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Engenharia de ponta transforma pedreira abandonada de 88 metros de profundidade em um ‘arranha-terra’ de luxo na China com andares submersos e energia geotérmica

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 15/06/2026 às 14:48
Atualizado em 15/06/2026 às 14:50
A China construiu um hotel de luxo dentro de uma pedreira abandonada de 88 m em Xangai. Com quartos submersos e US$ 555 mi investidos, o projeto abriu em novembro de 2018.
A China construiu um hotel de luxo dentro de uma pedreira abandonada de 88 m em Xangai. Com quartos submersos e US$ 555 mi investidos, o projeto abriu em novembro de 2018.
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No distrito de Songjiang, a 50 quilômetros do centro de Xangai, a China construiu o InterContinental Shanghai Wonderland dentro de uma pedreira abandonada de 88 metros de profundidade. O hotel tem 18 andares, 16 deles abaixo do nível do solo, dois dos quais completamente submersos. Abriu em novembro de 2018 após um investimento de US$ 555 milhões.

Quando se pensa num hotel cinco estrelas, a imagem habitual é de uma torre de vidro e aço que domina a linha do horizonte. O InterContinental Shanghai Wonderland faz o oposto. Inaugurado em 20 de novembro de 2018 no distrito de Songjiang, em Xangai, na China, o empreendimento foi erguido dentro de uma cratera: uma pedreira abandonada de 88 metros de profundidade que o Shimao Property Group decidiu transformar num dos projetos arquitetônicos mais incomuns do país. São 18 andares no total, sendo que 16 ficam abaixo do nível natural do terreno.

O investimento declarado pelo grupo desenvolvedor foi de US$ 555 milhões, segundo o InterContinental. Dois dos andares subterrâneos ficam completamente abaixo da lâmina d’água que preenche parcialmente a antiga pedreira, formando um lago artificial que circunda a estrutura do hotel. Nesses andares submersos há quartos com vista para um aquário de cinco metros de profundidade e um restaurante inteiramente envolto por água. A China não construiu um arranha-céu. Construiu o oposto: um arranha-terra.

Uma pedreira esquecida no meio de Songjiang

A China construiu um hotel de luxo dentro de uma pedreira abandonada de 88 m em Xangai. Com quartos submersos e US$ 555 mi investidos, o projeto abriu em novembro de 2018.
InterContinental Shanghai Wonderland

O local tem uma história que precede o hotel em décadas.

A pedreira de Tianma, no distrito de Songjiang, foi explorada durante anos para extração de rocha e depois simplesmente abandonada, deixando uma cratera profunda de 88 metros no meio da paisagem.

Esse tipo de vazio geológico é um problema comum em regiões com histórico de mineração: custa caro para recuperar, não serve para construção convencional e fica inutilizado por tempo indeterminado.

A China tem inúmeras pedreiras nessa situação espalhadas pelo interior do país.

O que mudou em Songjiang foi a decisão do Shimao Property Group de enxergar a profundidade como ativo, não como obstáculo.

Em vez de aterrar a cratera ou cercá-la com tapumes, o grupo contratou escritórios de arquitetura para desenvolver um projeto que aproveitasse os 88 metros de profundidade como elemento central da experiência do hotel. 

A pedreira abandonada virou o terreno e a paisagem ao mesmo tempo. 

A rocha exposta nas paredes da cratera passou a ser parte da estética do empreendimento, não um problema a ser escondido.

O projeto que demorou para sair do papel

A China construiu um hotel de luxo dentro de uma pedreira abandonada de 88 m em Xangai. Com quartos submersos e US$ 555 mi investidos, o projeto abriu em novembro de 2018.
InterContinental Shanghai Wonderland

A trajetória do InterContinental Shanghai Wonderland até a abertura foi marcada por atrasos prolongados.

O projeto foi finalista de um prêmio no World Architecture Festival ainda em 2009, quase uma década antes de abrir as portas.

Entre 2009 e 2013, a obra acumulou idas e vindas sem avanço significativo. A partir de 2013, o ritmo acelerou e as obras de acabamento foram concluídas em 2017, com a inauguração acontecendo no fim de novembro de 2018.

O conceito e o design de fachada foram criados pelo arquiteto Martin Jochman, que iniciou o trabalho enquanto atuava no escritório Atkins e, em 2013, fundou seu próprio estúdio, a JADE+QA, continuando o projeto diretamente para o Shimao Property Group.

O desenvolvimento técnico, a documentação construtiva, o projeto estrutural e os sistemas elétricos, hidráulicos e mecânicos ficaram a cargo do ECADI, o Instituto de Pesquisa e Design Arquitetônico da China Oriental. 

O design de interiores foi dividido entre os escritórios CCD e AB Concept, e a iluminação ficou com a consultoria Illuminate Lighting Design.

Como se constrói um hotel de cabeça para baixo

A China construiu um hotel de luxo dentro de uma pedreira abandonada de 88 m em Xangai. Com quartos submersos e US$ 555 mi investidos, o projeto abriu em novembro de 2018.
InterContinental Shanghai Wonderland

A forma do edifício em “S” foi escolhida para adaptar a estrutura ao contorno irregular da pedreira, alternando entre uma face convexa e uma côncava ao longo da fachada principal.

A visão dos arquitetos incluía jardins suspensos sequenciais projetados para criar o efeito de uma encosta verde descendo pela parede da cratera.

Tanto a rocha exposta da pedreira quanto os blocos de quartos foram planejados para circundar um átrio central vertical, revestido de vidro, que imita visualmente uma cachoeira artificial.

Esse átrio de vidro foi descrito pelo portal especializado New Atlas como a peça de resistência do projeto, o elemento visual que ancora a experiência de quem circula pelos corredores internos do hotel.

No topo da estrutura, ainda dentro da propriedade, há uma passarela de vidro posicionada a 87 metros acima do solo, projetada para fora da borda do penhasco. 

Quem cruza essa passarela tem sob os pés apenas vidro e, abaixo, a cratera inteira da pedreira com o lago e os andares do hotel visíveis lá embaixo.

Os andares submersos: quartos e restaurante debaixo d’água

A China construiu um hotel de luxo dentro de uma pedreira abandonada de 88 m em Xangai. Com quartos submersos e US$ 555 mi investidos, o projeto abriu em novembro de 2018.
InterContinental Shanghai Wonderland

Os dois andares abaixo do nível do lago são a parte mais singular do projeto.

O andar inferior abriga instalações técnicas e de infraestrutura do hotel, os chamados sistemas MEP de mecânica, elétrica e hidráulica.

O andar superior é onde ficam os quartos submersos e o restaurante com vista para dentro do aquário de cinco metros de profundidade. Hóspedes nesses quartos olham pela janela e veem água, rochas e peixes, não a cidade.

A ideia de hospedar pessoas abaixo da superfície da água num ambiente de alta qualidade impõe desafios de engenharia consideráveis: vedação estrutural contra pressão hidrostática, sistemas de iluminação específicos para a profundidade, controle de umidade e temperatura em condições úmidas contínuas.

O projeto não detalhou publicamente todas as soluções técnicas adotadas, mas o funcionamento do hotel desde novembro de 2018 indica que essas questões foram resolvidas de forma satisfatória. 

O preço dos quartos submersos partia de US$ 500 por noite na inauguração, com ajuste para cerca de US$ 360 em 2020, segundo informações disponíveis no site oficial do InterContinental.

337 quartos, mil pessoas em conferências e uma cachoeira de vidro

O InterContinental Shanghai Wonderland não é apenas uma curiosidade arquitetônica.

É um hotel de operação completa, com 337 quartos, espaço para conferências com capacidade para até mil pessoas, um grande salão de baile e restaurantes e cafés no nível térreo acima da cratera.

A gestão da propriedade ficou a cargo da InterContinental Hotels Group, um dos maiores grupos de hospitalidade do mundo, que utilizou o projeto como um de seus empreendimentos emblemáticos na China.

A combinação de hotel de luxo, experiência subaquática e cenário de pedreira é incomum o suficiente para que o projeto tenha gerado cobertura internacional desde antes de abrir.

Visitantes que chegam ao local encontram um complexo que inclui, além do hotel, o jardim botânico de Chenshan, o clube de campo de Tianmashan e acessos a montanhas próximas. 

O que era uma cratera abandonada virou um polo de turismo e hotelaria de alto padrão a menos de uma hora do centro de Xangai.

O que esse projeto diz sobre a engenharia chinesa atual

O InterContinental Shanghai Wonderland representa uma vertente específica da arquitetura e da engenharia civil que a China tem explorado com frequência crescente: transformar passivos ambientais em ativos econômicos de alto valor.

Pedreiras abandonadas, terrenos contaminados e topografias consideradas inviáveis para construção convencional viraram projetos de destaque em diferentes cidades chinesas nos últimos anos.

O modelo combina necessidade de uso do solo com apetite por inovação de imagem.

A escala do investimento em Songjiang, US$ 555 milhões segundo o New Atlas, mostra que esse tipo de aposta tem respaldo financeiro real no mercado imobiliário chinês.

O projeto levou quase uma década entre o conceito e a inauguração, com atrasos que refletem a complexidade técnica e burocrática de uma obra sem precedentes.

Mas o resultado físico existe e funciona. 

Num mundo onde terreno plano e de fácil acesso é cada vez mais escasso e caro, a ideia de construir para baixo em vez de para cima pode parecer excêntrica hoje e se tornar mais comum amanhã.

Transformar uma pedreira abandonada de 88 metros de profundidade num hotel com quartos debaixo d’água é um exemplo de engenharia criativa que o mundo deveria replicar ou é um projeto de ostentação que usa tecnologia cara para resolver um problema que ninguém tinha? Você dormia num quarto submerso? Deixe sua opinião nos comentários.

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Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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