Publicado na revista Science, o estudo analisou mais de 16 mil amostras de solo e revelou uma rede que equivale a quase um bilhão de viagens entre a Terra e o Sol. Os fungos subterrâneos guardam carbono, sustentam 70% das plantas e estão ameaçados pela agricultura.
Cientistas mapearam pela primeira vez a maior rede biológica do planeta, formada por fungos subterrâneos que se estendem por cerca de 110 quatrilhões de quilômetros e transportam cerca de 4 bilhões de toneladas de CO2 para o solo todos os anos. Debaixo de florestas, campos, desertos e até das cidades, essa infraestrutura invisível conecta plantas, transporta nutrientes e ajuda a combater as mudanças climáticas.
A descoberta veio de um trabalho que reuniu dados do mundo todo. Segundo o estudo, publicado na revista Science divulgado em junho de 2026, os fungos micorrízicos arbusculares, que vivem associados às raízes das plantas, formam uma rede global cuja extensão equivale a quase um bilhão de vezes a distância entre a Terra e o Sol. Para chegar a esse número, os pesquisadores analisaram mais de 16 mil amostras de solo com ajuda de inteligência artificial e modelos ecológicos, e descobriram que essas estruturas têm papel crucial na captura e no armazenamento de carbono. Os valores são estimativas do estudo, e os autores ressaltam que ainda há muito a descobrir.
O que são os fungos subterrâneos sob nossos pés

(Crédito da imagem: Society for the Protection of Underground Networks (SPUN) / Moritz Stefaner – Truth & Beauty / Justin Stewart – SPUN)
Os protagonistas da descoberta são os fungos micorrízicos arbusculares, conhecidos pela sigla AM. Esse tipo de fungos subterrâneos estabelece uma relação de cooperação com aproximadamente 70% das espécies vegetais existentes na Terra, em uma parceria silenciosa que sustenta boa parte da vegetação do planeta.
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Nessa troca, cada lado oferece o que tem de melhor. As plantas fornecem aos fungos açúcares produzidos pela fotossíntese e, em contrapartida, os fungos ampliam a capacidade das raízes de absorver água e nutrientes essenciais, como fósforo e nitrogênio. Segundo os pesquisadores, essa parceria existe há centenas de milhões de anos e foi fundamental para a expansão da vida vegetal em ambientes terrestres.
A maior rede biológica já mapeada

(Crédito da imagem: Corentin Bisot – VU Amsterdã, AMOLF Justin Stewart – SPUN)
Medir uma estrutura escondida no subsolo exigiu uma combinação de tecnologias. Para estimar a dimensão dessa infraestrutura, os cientistas analisaram mais de 16 mil amostras de solo coletadas em diferentes partes do mundo e, com auxílio de inteligência artificial, imagens robóticas e modelos ecológicos, conseguiram prever a densidade dessas redes de fungos subterrâneos mesmo em regiões sem medições diretas.
Os resultados impressionam pela escala. São cerca de 110 quatrilhões de quilômetros de hifas, os filamentos fúngicos espalhados pelo planeta, aproximadamente 300 megatons de carbono armazenados na biomassa desses fungos e um transporte anual de cerca de 4 bilhões de toneladas de dióxido de carbono para o solo. Para dar uma ideia de tamanho, os autores apontam que uma simples colher de chá de terra saudável pode conter até 10 metros dessas estruturas microscópicas.
O sistema circulatório oculto da Terra
Para explicar o que descobriram, os pesquisadores recorrem a uma imagem do corpo humano. Eles descrevem as redes micorrízicas como uma espécie de sistema circulatório do planeta: assim como as veias distribuem nutrientes pelo corpo, esses fungos subterrâneos transportam água, carbono e minerais entre as plantas e o solo.
O alcance dessa rede é o que mais surpreende. Em alguns casos, os fungos conseguem aumentar em até 100 vezes a área de exploração das raízes, permitindo que as plantas encontrem recursos mesmo em ambientes pobres em nutrientes. Para os autores do estudo, o tamanho do achado é difícil de exagerar:
“O que estamos vendo é uma infraestrutura viva em escala planetária.”
O papel dos fungos no combate às mudanças climáticas
Uma das descobertas mais relevantes envolve o ciclo global do carbono. Os cientistas estimam que essas redes de fungos subterrâneos movimentem cerca de 4 bilhões de toneladas de CO2 equivalente para o solo todos os anos, valor que corresponde a aproximadamente 11% das emissões globais de carbono geradas pelas atividades humanas.
Ao guardar parte desse carbono debaixo da superfície, os fungos aliviam a atmosfera. O processo ajuda a reduzir a quantidade de gases de efeito estufa presentes no ar e, por isso, especialistas defendem que esses organismos passem a ser considerados em estratégias de conservação ambiental e em políticas climáticas, ao lado de medidas mais visíveis, como o corte de emissões.
A agricultura ameaça a infraestrutura subterrânea
O estudo também acendeu um sinal de alerta. Áreas agrícolas apresentam, em média, densidades de fungos subterrâneos cerca de 50% menores do que ecossistemas naturais, como campos e florestas, o que indica que o modo como se cultiva a terra interfere diretamente nessa rede.
As consequências dessa perda vão além do solo empobrecido. Os pesquisadores alertam que a degradação dessas comunidades pode comprometer a fertilidade do solo, reduzir a capacidade de armazenamento de carbono e tornar os ecossistemas mais vulneráveis a secas e a eventos climáticos extremos. As pradarias, por exemplo, concentram aproximadamente 40% de toda a biomassa de fungos micorrízicos do planeta, mas seguem entre os ecossistemas menos protegidos do mundo.
Publicado na revista Science, o estudo mapeou a maior rede biológica do planeta, uma teia oculta de fungos subterrâneos que se estende por cerca de 110 quatrilhões de quilômetros, guarda carbono e sustenta perto de 70% das espécies vegetais, levando cerca de 4 bilhões de toneladas de CO2 ao solo a cada ano, o equivalente a aproximadamente 11% das emissões humanas.
Descrita pelos pesquisadores como um sistema circulatório da Terra, essa infraestrutura é ameaçada pela agricultura, que reduz as redes pela metade, e os autores ressaltam que o conhecimento sobre ela ainda está apenas começando, com boa parte do planeta sem amostragem e uma escala real possivelmente ainda maior.
Compreender essa rede, defendem, será essencial para enfrentar desafios como a segurança alimentar, a degradação dos solos e as mudanças climáticas no século XXI, já que esses fungos moldaram a vida na Terra e seguem decisivos para o funcionamento do planeta.
E você, o que achou dessa rede escondida debaixo dos nossos pés? Imaginava que os fungos pudessem guardar tanto carbono e sustentar tantas plantas? Comente a sua opinião e troque ideias com outros leitores sobre ciência e meio ambiente.

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