China recupera 6.000 km² de desertos com grades de palha e engenharia natural em Kubuqi. Veja como o país realizou a maior reversão de dunas da história.
Em julho de 2023, a ONU Environment voltou a classificar o Deserto de Kubuqi, na Região Autônoma da Mongólia Interior, como o maior caso de reversão de desertificação já documentado em escala nacional. O local, que por décadas representou um dos ambientes mais hostis do norte da China, era marcado por dunas móveis, tempestades de poeira e avanço contínuo da areia sobre vilarejos inteiros. Hoje, segundo dados consolidados pela United Nations Environment Programme e por estudos da Academia Chinesa de Ciências, mais de 6.000 km² foram recuperados por meio de técnicas de engenharia natural que combinam cercas de palha, plantio de espécies resistentes e manejo hídrico de baixa intervenção.
A transformação impressiona pela escala e pela simplicidade dos métodos utilizados. Em vez de grandes obras civis ou estruturas artificiais de alto custo, o governo chinês, empresas privadas e comunidades locais adotaram técnicas tradicionais de estabilização de dunas, reaplicando conhecimento antigo com ferramentas modernas de monitoramento climático e sensoriamento remoto. A mudança foi tão profunda que Kubuqi deixou de ser classificado como deserto em parte de sua extensão e passou a integrar áreas produtivas, com agricultura adaptada, criação de gado e pequenas zonas urbanas.
A técnica das grades de palha: a solução simples que venceu dunas móveis e ventos extremos
O método mais emblemático desse processo é o “checkerboard straw method”, conhecido no Brasil como grades de palha quadriculadas.
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A técnica consiste em montar quadrados de palha trançada, geralmente de 1 metro por 1 metro, cravados no solo em uma matriz contínua. Essas estruturas reduzem a velocidade do vento próximo ao chão, estabilizam a areia e criam pequenas áreas de sombra e retenção de umidade.
Segundo relatórios da UNCCD, essas grades são capazes de reduzir em até 70% a velocidade do vento ao nível do solo e resistir a rajadas superiores a 70 km/h, comuns nas regiões áridas da Mongólia Interior.
Com a areia finalmente estabilizada, espécies resilientes como Salix psammophila, Hedysarum scoparium e variedades nativas de halófitas são plantadas dentro dos quadrados.
A China desenvolveu inclusive estacas de plantio profundo, que alcançam camadas mais úmidas do solo e garantem a sobrevivência das mudas mesmo em períodos sem chuva. Para completar o sistema, técnicas mínimas de irrigação por gotejamento são utilizadas apenas nas fases iniciais, reduzindo drasticamente o consumo de água.
Esses princípios, aplicados de forma contínua por mais de 30 anos, permitiram que Kubuqi se tornasse um laboratório vivo de engenharia natural, exportando técnicas para outros desertos chineses, como Tengger e Maowusu, que também registraram retrocessos expressivos no avanço das dunas.
Da terra estéril ao polo produtivo: os efeitos econômicos da recuperação das dunas
A reversão do processo de desertificação não se traduziu apenas em ganhos ambientais. Ao longo da década de 2010, o governo chinês e empresas como o grupo Elion implementaram modelos de agroflorestas, criação adaptada e exploração de plantas medicinais, que hoje movimentam a economia local.
Espécies como o alcaçuz e a cistanche deserticola, valorizadas pela medicina tradicional e pela indústria farmacêutica, começaram a ser cultivadas em larga escala graças à estabilização do solo.
Relatórios oficiais apresentados em fóruns ambientais da ONU apontam que mais de 100 mil pessoas foram beneficiadas direta ou indiretamente pela recuperação de Kubuqi, seja com empregos em viveiros de mudas, manejo florestal, sistemas de irrigação ou na própria gestão das áreas reflorestadas.
Além do impacto na economia local, a diminuição das tempestades de areia reduziu custos sanitários nas grandes cidades do norte da China, como Pequim e Tianjin, que por anos sofreram com nuvens de poeira originadas em Kubuqi.
A ciência por trás da transformação: monitoramento, estudos e dados satelitais
A recuperação de Kubuqi não se resume à aplicação de métodos tradicionais. Nos últimos anos, equipes da Academia Chinesa de Ciências utilizaram drones, sensores de umidade, análise espectral e satélites de alta resolução para acompanhar o comportamento das dunas, medir a velocidade do vento, identificar áreas vulneráveis e prever pontos de erosão.
Relatórios publicados entre 2018 e 2023 indicam que a taxa de cobertura vegetal ultrapassou 53% em algumas zonas, gerando microclimas capazes de alterar o regime de chuvas, visto por especialistas como um dos efeitos positivos do processo de revegetação.
Com mais vegetação, o solo absorve mais radiação solar, reduz a temperatura superficial e altera padrões de evaporação. Isso reduz o efeito de “ilhas térmicas desérticas”, criando condições favoráveis para espécies que antes não sobreviviam no local. É um ciclo de recuperação que se retroalimenta.
Um modelo exportado para o mundo e reconhecido por organismos internacionais
O sucesso de Kubuqi fez com que a China se tornasse referência global no combate à desertificação. Delegações de países africanos, do Oriente Médio e da Ásia Central visitaram a região para estudar a metodologia e aplicá-la em áreas áridas como o Sahel, o norte do Quênia, partes da Namíbia e regiões da Arábia Saudita.
A Great Green Wall Initiative, que busca conter o avanço do Saara com 8.000 km de vegetação, adotou princípios semelhantes ao método chinês.
O reconhecimento internacional culminou em prêmios ambientais e relatórios oficiais da ONU destacando que nenhum outro país recuperou tantas áreas desertificadas de forma contínua e com tão poucos recursos tecnológicos. Kubuqi é considerado um exemplo de como técnicas simples, quando aplicadas sistematicamente, podem gerar efeitos monumentais.
O impacto climático e a perspectiva futura
O avanço da desertificação é um dos maiores desafios ambientais do século XXI, intensificado pela mudança climática e pelo uso inadequado do solo.
A experiência de Kubuqi mostra que grandes reviravoltas ambientais não dependem apenas de máquinas gigantes, mas da capacidade de integrar conhecimento tradicional, ciência de dados e participação comunitária.
Especialistas estimam que, nos próximos dez anos, a China poderá recuperar ainda mais 2.500 km² de áreas áridas utilizando métodos semelhantes, expandindo o modelo para regiões historicamente consideradas irrecuperáveis.
Se a tendência se mantiver, Kubuqi poderá se tornar o primeiro caso de grande deserto totalmente estabilizado e convertido em zona agroindustrial sustentável.

