A AirKamuy, startup de Nagoya no Japão, desenvolveu o drone descartável AirKamuy 150 com papelão impermeabilizado ao custo de US$ 2 mil a US$ 2,5 mil, autonomia de até 2 horas a 120 km/h, montagem em 5 a 10 minutos e 500 unidades por contêiner, já utilizado pela Marinha japonesa.
A startup japonesa AirKamuy, sediada em Nagoya, criou um drone militar que custa menos do que muitos notebooks e é fabricado com material que qualquer fábrica de embalagens produz. O drone AirKamuy 150 tem estrutura de papelão corrugado com revestimento impermeável e resinas biodegradáveis, é entregue desmontado em pacotes planos que permitem embarcar 500 unidades em um único contêiner padrão, e pode ser montado em 5 a 10 minutos sem ferramentas especiais, combinação que faz do drone japonês em 2026 resposta prática à lição mais clara da guerra na Ucrânia: na guerra moderna, quantidade e custo baixo vencem sofisticação e preço alto. “Há forte demanda por drones de baixo custo capazes de operar em grandes números e por longas distâncias. Este modelo pode ser fabricado em qualquer planta de papelão, garantindo alta capacidade de produção em massa e uma cadeia de suprimentos robusta”, afirmou Yamaguchi Takumi, CEO da AirKamuy, em entrevista à emissora pública japonesa NHK World-Japan.
O drone já saiu do estágio de protótipo e está em uso operacional. A Marinha do Japão (Japan Maritime Self-Defense Force) utiliza o drone AirKamuy 150 como alvo aéreo em treinamentos militares, aplicação confirmada pelo ministro da Defesa Shinjirō Koizumi em postagem na rede X onde declarou que reforçar a colaboração com startups de defesa é “indispensável” para tornar as Forças de Autodefesa japonesas “as que mais usam ativos não tripulados, incluindo drones, do mundo”. O custo unitário de US$ 2 mil a US$ 2,5 mil posiciona o drone japonês numa faixa de preço que torna cada unidade perdida em treinamento ou combate irrelevante financeiramente, lógica que inverte a equação tradicional da indústria militar onde perder um equipamento representa prejuízo de milhões.
O que o drone AirKamuy 150 faz e por que ele não é um “drone kamikaze”

A classificação do AirKamuy 150 como “drone kamikaze” que circula em algumas publicações é simplificação que distorce o propósito real do equipamento. Segundo o engenheiro-chefe da AirKamuy, Naoki Morita, em apresentação no Singapore Airshow 2026, o drone foi concebido principalmente como alvo aéreo para treinamento, sistema antidrone capaz de operar em enxames, plataforma de reconhecimento com baixa assinatura de radar e ferramenta de saturação de defesas aéreas que força radares inimigos a se ativarem e absorve fogo defensivo antes que ativos mais valiosos entrem em ação. O drone pode carregar pequena munição ou equipamento de guerra eletrônica em missões sem retorno, mas essa é aplicação secundária e não o foco do projeto.
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A diferença entre o drone AirKamuy e modelos como os Shahed iranianos é fundamental para entender a estratégia japonesa. O Shahed é drone de ataque projetado para carregar carga explosiva significativa e destruir alvos específicos a custo de US$ 20 mil a US$ 50 mil por unidade, enquanto o drone japonês de papelão aposta em volume: 500 unidades por contêiner significa que pelo preço de dois Shahed a Marinha do Japão pode lançar enxame de dezenas de drones que saturam defesas inimigas, forçam ativação de sistemas de detecção e criam janela de oportunidade para ataques com equipamentos mais sofisticados. O drone de papelão não precisa destruir: precisa existir em quantidade suficiente para que o adversário não consiga interceptar todos.
Quais são as especificações técnicas do drone de papelão japonês

Os números do AirKamuy 150 revelam equipamento que combina simplicidade de material com desempenho operacional relevante. O drone voa a velocidade máxima de aproximadamente 120 km/h com autonomia que varia de 80 minutos a 2 horas dependendo da configuração de carga, alcança distância de cerca de 80 km e suporta carga útil de aproximadamente 1,4 kg (3 libras), capacidade suficiente para transportar câmeras de reconhecimento, sensores de guerra eletrônica ou pequenas cargas em missões descartáveis. O motor elétrico que equipa o drone contribui para assinatura acústica reduzida e elimina a dependência de combustíveis líquidos, vantagem logística em cenários de operação remota.
A estrutura de papelão corrugado com revestimento impermeável confere ao drone características que materiais tradicionais não oferecem ao mesmo preço. A baixa refletividade do papelão reduz a assinatura de radar do drone, dificultando detecção por sistemas de defesa aérea projetados para identificar superfícies metálicas ou compostos de fibra de carbono, e as resinas biodegradáveis utilizadas no tratamento da estrutura significam que unidades perdidas ou destruídas se degradam naturalmente sem gerar acúmulo de detritos tecnológicos. A comparação com o custo de interceptação é onde o drone japonês se torna economicamente devastador: um míssil AIM-9X usado por forças ocidentais para derrubar drones custa aproximadamente US$ 1 milhão, quinhentas vezes o preço do alvo que destrói.
Por que o Japão está investindo em drones descartáveis após décadas de pacifismo
A aposta do Japão em tecnologia militar como o drone de papelão representa ruptura histórica que tem raízes na transformação geopolítica da Ásia-Pacífico. O país mantém constituição pacifista desde 1947 (Artigo 9), e por décadas a indústria de defesa foi tratada como tabu entre investidores japoneses, realidade que a própria AirKamuy enfrentou: dois terços dos fundos de capital de risco contatados pela startup recusaram investir por restrições internas ao setor de defesa. Ainda assim, a empresa levantou 100 milhões de ienes (aproximadamente US$ 650 mil) em rodada pre-seed em maio de 2025 com participação dos fundos ANOBAKA, Sparkle Fund e STATION Ai Central Japan Fund.
O orçamento de defesa japonês para 2026 sinaliza a escala da transformação em curso. O Japão destinou cerca de US$ 60 bilhões (9 trilhões de ienes) para defesa em 2026, com US$ 1,9 bilhão especificamente para drones e sistemas não tripulados, investimento que alimenta o programa SHIELD (Synchronized, Hybrid, Integrated and Enhanced Littoral Defense), rede de defesa costeira em camadas que integra drones de ataque, navios e submarinos não tripulados para bloquear acesso inimigo ao território japonês. O drone de papelão da AirKamuy é peça dentro de estratégia que mira a China e a Coreia do Norte como ameaças regionais crescentes, contexto que acelera a disposição política e empresarial de um país que por 75 anos evitou investir em armamento ofensivo.
Quem mais está fabricando drones baratos para a mesma finalidade
A AirKamuy não está sozinha na corrida por drones descartáveis de baixo custo. A Coreia do Sul adotou em 2024 o PapyDrone-800, também fabricado com papelão, e outra startup japonesa chamada JISDA lançou em abril de 2026 o ACM-01 Shiraha, drone com fuselagem de madeira e custo unitário de apenas US$ 450, preço que faz do AirKamuy parecer caro em comparação. A Ucrânia desenvolve modelos próprios incluindo drones impressos em 3D por US$ 1 mil, e os Estados Unidos trabalham no drone Lucas com custo estimado de US$ 10 mil, posição intermediária entre os descartáveis asiáticos e os equipamentos militares convencionais ocidentais.
A AirKamuy também expande além do modelo de papelão. A empresa desenvolve o Σ-1 (Sigma-1), drone VTOL com autonomia superior a 5 horas capaz de decolar verticalmente de navios, plataforma com uso dual civil e militar que serve para inspeção de infraestrutura, resposta a desastres naturais e busca e salvamento em regiões atingidas por terremotos e tsunamis, eventos frequentes no Japão. Segundo reportagem da publicação alemã Militär Aktuell, a Ucrânia também receberá unidades do drone AirKamuy, informação que conecta o produto japonês diretamente ao conflito que inspirou sua criação e que testará o desempenho do papelão em condições reais de combate.
E você, acha que drones de papelão podem mudar a guerra moderna? O Brasil deveria investir em tecnologia semelhante? Deixe sua opinião nos comentários.

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