Bartini Beriev VVA-14 foi criado na Guerra Fria para caçar submarinos nucleares Polaris, mas nunca recebeu os 12 motores VTOL planejados e acabou abandonado em Monino.
Segundo a CNN, o Bartini Beriev VVA-14, sigla de Vertikal’no-Vzletayushchaya Amfibiya, ou anfíbio de decolagem vertical, foi criado para uma missão urgente da Guerra Fria: destruir submarinos nucleares da classe Polaris da Marinha dos Estados Unidos antes que lançassem mísseis contra o território soviético. O avião fez seu primeiro voo em 4 de setembro de 1972, pilotado por Yu. Kupriyanov e pelo navegador L. Kusnetsov.
Entre 1972 e 1975, o VVA-14 realizou 107 voos e acumulou 103 horas totais de voo, mas nunca chegou perto de sua configuração operacional completa. Os 12 motores de decolagem vertical planejados jamais foram entregues pela fábrica responsável, tornando impossível testar o modo VTOL que era o coração do projeto.
Quando Robert Bartini morreu em 6 de dezembro de 1974, aos 77 anos, em Moscou, o programa perdeu seu principal defensor dentro da burocracia soviética. Dois anos depois, foi cancelado, e o único exemplar sobrevivente acabou abandonado no Museu Central da Força Aérea, em Monino.
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Bartini Beriev VVA-14 nasceu para caçar submarinos nucleares Polaris dos Estados Unidos
Para entender o VVA-14, é preciso entender o medo estratégico que os submarinos Polaris provocavam na União Soviética. Esses submarinos nucleares podiam permanecer submersos por semanas, mover-se silenciosamente e lançar mísseis balísticos com alcance superior a 2.000 km.
Detectar, rastrear e destruir esses submarinos tornou-se prioridade militar. O problema era que aeronaves antissubmarino convencionais dependiam de pistas e bases fixas, o que limitava a cobertura em áreas oceânicas distantes.
A solução proposta por Robert Bartini era radical: uma aeronave anfíbia capaz de decolar verticalmente da água, voar como avião convencional, usar efeito de solo sobre o oceano e operar como plataforma antissubmarino sem depender de pista, porto ou base costeira.
Robert Bartini foi o italiano que projetou aviões para a União Soviética
A história do VVA-14 está ligada diretamente à trajetória de Roberto Oros di Bartini. Ele nasceu em 1897 em Fiume, hoje Rijeka, na Croácia, filho ilegítimo de um barão austro-húngaro, e serviu no exército austro-húngaro durante a Primeira Guerra Mundial.
Capturado pelos russos em 1916, Bartini foi enviado para um campo de prisioneiros na Sibéria, onde entrou em contato com soldados revolucionários e aderiu ao comunismo. Depois voltou à Itália, ingressou no Partido Comunista Italiano e fugiu para a União Soviética após a chegada de Mussolini ao poder.
Na URSS, tornou-se engenheiro aeronáutico, projetou dezenas de aviões e chegou a ser preso durante o Grande Terror de Stalin, acusado de espionagem. Mesmo no Gulag, continuou projetando aeronaves, antes de ser reabilitado e reconhecido como um dos nomes mais inovadores da aviação soviética.
Avião anfíbio soviético usaria efeito de solo para ampliar alcance sobre o oceano
O VVA-14 foi pensado para explorar o chamado efeito de solo, fenômeno em que uma aeronave voando muito perto da superfície recebe sustentação adicional pelo ar comprimido entre as asas e o solo ou a água. Esse efeito permite planar rente ao mar com menor consumo de combustível.
Para uma aeronave antissubmarino, isso fazia sentido estratégico. Voar baixo sobre o oceano aumentaria o alcance, reduziria o gasto de combustível e permitiria patrulhas em áreas onde submarinos nucleares americanos poderiam operar.
O conceito colocava o VVA-14 entre avião, anfíbio, VTOL e ekranoplan. Era uma tentativa soviética de combinar decolagem vertical, voo convencional e navegação em efeito de solo em uma única máquina militar.
VVA-14 teria 14 motores, mas os 12 motores de decolagem vertical nunca chegaram
Na configuração completa, o Bartini Beriev VVA-14 teria 14 motores. Dois turbofans Soloviev D-30M seriam responsáveis pelo voo de cruzeiro, empurrando o avião para frente como em uma aeronave convencional.
Outros 12 motores turbofan Rybinsk RD-36-35PR seriam instalados na fuselagem central, com bocais voltados para baixo. Eles funcionariam apenas nas fases de decolagem e pouso vertical sobre a água.
O problema decisivo é que esses 12 motores nunca foram entregues. O protótipo que voou entre 1972 e 1975 operava apenas com os dois motores de cruzeiro, sem capacidade real de decolagem vertical e sem cumprir a proposta central do projeto.
Protótipo do VVA-14 voou 107 vezes sem testar sua função mais importante
O primeiro voo, em 4 de setembro de 1972, foi feito a partir de pista convencional. Sem os motores de sustentação vertical, o avião não tinha como decolar diretamente da água em modo VTOL.
Os testes seguintes avaliaram estabilidade, comportamento aerodinâmico, cruzeiro e operação anfíbia. Em 1974, pontones infláveis foram instalados nas extremidades das asas, mas causaram problemas de vazamento e estabilidade na água.

Em 11 de junho de 1975 começaram os testes de voo anfíbio, ainda em modo convencional, não vertical. O programa gerou dados úteis sobre voo muito baixo sobre a água, mas nunca testou a capacidade que justificava o projeto: decolar verticalmente do mar para caçar submarinos.
Efeito de solo do VVA-14 ajudou estudos que influenciaram ekranoplans soviéticos
Apesar do fracasso operacional, os testes do VVA-14 produziram informações relevantes sobre efeito de solo na Baía de Taganrog. Esses dados foram úteis para o desenvolvimento de veículos soviéticos que voavam rente à superfície do mar.
Entre eles estavam os ekranoplans, como o famoso Lun, uma máquina de 74 metros de comprimento e oito motores, criada para lançar mísseis antinavio e antissubmarino voando a poucos metros acima do oceano.
O VVA-14 não cumpriu sua missão militar, mas ajudou a expandir o conhecimento soviético sobre aeronaves de efeito de solo. Seu fracasso como avião antissubmarino não impediu que parte de sua pesquisa sobrevivesse em outros programas militares.
Militares soviéticos concluíram que o VVA-14 teria baixa eficiência antissubmarino
O especialista em aviação Yuri Sovenko, consultado pela CNN, afirmou que os militares soviéticos provavelmente perceberam cedo que a eficácia do VVA-14 como aeronave antissubmarino seria baixa. O avião poderia carregar poucos mísseis, e sua complexidade técnica era muito alta.
Além disso, a União Soviética já tinha alternativas mais convencionais, como o Beriev Be-12, o Ilyushin Il-38 e o Tupolev Tu-142. Essas aeronaves não eram tão futuristas, mas eram mais práticas, testadas e menos arriscadas.
O VVA-14 reunia ideias ousadas demais em uma única estrutura. Precisava ser anfíbio, VTOL, avião de cruzeiro, plataforma antissubmarino e veículo de efeito de solo, tudo ao mesmo tempo, em uma época em que a tecnologia necessária ainda não estava madura.
Morte de Robert Bartini acelerou o cancelamento do programa VVA-14
O cancelamento definitivo em 1976 teve três causas principais: a morte de Bartini, a não entrega dos motores de elevação vertical e a preferência dos militares por aeronaves antissubmarino convencionais.
Na burocracia soviética, projetos experimentais complexos dependiam de um defensor interno com autoridade técnica e política. Bartini era esse defensor, capaz de pressionar bureaus, justificar custos e manter o programa vivo apesar dos atrasos.
Com sua morte, o VVA-14 perdeu o único engenheiro que compreendia profundamente suas dimensões técnicas e tinha peso institucional para defendê-lo. Sem ele, a máquina deixou de ser prioridade e virou um protótipo caro sem função operacional clara.
Único Bartini Beriev VVA-14 sobrevivente foi abandonado no Museu de Monino
Após o cancelamento, o único exemplar sobrevivente foi transferido por barcaça de Taganrog para Lytkarino. Depois, foi deixado ao relento, parcialmente desmontado e danificado, antes de ser transportado de helicóptero até o Museu Central da Força Aérea, em Monino, nos arredores de Moscou.

Hoje, o VVA-14 permanece exposto com danos visíveis e sem restauração completa. O detalhe mais estranho é que o avião carrega marcas da Aeroflot, apesar de ter sido um projeto militar antissubmarino e jamais ter transportado passageiros civis.
A aeronave ficou conhecida pelo apelido Zmei Gorynich, referência ao dragão das lendas russas. No relento de Monino, ela parece menos um avião operacional e mais uma ruína tecnológica da Guerra Fria.
Bartini VVA-14 virou símbolo de engenharia soviética extrema e cultura pop
O legado do VVA-14 não ficou restrito à aviação. O avião aparece em Metal Gear Solid 3: Snake Eater, lançado pela Konami em 2004, como aeronave soviética de missão secreta.
Essa aparição expôs o design incomum da máquina a milhões de jogadores que talvez nunca tivessem ouvido falar de Robert Bartini, do efeito de solo ou da caçada soviética aos submarinos Polaris.
Para uma aeronave que nunca completou sua missão, nunca recebeu todos os motores e nunca entrou em serviço, é uma forma inesperada de permanência histórica. O VVA-14 fracassou como arma, mas sobreviveu como um dos projetos mais estranhos, ambiciosos e visualmente impressionantes da aviação soviética.

