá gerar 600 megawatts de eletricidade a apenas 3,9 halalas sauditas por quilowatt-hora, pouco mais de um centavo de dólar. Para efeito de comparação, esse custo representa cerca de um vigésimo da energia produzida pela usina nuclear britânica Hinkley Point C.
Essa eletricidade extremamente barata não foi pensada apenas para abastecer cidades ou indústrias tradicionais. O plano é direcioná-la quase integralmente para enormes data centers voltados à inteligência artificial, um setor onde o custo da energia se tornou um dos principais gargalos econômicos do mundo.
Energia barata virou o fator decisivo da inteligência artificial
O funcionamento de sistemas de IA depende basicamente de dois custos contínuos: hardware de alto desempenho e eletricidade para mantê-lo operando. Cortar gastos com chips costuma ser um erro estratégico, já que os modelos mais modernos exigem justamente processadores mais caros e eficientes. Por isso, a variável que realmente faz diferença é o custo da energia e é exatamente nesse ponto que a Arábia Saudita construiu sua vantagem competitiva.
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Enquanto outros países tentam reduzir custos operacionais por ganhos marginais de eficiência, os sauditas apostam em algo estrutural: produzir eletricidade em escala colossal, a preço quase simbólico, e usar esse diferencial para baratear a inferência de IA, o processo de fazer perguntas e obter respostas de sistemas inteligentes.
Uma prioridade nacional apoiada diretamente pelo poder político
A estratégia deixou de ser apenas um projeto tecnológico e passou a ser prioridade nacional em maio, com apoio direto do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman (MBS). Para executar o plano, foi criada a empresa Humain, comandada por Tarek Amin, atual chefe da Aramco Digital, o braço tecnológico da estatal de energia saudita.
A Humain foi incorporada à Visão 2030, o ambicioso programa que busca reduzir a dependência histórica do país em relação ao petróleo. Segundo Amin, o risco de fracasso é enorme, mas inevitável. Não existe plano alternativo. A aposta precisa dar certo.
Terreno, licenças e energia: três vantagens que poucos países têm
Além da eletricidade barata, a Arábia Saudita reúne outros dois fatores críticos para data centers em escala global. O primeiro é espaço físico. O país é vasto, pouco povoado e permite a obtenção rápida de licenças de construção quando há apoio governamental. Em apenas duas semanas, a Humain identificou mais de 200 locais potenciais, com acesso a 15,6 gigawatts de eletricidade, incluindo grandes áreas já integradas a projetos solares.
O segundo fator é a capacidade de integração entre energia, infraestrutura e Estado. Poucos países conseguem alinhar esses três elementos sem entraves regulatórios prolongados.
Chips de inferência e a redução do custo por token
O terceiro pilar da estratégia envolve os chips de inteligência artificial. O projeto começou com um acordo entre a Aramco Digital e a empresa americana Groq, avaliada em US$ 1,5 bilhão, especializada em semicondutores focados em inferência, não em treinamento de modelos.
Esses chips não são os preferidos dos grandes laboratórios de IA, que buscam flexibilidade máxima. Porém, eles são ideais para reduzir o custo por token, a unidade básica cobrada pelos serviços comerciais de IA. Hoje, empresas cobram valores elevados por milhões de tokens processados e gerados. A proposta da Humain é simples: executar modelos em solo saudita, com energia baratíssima e chips eficientes, e vender tokens por cerca de metade do preço de mercado.
A abertura para chips avançados e o interesse global
Em novembro, o projeto ganhou impulso político internacional. Durante uma visita de MBS aos Estados Unidos, foi concedida uma licença para a importação de 35 mil chips avançados da Nvidia, avaliados em quase US$ 1 bilhão. Embora esse volume não seja suficiente para suprir todos os data centers planejados, representa uma mudança significativa na postura americana, que antes restringia esse tipo de tecnologia a aliados mais próximos.
O movimento já atraiu investidores. A AirTrunk, uma das maiores construtoras de data centers do mundo, assinou um contrato de US$ 3 bilhões com a Humain para desenvolver um grande campus de infraestrutura no país.
A Arábia Saudita também quer ser usuária da própria IA
O plano não se limita a exportar capacidade computacional. O país já utiliza seus próprios sistemas. O ALLAM, modelo de IA em língua árabe desenvolvido em parceria com a Autoridade Saudita de Dados e IA (SDAIA), passou a ser utilizado por funcionários públicos. Além disso, a Humain firmou acordos com empresas globais, como a Adobe, para incorporar o modelo em softwares comerciais.
Essa estratégia dupla — infraestrutura e aplicação — fortalece o ecossistema e reduz a dependência de soluções externas.
De data centers a um “sistema operacional de IA”
O horizonte da Humain vai além da hospedagem de modelos. Segundo Tarek Amin, o objetivo de longo prazo é criar o primeiro sistema operacional corporativo baseado em IA, capaz de substituir funções tradicionais de recursos humanos, finanças e jurídico por agentes inteligentes, com interfaces baseadas em chatbots em vez de cliques e ícones.
É uma ambição que muitos consideram ousada demais, mas que revela a dimensão do projeto saudita. Não se trata apenas de energia barata ou data centers. Trata-se de reposicionar o país como um dos cinco maiores polos globais de inteligência artificial nos próximos cinco a sete anos, segundo analistas da PwC.
A Arábia Saudita, que construiu sua riqueza com petróleo, agora aposta que eletricidade solar quase gratuita e poder computacional em escala planetária podem ser a base do seu próximo ciclo histórico.

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