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A Rússia ergueu o prédio mais alto da Europa sobre um solo mole como areia movediça, à beira do Golfo da Finlândia, com 264 estacas de 25 metros, 30 mil toneladas de aço e 16.500 painéis de vidro curvados um a um em São Petersburgo

Publicado em 20/06/2026 às 00:27
Atualizado em 20/06/2026 às 00:29
Assista o vídeoO Lakhta Center, prédio mais alto da Europa e sede da Gazprom, usou 30 mil toneladas de aço e 16.500 painéis de vidro curvados um a um em São Petersburgo.
O Lakhta Center, prédio mais alto da Europa e sede da Gazprom, usou 30 mil toneladas de aço e 16.500 painéis de vidro curvados um a um em São Petersburgo.
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Com 462 metros de altura, o Lakhta Center é a nova sede da Gazprom e gira quase 90 graus da base ao topo. Construído entre 2012 e 2018 por cerca de US$ 2 bilhões, o prédio mais alto da Europa exigiu fundações ancoradas a 25 metros de profundidade.

A Rússia ergueu o prédio mais alto da Europa, o Lakhta Center, sobre um solo mole como areia movediça, à beira do Golfo da Finlândia, em São Petersburgo, usando 264 estacas de 25 metros, 30 mil toneladas de aço e cerca de 16.500 painéis de vidro curvados um a um. Com 462 metros de altura, a torre não é apenas a mais alta da Rússia: é oficialmente a estrutura mais alta de todo o continente europeu.

Por trás da fachada de vidro está uma obra que precisou inventar soluções a cada etapa. O Lakhta Center é a nova sede mundial da Gazprom, a maior empresa de gás natural da Rússia, e foi construído entre 2012 e finalizado em dezembro de 2018, a um custo próximo de US$ 2 bilhões. Projetado por um arquiteto britânico Tony Kettle (pelo escritório RMJM), e posteriormente detalhado pela empresa russa Gorproject, o edifício gira quase 90 graus da base ao topo, em um formato inspirado nas velas dos navios do Báltico e na chama de uma queima de gás natural, e erguer a torre sobre o terreno instável de São Petersburgo exigiu fundações profundas e peças desenhadas uma a uma.

Uma torre torcida à beira do Golfo da Finlândia

 o prédio mais alto da Europa
© Slava Korolev/
O prédio mais alto da Europa
imagem: © Slava Korolev/

Segundo informações divulgadas pelo portal Idealista, erguer o prédio mais alto da Europa foi, desde o início, um desafio quase impossível. O terreno escolhido, à beira do Golfo da Finlândia, tem um solo mole que mais parece areia movediça, ventos vindos do mar que já derrubaram estruturas inteiras e um clima em que a temperatura despenca para 20 graus negativos por meses a fio.

imagem: skyscraper
imagem: skyscraper

Como se não bastasse, a torre não podia ser reta. Ela precisava girar 90 graus do chão até o topo, como se estivesse sendo torcida por uma mão invisível. Projetado por um arquiteto britânico, o Lakhta Center ganhou esse formato a partir de duas imagens, as velas dos navios que cruzam o Mar Báltico e a chama de uma queima de gás natural, uma inspiração nada casual, já que a torre é a nova sede mundial da Gazprom, a gigante russa do gás.

imagem: skyscraper
imagem: skyscraper

A batalha contra o solo instável

Antes de qualquer coluna subir, a verdadeira batalha estava escondida debaixo da terra. O solo de São Petersburgo é traiçoeiro, com camadas e camadas de terreno mole e instável, inadequado para suportar uma estrutura de mais de 460 metros, e as fundações do prédio mais alto da Europa tiveram de descer muito mais para encontrar apoio firme.

A solução foi cravar estacas até uma camada sólida no subsolo. Os engenheiros instalaram 264 estacas, perfurando o solo até atingir, a cerca de 25 metros de profundidade, uma camada geológica chamada argila vendiana, quase tão rígida quanto rocha sólida e capaz de funcionar como uma âncora natural para toda a edificação. Antes disso, foi erguida uma enorme parede diafragma de concreto armado, um escudo subterrâneo que impedia a água do mar de invadir a escavação, e o concreto foi bombeado para dentro das perfurações pelo método do tubo tremie, que o injeta direto no fundo do furo para evitar bolhas e falhas. Quando testadas, as estacas se mostraram duas vezes e meia mais resistentes do que o projeto previa.

Uma fundação que entrou para o Guinness

Sobre as estacas, nasceu uma das fundações mais robustas já feitas na Rússia. Os engenheiros construíram uma fundação em caixão gigantesca, cobrindo 5.600 m² e com 16,5 metros de altura, a base sobre a qual o prédio mais alto da Europa se apoiaria.

O coração dessa base bateu um recorde mundial. A estrutura é formada por uma laje superior, uma laje inferior e 10 paredes radiais de concreto, em um formato de duplo T que distribui o peso descomunal do núcleo central, e no centro está uma laje de base com 3,6 metros de espessura. A concretagem dessa laje entrou para o Guinness World Records como a maior concretagem contínua já feita para um prédio super alto, um feito que, no inverno russo, corria o risco de rachar pelo calor da cura, e por isso os engenheiros levantaram abrigos temporários gigantescos sobre a obra e instalaram sistemas de aquecimento para controlar a temperatura centímetro a centímetro.

Subir 462 metros com precisão milimétrica

Segundo o portal do lakhta, Com a fundação pronta, começava a parte que mais assustava os engenheiros. Era preciso subir mais de 460 metros em linha quase reta, em meio aos ventos do Báltico. O coração estrutural do prédio mais alto da Europa é o seu núcleo central de concreto, a coluna vertebral que sustenta tudo, erguida com um sistema de formas autoascendentes.

Em vez de desmontar e remontar as formas a cada andar, o sistema se erguia sozinho. Ele usava macacos hidráulicos guiados por trilhos fixados na estrutura já concretada e foi dividido em duas frentes independentes, uma ao norte e outra ao sul, para acelerar a obra, enquanto outras equipes instalavam as 15 colunas estruturais principais e as vigas de aço. Conforme a torre se aproximava dos 462 metros, a precisão virou uma questão de vida ou morte: um desvio de poucos milímetros nos andares baixos poderia deixar o topo deslocado vários metros, então os engenheiros montaram um sistema de monitoramento 24 horas por dia, com sensores de altíssima precisão e posicionamento via satélite.

A torção de 90 graus e o aço sob medida

Vista de cima, a planta do prédio mais alto da Europa tem o formato de uma estrela de cinco pontas. São essas pontas que giram lentamente em torno do eixo central, fazendo o edifício inteiro completar uma volta de quase 90 graus entre a base e o topo.

Para sustentar esse movimento, os projetistas abandonaram as colunas convencionais. Eles apostaram em colunas compostas, cada uma com um núcleo de aço estrutural envolto por armadura e concreto de altíssima resistência, a primeira vez que a tecnologia foi aplicada em escala tão grande na Rússia. Como cada andar tem uma geometria diferente do anterior, a maioria das peças de aço é única, desenhada individualmente para um único ponto exato, somando 189.000 componentes metálicos e 30.000 toneladas de aço.

A agulha e a maior fachada de vidro curvado a frio do mundo

A parte mais delicada de todas era o topo. A agulha do prédio mais alto da Europa foi erguida em torno do núcleo de concreto, e só a sua estrutura de aço pesa mais de 2.000 toneladas; montada previamente no solo, ela foi içada por guindastes gigantes a centenas de metros de altura, formando uma pirâmide afunilada com oito níveis principais, tubos de aço de até 1,5 metro de diâmetro e um elemento de 8 metros que marca o ponto mais alto.

16.500 Unidades de vidro curvado a frio, 70% das quais possuem formato único,
16.500 Unidades de vidro curvado a frio, 70% das quais possuem formato único,

Mas o que de fato diferencia a torre é a sua pele de vidro. A fachada é formada por cerca de 16.500 painéis de vidro curvados a frio, cada um com uma forma diferente, no maior sistema de fachada em vidro curvado a frio já aplicado em um edifício alto no mundo, com módulos de 4,2 metros de altura, 11 m² de área e quase 740 quilos cada.

© Slava Korolev
© Slava Korolev

Em vez de moldar as curvas com calor em fábrica, a maior parte da curvatura foi feita durante a instalação, dobrando o vidro suavemente dentro de molduras de alumínio no próprio canteiro para reduzir custos, e, por trás dessa camada externa, um sistema de pele dupla com um colchão de ar ajudou a economizar, segundo os engenheiros do projeto, cerca de 40% de energia em relação ao vidro convencional, em uma torre servida por 38 elevadores de alta velocidade.

imagem: © Slava Korolev
imagem: © Slava Korolev

Erguido a 462 metros sobre um solo mole como areia movediça, ventos do Báltico e frio extremo, o prédio mais alto da Europa, o Lakhta Center, se tornou uma torre de vidro torcida e a sede mundial da Gazprom, provando que um dos projetos super altos mais complexos do mundo podia ser construído em um dos climas mais hostis do planeta.

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Da fundação que entrou para o Guinness à maior fachada de vidro curvado a frio já feita, cada etapa marcou um avanço na construção moderna, e a torre transformou não só o horizonte secular de São Petersburgo, mas todo o entorno do bairro de Lakhta, com novas estradas, terminais de transporte e espaços públicos em uma área antes esquecida. Concluído em 2018, o edifício se firmou como um símbolo da ambição de modernização da Rússia no século XXI.

E você, o que acha? Prédios super altos como esse realmente representam o futuro das cidades modernas ou são, no fundo, apenas símbolos de poder e ambição nacional? Comente a sua opinião e troque ideias com outros leitores sobre engenharia e construção, com respeito às diferentes visões.

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Fonte
Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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