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Cientistas testam se vida pôde viajar de Marte à Terra dentro de meteoritos

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 05/05/2026 às 11:18
Atualizado em 05/05/2026 às 11:21
Assista o vídeoCientistas testam se meteoritos transportaram vida de Marte à Terra. Bactéria sobrevive a impactos e ao espaço. Hipótese da panspermia ganha fôlego. Entenda.
Cientistas testam se meteoritos transportaram vida de Marte à Terra. Bactéria sobrevive a impactos e ao espaço. Hipótese da panspermia ganha fôlego. Entenda.
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Estudos da Johns Hopkins (PNAS Nexus, 2026) e da JAXA (Frontiers in Microbiology, 2020) mostram que a Deinococcus radiodurans sobrevive a pressões de impacto e a 3 anos no espaço, reforçando a hipótese da panspermia de que meteoritos possam ter transportado vida entre Marte e a Terra, sem comprovação definitiva.

A pergunta sobre se a vida na Terra pode ter chegado de outro planeta dentro de meteoritos atravessa séculos de filosofia e ciência, e desde 2020, quando a bactéria Deinococcus radiodurans sobreviveu a três anos no exterior da Estação Espacial no experimento Tanpopo da JAXA, ganhou fôlego renovado. A hipótese, conhecida como panspermia (do grego “pan” = todo + “sperma” = semente), propõe que microrganismos podem viajar pelo espaço dentro de meteoritos, suportando o impacto de ejeção planetária, o vácuo cósmico e a radiação durante a viagem, para então se estabelecer em outro mundo. O filósofo grego Anaxágoras sugeriu a ideia no século V antes de Cristo, o químico sueco Svante Arrhenius formalizou a versão científica em 1903, e os astrônomos Fred Hoyle e Chandra Wickramasinghe a desenvolveram no século XX, mas apesar de cada vez mais plausível do ponto de vista físico, a panspermia continua sendo hipótese: não há prova de que meteoritos tenham de fato transportado vida entre planetas.

A distinção entre plausibilidade e comprovação é o ponto que separa ciência rigorosa de manchetes sensacionalistas. A panspermia não explica a origem da vida: ela apenas transfere a pergunta de lugar, porque se a vida veio de Marte em meteoritos, a questão de como surgiu lá permanece sem resposta. O que os experimentos recentes fazem é demonstrar que o cenário é fisicamente possível, que microrganismos extremamente resistentes conseguem sobreviver às condições que meteoritos enfrentam na viagem entre planetas, e que portanto a hipótese não pode ser descartada por impossibilidade física, mas isso é muito diferente de provar que aconteceu.

A bactéria que sobrevive a tudo e que virou protagonista da pesquisa com meteoritos

Cientistas testam se meteoritos transportaram vida de Marte à Terra. Bactéria sobrevive a impactos e ao espaço. Hipótese da panspermia ganha fôlego. Entenda.

A Deinococcus radiodurans é o organismo que a ciência escolheu para testar os limites da sobrevivência em condições compatíveis com viagens em meteoritos. Apelidada de “Conan the Bacterium” e registrada no Guinness Book of World Records como o organismo mais resistente à radiação do planeta, essa bactéria suporta 3.000 vezes a quantidade de radiação que mataria um ser humano, sobrevive ao vácuo, resiste à desidratação extrema, tolera frio intenso e suporta acidez que destruiria a maioria dos organismos conhecidos. A descoberta da bactéria aconteceu de forma inesperada: foi isolada pela primeira vez em carnes enlatadas que haviam passado por radiação esterilizante e que mesmo assim continuavam contaminadas, revelando organismo que a ciência ainda tenta entender completamente.

O microbiologista Michael Daly, da Uniformed Services University of the Health Sciences, que estuda a Deinococcus radiodurans há mais de 30 anos, descreve a bactéria como organismo muito antigo que provavelmente existe há bilhões de anos e cuja resistência seria difícil de explicar pela exposição a radiação na Terra, já que nunca houve no planeta níveis de radiação ionizante próximos aos que ela suporta. Pesquisadores sugerem que a resistência à radiação pode ser efeito colateral da resistência à desidratação, hipótese proposta pela pesquisadora Valerie Mattimore da Louisiana State University, mas independentemente da origem dessa capacidade, a Deinococcus radiodurans é candidata perfeita para testar se meteoritos podem funcionar como veículos de transporte de vida entre planetas.

O que o experimento da JAXA na Estação Espacial provou sobre meteoritos e vida

Cientistas testam se meteoritos transportaram vida de Marte à Terra. Bactéria sobrevive a impactos e ao espaço. Hipótese da panspermia ganha fôlego. Entenda.

O experimento mais emblemático sobre a sobrevivência de microrganismos em condições espaciais compatíveis com viagens em meteoritos se chama Tanpopo, palavra japonesa para dente-de-leão. Liderado pelo professor Akihiko Yamagishi, biólogo molecular da Universidade de Farmácia e Ciências da Vida de Tóquio, o experimento colocou amostras de Deinococcus radiodurans em painéis externos da Estação Espacial Internacional, expostas diretamente ao vácuo cósmico, à radiação ultravioleta e às variações extremas de temperatura que meteoritos enfrentam no espaço. O resultado, publicado na revista científica Frontiers in Microbiology em agosto de 2020, demonstrou que a bactéria sobreviveu a três anos de exposição no exterior da estação espacial.

“Os resultados sugerem que a Deinococcus radiorresistente poderia sobreviver durante a viagem da Terra para Marte e vice-versa, que dura vários meses ou anos na órbita mais curta”, explicou Yamagishi após a publicação do estudo. Antes do experimento na ISS, em 2018, a equipe de Yamagishi encontrou Deinococcus flutuando naturalmente a cerca de 12 km de altitude na atmosfera terrestre, coletada por meio de aviões e balões científicos, descoberta que indicou que a bactéria já habita camadas atmosféricas próximas do limite onde meteoritos começam a se desintegrar na entrada. A combinação entre sobrevivência no espaço e presença natural na alta atmosfera tornou a Deinococcus modelo ideal para avaliar se meteoritos podem funcionar como cápsulas biológicas interplanetárias.

O que o estudo da Johns Hopkins de 2026 acrescentou ao debate sobre meteoritos

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O estudo mais recente que reforça a viabilidade física da panspermia foi publicado na revista PNAS Nexus em 2026. Liderado por Lily Zhao, estudante de pós-graduação da Johns Hopkins University, o experimento testou se a Deinococcus radiodurans sobrevive às pressões de choque geradas quando meteoritos são ejetados de um planeta por impacto de asteroide, condição que simula o momento em que um fragmento de Marte é arremessado ao espaço após colisão violenta. O resultado mostrou que a bactéria sobreviveu a pressões de até 3 gigapascais (GPa), valor próximo aos 5 GPa que impactos reais podem gerar em Marte.

A sobrevivência a 3 GPa é dado significativo porque nem toda rocha dentro de meteoritos ejetados experimenta o pico máximo de pressão. Fragmentos na periferia da zona de impacto sofrem pressões menores, e se bactérias conseguem resistir a 3 GPa, é fisicamente plausível que tenham sobrevivido em meteoritos ejetados de Marte onde a pressão local não atingiu o máximo. Pesquisadores do mesmo grupo alertaram que o estudo também levanta preocupação com proteção planetária reversa: se bactérias terrestres sobrevivem a essas condições, espaçonaves que enviarmos a outros mundos podem contaminar ambientes extraterrestres com vida da Terra, risco que missões futuras precisam considerar seriamente.

O caso do meteorito ALH84001 e por que ele divide cientistas até hoje

O meteorito mais famoso da história da panspermia foi encontrado na Antártida em 1984 e recebeu o código ALH84001. Análises confirmaram que a rocha veio de Marte, ejetada de lá há aproximadamente 15 milhões de anos por impacto de asteroide, e em agosto de 1996 o cientista da NASA David McKay publicou estudo na revista Science sugerindo que estruturas microscópicas encontradas no meteorito poderiam ser microfósseis de vida marciana. O anúncio teve repercussão tão grande que o presidente dos Estados Unidos na época, Bill Clinton, fez pronunciamento oficial sobre o tema.

A interpretação de McKay foi contestada nos anos seguintes pela maioria da comunidade científica. Pesquisadores demonstraram que as estruturas encontradas no meteorito poderiam ter origem abiótica, ou seja, formação natural sem envolvimento de organismos vivos, e o consenso atual é de que o ALH84001 não constitui prova de vida marciana. O meteorito reabriu, porém, o debate sobre a possibilidade de que Marte tenha abrigado vida em algum momento do seu passado, e a presença de moléculas orgânicas em meteoritos marcianos continua sendo objeto de pesquisa ativa que alimenta a discussão sobre panspermia.

Por que a hipótese dos meteoritos como veículos de vida ainda não foi comprovada

Apesar dos avanços experimentais, a panspermia enfrenta obstáculos científicos que impedem sua validação. O tempo estimado para um meteorito ejetado de Marte alcançar a Terra na trajetória mais curta é de cerca de 10 mil anos, período em que a radiação cósmica acumulada, a ausência de nutrientes e o frio do espaço profundo representam desafios para a sobrevivência de qualquer organismo, mesmo os mais resistentes. Além disso, a Deinococcus radiodurans compartilha estrutura genética e bioquímica com outros organismos terrestres, semelhança que sugere origem evolutiva na Terra e enfraquece a hipótese de que ela teria vindo de meteoritos marcianos.

Até o momento, nenhum organismo extraterrestre foi detectado em qualquer meteorito analisado na Terra. Toda a discussão sobre panspermia permanece no campo teórico e laboratorial, e o que os experimentos demonstram é plausibilidade física, não ocorrência histórica. Como costuma acontecer com as grandes perguntas da ciência, a resposta definitiva dependerá de evidências que ainda não existem: talvez uma amostra de solo marciano coletada por missão futura, talvez um meteorito recém-caído com assinatura biológica inequívoca. Até lá, a origem da vida na Terra continua como um dos mistérios mais fascinantes que a ciência persegue, e os meteoritos permanecem como candidatos a mensageiros de uma resposta que pode estar literalmente caindo do céu.

E você, acha possível que a vida na Terra tenha chegado de Marte em meteoritos? Ou prefere acreditar que surgimos aqui mesmo? Deixe sua opinião nos comentários.

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