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Startup japonesa desenvolve drone descartável feito de papelão por cerca de US$ 2 mil que pode ser embarcado desmontado em pacotes planos, com 500 unidades por contêiner, e já é usado pela Marinha do Japão como alvo aéreo em treinamentos militares

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 05/05/2026 às 10:24
Atualizado em 05/05/2026 às 10:27
Startup japonesa AirKamuy criou drone de papelão por US$ 2 mil. Monta em minutos, cabe 500 por contêiner e já é usado pela Marinha do Japão. Entenda.
Startup japonesa AirKamuy criou drone de papelão por US$ 2 mil. Monta em minutos, cabe 500 por contêiner e já é usado pela Marinha do Japão. Entenda.
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A AirKamuy, startup de Nagoya no Japão, desenvolveu o drone descartável AirKamuy 150 com papelão impermeabilizado ao custo de US$ 2 mil a US$ 2,5 mil, autonomia de até 2 horas a 120 km/h, montagem em 5 a 10 minutos e 500 unidades por contêiner, já utilizado pela Marinha japonesa.

A startup japonesa AirKamuy, sediada em Nagoya, criou um drone militar que custa menos do que muitos notebooks e é fabricado com material que qualquer fábrica de embalagens produz. O drone AirKamuy 150 tem estrutura de papelão corrugado com revestimento impermeável e resinas biodegradáveis, é entregue desmontado em pacotes planos que permitem embarcar 500 unidades em um único contêiner padrão, e pode ser montado em 5 a 10 minutos sem ferramentas especiais, combinação que faz do drone japonês em 2026 resposta prática à lição mais clara da guerra na Ucrânia: na guerra moderna, quantidade e custo baixo vencem sofisticação e preço alto. “Há forte demanda por drones de baixo custo capazes de operar em grandes números e por longas distâncias. Este modelo pode ser fabricado em qualquer planta de papelão, garantindo alta capacidade de produção em massa e uma cadeia de suprimentos robusta”, afirmou Yamaguchi Takumi, CEO da AirKamuy, em entrevista à emissora pública japonesa NHK World-Japan.

O drone já saiu do estágio de protótipo e está em uso operacional. A Marinha do Japão (Japan Maritime Self-Defense Force) utiliza o drone AirKamuy 150 como alvo aéreo em treinamentos militares, aplicação confirmada pelo ministro da Defesa Shinjirō Koizumi em postagem na rede X onde declarou que reforçar a colaboração com startups de defesa é “indispensável” para tornar as Forças de Autodefesa japonesas “as que mais usam ativos não tripulados, incluindo drones, do mundo”. O custo unitário de US$ 2 mil a US$ 2,5 mil posiciona o drone japonês numa faixa de preço que torna cada unidade perdida em treinamento ou combate irrelevante financeiramente, lógica que inverte a equação tradicional da indústria militar onde perder um equipamento representa prejuízo de milhões.

O que o drone AirKamuy 150 faz e por que ele não é um “drone kamikaze”

Startup japonesa AirKamuy criou drone de papelão por US$ 2 mil. Monta em minutos, cabe 500 por contêiner e já é usado pela Marinha do Japão. Entenda.

A classificação do AirKamuy 150 como “drone kamikaze” que circula em algumas publicações é simplificação que distorce o propósito real do equipamento. Segundo o engenheiro-chefe da AirKamuy, Naoki Morita, em apresentação no Singapore Airshow 2026, o drone foi concebido principalmente como alvo aéreo para treinamento, sistema antidrone capaz de operar em enxames, plataforma de reconhecimento com baixa assinatura de radar e ferramenta de saturação de defesas aéreas que força radares inimigos a se ativarem e absorve fogo defensivo antes que ativos mais valiosos entrem em ação. O drone pode carregar pequena munição ou equipamento de guerra eletrônica em missões sem retorno, mas essa é aplicação secundária e não o foco do projeto.

A diferença entre o drone AirKamuy e modelos como os Shahed iranianos é fundamental para entender a estratégia japonesa. O Shahed é drone de ataque projetado para carregar carga explosiva significativa e destruir alvos específicos a custo de US$ 20 mil a US$ 50 mil por unidade, enquanto o drone japonês de papelão aposta em volume: 500 unidades por contêiner significa que pelo preço de dois Shahed a Marinha do Japão pode lançar enxame de dezenas de drones que saturam defesas inimigas, forçam ativação de sistemas de detecção e criam janela de oportunidade para ataques com equipamentos mais sofisticados. O drone de papelão não precisa destruir: precisa existir em quantidade suficiente para que o adversário não consiga interceptar todos.

Quais são as especificações técnicas do drone de papelão japonês

Startup japonesa AirKamuy criou drone de papelão por US$ 2 mil. Monta em minutos, cabe 500 por contêiner e já é usado pela Marinha do Japão. Entenda.

Os números do AirKamuy 150 revelam equipamento que combina simplicidade de material com desempenho operacional relevante. O drone voa a velocidade máxima de aproximadamente 120 km/h com autonomia que varia de 80 minutos a 2 horas dependendo da configuração de carga, alcança distância de cerca de 80 km e suporta carga útil de aproximadamente 1,4 kg (3 libras), capacidade suficiente para transportar câmeras de reconhecimento, sensores de guerra eletrônica ou pequenas cargas em missões descartáveis. O motor elétrico que equipa o drone contribui para assinatura acústica reduzida e elimina a dependência de combustíveis líquidos, vantagem logística em cenários de operação remota.

A estrutura de papelão corrugado com revestimento impermeável confere ao drone características que materiais tradicionais não oferecem ao mesmo preço. A baixa refletividade do papelão reduz a assinatura de radar do drone, dificultando detecção por sistemas de defesa aérea projetados para identificar superfícies metálicas ou compostos de fibra de carbono, e as resinas biodegradáveis utilizadas no tratamento da estrutura significam que unidades perdidas ou destruídas se degradam naturalmente sem gerar acúmulo de detritos tecnológicos. A comparação com o custo de interceptação é onde o drone japonês se torna economicamente devastador: um míssil AIM-9X usado por forças ocidentais para derrubar drones custa aproximadamente US$ 1 milhão, quinhentas vezes o preço do alvo que destrói.

Por que o Japão está investindo em drones descartáveis após décadas de pacifismo

A aposta do Japão em tecnologia militar como o drone de papelão representa ruptura histórica que tem raízes na transformação geopolítica da Ásia-Pacífico. O país mantém constituição pacifista desde 1947 (Artigo 9), e por décadas a indústria de defesa foi tratada como tabu entre investidores japoneses, realidade que a própria AirKamuy enfrentou: dois terços dos fundos de capital de risco contatados pela startup recusaram investir por restrições internas ao setor de defesa. Ainda assim, a empresa levantou 100 milhões de ienes (aproximadamente US$ 650 mil) em rodada pre-seed em maio de 2025 com participação dos fundos ANOBAKA, Sparkle Fund e STATION Ai Central Japan Fund.

O orçamento de defesa japonês para 2026 sinaliza a escala da transformação em curso. O Japão destinou cerca de US$ 60 bilhões (9 trilhões de ienes) para defesa em 2026, com US$ 1,9 bilhão especificamente para drones e sistemas não tripulados, investimento que alimenta o programa SHIELD (Synchronized, Hybrid, Integrated and Enhanced Littoral Defense), rede de defesa costeira em camadas que integra drones de ataque, navios e submarinos não tripulados para bloquear acesso inimigo ao território japonês. O drone de papelão da AirKamuy é peça dentro de estratégia que mira a China e a Coreia do Norte como ameaças regionais crescentes, contexto que acelera a disposição política e empresarial de um país que por 75 anos evitou investir em armamento ofensivo.

Quem mais está fabricando drones baratos para a mesma finalidade

A AirKamuy não está sozinha na corrida por drones descartáveis de baixo custo. A Coreia do Sul adotou em 2024 o PapyDrone-800, também fabricado com papelão, e outra startup japonesa chamada JISDA lançou em abril de 2026 o ACM-01 Shiraha, drone com fuselagem de madeira e custo unitário de apenas US$ 450, preço que faz do AirKamuy parecer caro em comparação. A Ucrânia desenvolve modelos próprios incluindo drones impressos em 3D por US$ 1 mil, e os Estados Unidos trabalham no drone Lucas com custo estimado de US$ 10 mil, posição intermediária entre os descartáveis asiáticos e os equipamentos militares convencionais ocidentais.

A AirKamuy também expande além do modelo de papelão. A empresa desenvolve o Σ-1 (Sigma-1), drone VTOL com autonomia superior a 5 horas capaz de decolar verticalmente de navios, plataforma com uso dual civil e militar que serve para inspeção de infraestrutura, resposta a desastres naturais e busca e salvamento em regiões atingidas por terremotos e tsunamis, eventos frequentes no Japão. Segundo reportagem da publicação alemã Militär Aktuell, a Ucrânia também receberá unidades do drone AirKamuy, informação que conecta o produto japonês diretamente ao conflito que inspirou sua criação e que testará o desempenho do papelão em condições reais de combate.

E você, acha que drones de papelão podem mudar a guerra moderna? O Brasil deveria investir em tecnologia semelhante? Deixe sua opinião nos comentários.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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