Amostras extraídas a 2,8 km de profundidade na Antártica podem esclarecer ciclos glaciais e níveis históricos de gases do efeito estufa entre 800 mil e 1,5 milhão de anos atrás.
Derretimento de gelo milenar pode mudar o entendimento sobre o clima
Blocos de gelo com 1,5 milhão de anos, os mais antigos já estudados, chegaram ao Reino Unido para serem analisados no British Antarctic Survey, em Cambridge. As amostras, coletadas a 2,8 km de profundidade na Antártica Oriental, serão derretidas lentamente ao longo de sete semanas, revelando partículas e substâncias que podem transformar o conhecimento científico sobre mudanças climáticas.
As amostras foram extraídas em uma expedição internacional próxima à base ítalo-francesa Concordia, em uma operação que custou milhões e durou quatro temporadas de verão polar. O material foi transportado em blocos de um metro por navio e caminhão refrigerado até Cambridge, mantendo temperaturas de -23 °C.

Segundo a pesquisadora Liz Thomas, responsável pela análise, este registro abrange um período pouco conhecido da história climática do planeta, crucial para compreender variações naturais de temperatura, vento e níveis de dióxido de carbono.
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Objetivo: reconstruir o passado climático e entender o futuro
Durante o processo de derretimento, cientistas irão liberar e analisar poeira, cinzas vulcânicas e microalgas marinhas (diatomáceas) preservadas no gelo. Estes elementos podem indicar padrões de ventos, temperaturas e variações do nível do mar em intervalos que vão de 800 mil a 1,5 milhão de anos atrás.
Com a ajuda de equipamentos avançados, como o espectrômetro de massa com plasma indutivamente acoplado (ICPMS), a equipe vai identificar mais de 20 elementos químicos e metais traço, incluindo terras raras, sais marinhos e resíduos de erupções vulcânicas.
Esses dados podem ajudar a explicar mudanças significativas, como a Transição do Pleistoceno Médio (800 mil a 1,2 milhão de anos atrás), quando os ciclos glaciais, antes de 41 mil anos, passaram a ocorrer a cada 100 mil anos. A causa dessa alteração ainda é uma das maiores incógnitas da ciência climática.
Importância para compreender impactos atuais e futuros
Os cientistas buscam entender como períodos com concentrações de dióxido de carbono naturalmente elevadas se comparam aos níveis atuais, que hoje ultrapassam qualquer valor dos últimos 800 mil anos. Essa comparação pode ajudar a projetar respostas do planeta ao aquecimento acelerado causado por atividades humanas.
O estudo também pode revelar períodos em que os níveis do mar eram muito mais altos e a calota de gelo da Antártica era significativamente menor. A análise das partículas de poeira permitirá estimar como o gelo recuou e contribuiu para elevações do oceano – uma preocupação crescente neste século.
De acordo com Thomas, revisitar esses eventos ajuda a identificar pontos críticos do sistema climático, oferecendo pistas sobre possíveis comportamentos do planeta nas próximas décadas.
Expedição internacional e colaboração científica global
O projeto envolveu especialistas de diferentes países, com blocos do núcleo de gelo também enviados a instituições na Alemanha e Suíça. Ao todo, foram extraídos 2,8 km de núcleo de gelo, o equivalente a mais de oito Torres Eiffel empilhadas.
James Veale, engenheiro que participou da perfuração, descreveu a experiência como única: “Segurar um pedaço dessa história em minhas mãos, mesmo com extremo cuidado, foi incrível”.
As informações foram divulgadas em reportagem da BBC News, com base em dados do British Antarctic Survey e depoimentos dos pesquisadores envolvidos na expedição.
