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Cientistas já cultivam algas que produzem três vezes mais biomassa que as convencionais e podem virar combustível para navios e aviões sem uma gota de petróleo, mas o setor energético não quer comprar o que ninguém ainda produz em escala e os produtores não querem ampliar sem comprador garantido

Publicado em 08/05/2026 às 02:40
Atualizado em 08/05/2026 às 02:42
Algas de Woods Hole podem substituir petróleo como combustível para navios e aviões. Mas produtores não ampliam sem comprador garantido.
Algas de Woods Hole podem substituir petróleo como combustível para navios e aviões. Mas produtores não ampliam sem comprador garantido.
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Segundo informações do APNEWS, Pesquisadores da Instituição Oceanográfica de Woods Hole, em Massachusetts (EUA), desenvolveram variedades de algas marinhas que produzem até três vezes mais biomassa que as cepas convencionais e podem ser transformadas em biocombustível para navios e aeronaves por meio de liquefação hidrotérmica, processo que usa calor e pressão sem petróleo. O problema é que o setor energético não investe sem demanda comprovada e os produtores não ampliam a produção sem comprador, criando um impasse circular que trava o desenvolvimento do setor há décadas.

Cientistas da Instituição Oceanográfica de Woods Hole já cultivam algas marinhas que produzem três vezes mais biomassa que as cepas convencionais e que podem ser transformadas em combustível para navios e aviões sem uma gota de petróleo. O biocombustível refinado a partir dessas algas usa um processo chamado liquefação hidrotérmica, que aplica calor e pressão ao material orgânico para produzir combustível líquido capaz de abastecer embarcações e aeronaves que hoje dependem exclusivamente de derivados fósseis.

O problema não é a tecnologia: é o mercado. Scott Lindell, cientista marinho de Woods Hole que liderou seis anos de pesquisa financiada pelo Departamento de Energia dos EUA, resume o impasse: as empresas de energia não investem em projetos de aquicultura em larga escala sem demanda comprovada, e os produtores de algas não ampliam a produção sem comprador garantido. O resultado é um ciclo que trava há décadas o desenvolvimento de uma fonte renovável que poderia substituir o querosene de aviação e o óleo combustível marítimo.

O que as algas de Woods Hole podem fazer e por que ninguém mais faz

A eletricidade gerada por solar e eólica pode abastecer carros, mas navios e aviões funcionam principalmente com combustíveis líquidos derivados do petróleo. Quando queimados, esses combustíveis emitem CO₂, e a aviação e o transporte marítimo respondem por parcela crescente das emissões globais de gases de efeito estufa. O biocombustível de algas marinhas é uma das poucas alternativas que pode substituir o petróleo nesses setores sem exigir redesenho completo dos motores.

Diferente do etanol de milho, que precisa de terras agrícolas, água doce e pesticidas, as algas marinhas podem ser cultivadas no oceano com recursos mínimos. O laboratório de Lindell em Woods Hole desenvolveu variedades com qualidades específicas para a produção de biocombustível, incluindo cepas incapazes de se reproduzir com algas selvagens, característica que evita contaminação genética em caso de cultivo em larga escala no mar aberto. São mais de 2.600 variedades coletadas em toda a Nova Inglaterra e mantidas sob condições controladas de luz e temperatura.

O programa MARINER e os seis anos de pesquisa que acabaram

Oliver Dixon colhe algas marinhas em Point Judith, Rhode Island, na sexta-feira, 20 de março de 2026

O trabalho de Lindell foi financiado pelo programa MARINER (Macroalgae Research Inspiring Novel Energy Resources), iniciativa do Departamento de Energia dos EUA lançada em 2016 para desenvolver ferramentas de produção de biocombustíveis à base de algas marinhas. O programa financiou projetos que iam desde o desenvolvimento de cepas resistentes ao calor até estudos de genomas, e os pesquisadores envolvidos afirmam ter obtido avanços concretos, como o aumento de até três vezes na produtividade da biomassa.

O financiamento do projeto de Lindell durou seis anos e terminou em 2024. Desde então, as oportunidades de financiamento federal para pesquisa têm sido mais escassas e atrasadas, cenário que reflete um padrão histórico: o interesse do governo americano em biocombustíveis oscila conforme o preço do petróleo. Uma iniciativa semelhante nos anos 1970 foi rapidamente encerrada quando os preços do petróleo se estabilizaram. Lindell observa que “não acho que as coisas tenham mudado desde a primeira crise do petróleo“.

O impasse circular que trava o setor há décadas

O problema central não é científico: é econômico. Empresas de energia hesitam em investir em projetos de aquicultura em larga escala sem demanda comprovada de biocombustível, e produtores de algas marinhas não ampliam a produção sem comprador garantido. Bren Smith, cofundador da GreenWave (organização sem fins lucrativos que apoia produtores de algas), argumenta que a questão é onde o cultivo faz sentido economicamente: hoje, algas marinhas são mais viáveis em cosméticos, alimentos e fertilizantes do que em combustível.

Smith é direto sobre o risco de repetir erros do passado: investir bilhões em pesquisa de algas focada exclusivamente em combustível enquanto existem dezenas de outros usos mais rentáveis no curto prazo. “Competir com a indústria mais tecnologicamente avançada e subsidiada do planeta, a indústria de combustíveis fósseis”, é desafio que nenhum produtor artesanal de algas consegue vencer sozinho. Sem subsídio governamental consistente ou regulação que force a adoção de biocombustíveis na aviação e no transporte marítimo, o mercado não se forma.

Os produtores que existem hoje e por que não conseguem crescer

Oliver Dixon cultiva algas marinhas em Point Judith, Rhode Island, para complementar seu negócio de ostras durante o inverno. Sua fazenda de 3,6 hectares produz cerca de 4.500 quilos por safra, vendidos principalmente para restaurantes e mercados de frutos do mar locais. A escala é centenas de vezes menor do que o necessário para produção de biocombustível, e sem demanda do setor energético, Dixon não tem planos de expansão.

A burocracia agrava o problema. Nos Estados Unidos, as águas costeiras são priorizadas para recreação, pesca e conservação, e obter licença para grandes projetos de aquicultura é processo demorado e incerto. Dixon sequer consegue manter a infraestrutura de sua fazenda na água durante o ano todo: é obrigado a remover linhas e âncoras na primavera e reinstalar no outono. Em contraste, países asiáticos priorizam extensas fazendas de algas que cobrem baías inteiras, modelo que produz volume suficiente para abastecer múltiplas indústrias.

O que falta para as algas virarem combustível de verdade

Hauke Kite-Powell, engenheiro e analista econômico de Woods Hole, identifica três condições que precisam se alinhar para que o biocombustível de algas se torne viável: apoio governamental contínuo (não oscilante), investimento do setor privado em infraestrutura de produção, e regulação que crie demanda obrigatória por combustíveis sustentáveis na aviação e no transporte marítimo. Sem as três ao mesmo tempo, o setor permanece no estágio de pesquisa.

A transferência das fazendas para águas mais profundas e afastadas da costa poderia permitir operações maiores, mas introduz desafios de engenharia e ambientais. Kite-Powell alerta que “ainda não temos uma compreensão completa de todos os possíveis efeitos colaterais ecológicos da aquicultura oceânica em larga escala”, incluindo risco de emaranhamento de animais marinhos e competição por nutrientes com outras formas de vida. O potencial existe, mas a prudência científica impede a aceleração que o mercado não sustenta.

Por que Lindell acredita que o petróleo vai acabar antes da solução chegar

Apesar do impasse, Lindell mantém otimismo de longo prazo. Ao redor do seu laboratório, mais de 2.600 variedades de algas marinhas coletadas em toda a Nova Inglaterra continuam sendo estudadas e cultivadas seletivamente, na esperança de que a indústria energética faça a transição para fontes renováveis antes que o petróleo se torne inviável. Para ele, a volatilidade dos preços dos combustíveis e a natureza finita dos recursos fósseis apontam para mudança inevitável.

Lindell declarou que “chegaremos à conclusão de que as coisas mudaram no mercado e não conseguiremos extrair mais petróleo da terra daqui a 30 anos”. A questão é se a pesquisa com algas marinhas sobreviverá às oscilações políticas e orçamentárias até que esse momento chegue — ou se a tecnologia será reinventada do zero pela terceira vez, como aconteceu nos anos 1970, nos anos 2010 e pode acontecer de novo.

Você acredita que algas marinhas podem substituir o petróleo em navios e aviões, ou acha que essa tecnologia vai ficar eternamente no laboratório? Conte nos comentários o que pensa sobre biocombustíveis e se o Brasil, com seu litoral de 8.500 km, deveria investir em cultivo de algas para energia.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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