União Europeia investirá R$ 1,5 bilhão na expansão do EllaLink para Pará e Maranhão, fortalecendo a soberania digital brasileira.
Durante décadas, boa parte do tráfego de dados entre a América Latina e a Europa percorreu rotas que passam pelos Estados Unidos antes de chegar ao destino final. Agora, a União Europeia quer acelerar um movimento que pode alterar esse mapa digital e consolidar o Brasil como um dos principais corredores estratégicos de conectividade do Atlântico.
Segundo a União Europeia, em anúncio feito em 23 de junho de 2026, durante o II Fórum de Investimentos UE-Brasil, em Brasília, o bloco europeu destinou 260,8 milhões de euros, equivalente a cerca de R$ 1,5 bilhão, para ampliar o sistema de fibra óptica submarina EllaLink em direção ao Pará e ao Maranhão, criando novas conexões estratégicas com a Guiana Francesa e o Caribe. O projeto integra a estratégia europeia Global Gateway, voltada à expansão de infraestrutura crítica em países parceiros.
O EllaLink já conecta Brasil e Europa sem precisar passar pela América do Norte
O EllaLink entrou em operação comercial em 2021 ligando Fortaleza, no Ceará, à cidade de Sines, em Portugal, por meio de um cabo submarino com aproximadamente 5.900 quilômetros de extensão, oferecendo uma rota direta entre Europa e América Latina.
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Segundo a própria EllaLink, o sistema foi concebido para evitar o tradicional modelo de conexão em duas etapas, no qual grande parte do tráfego internacional latino-americano passava por infraestrutura localizada na América do Norte.
De acordo com a empresa, a rede possui capacidade de até 100 terabits por segundo, com possibilidade de expansão futura, além de proporcionar redução significativa de latência nas comunicações transatlânticas.
A companhia afirma que a rota pode diminuir em até 50% o tempo de resposta entre determinados centros de dados europeus e latino-americanos.
Para aplicações modernas como computação em nuvem, inteligência artificial, serviços financeiros, processamento científico e data centers, essa redução no tempo de transmissão pode representar ganhos importantes de eficiência operacional.
Investimento europeu pretende transformar Pará e Maranhão em novos polos digitais
Segundo a Delegação da União Europeia no Brasil, os 260,8 milhões de euros anunciados pela iniciativa Global Gateway serão destinados ao chamado corredor digital EllaLink, fortalecendo a conectividade digital resiliente nos estados do Pará e do Maranhão.

O projeto prevê ainda conexões subsequentes para a Guiana Francesa e o Caribe, além da implementação de sistemas considerados essenciais para a infraestrutura digital contemporânea, incluindo Smart Nodes, serviços avançados de cibersegurança, resiliência de dados e monitoramento climático e ambiental ao longo da rota submarina.
O anúncio foi realizado durante o II Fórum de Investimentos União Europeia–Brasil, em Brasília, pelo comissário europeu para Parcerias Internacionais, Jozef Síkela, que destacou a conectividade digital como uma das prioridades estratégicas da relação entre Europa e Brasil.
A iniciativa reduz a dependência das rotas digitais associadas aos Estados Unidos
O principal argumento geopolítico por trás do investimento é a chamada soberania digital.
Atualmente, uma parcela relevante das comunicações internacionais entre América Latina e Europa ainda utiliza infraestruturas associadas ao ecossistema digital norte-americano.
O EllaLink foi projetado justamente para criar uma alternativa física direta entre os dois continentes.
Segundo a União Europeia, a nova expansão permitirá que o tráfego de dados ocorra de forma mais diversificada, aumentando a redundância da rede internacional e reduzindo vulnerabilidades relacionadas a interrupções, congestionamentos ou dependência excessiva de determinadas rotas.
Especialistas em infraestrutura digital costumam apontar que cabos submarinos se tornaram ativos estratégicos comparáveis a oleodutos, gasodutos e corredores energéticos, devido ao papel central que desempenham na economia baseada em dados.
Maranhão pode se transformar em um novo hub de data centers no Norte do país
Projetos já discutidos anteriormente indicam que a chegada do EllaLink ao Maranhão poderá estimular investimentos em infraestrutura digital local.
Segundo informações publicadas pela TeleTime em 2025, o projeto maranhense contempla um investimento estimado em US$ 180 milhões, incluindo a implantação de um novo data center e uma ligação submarina de aproximadamente 350 a 500 quilômetros.
No Pará, os estudos mencionam um ramal de cerca de 425 quilômetros, permitindo conexão direta ao sistema internacional de cabos associado ao EllaLink.
A expectativa é que a infraestrutura possa impulsionar a instalação de novos centros de processamento de dados, serviços em nuvem, operações de inteligência artificial, empresas de tecnologia e atividades ligadas à economia digital na região Norte do Brasil.
A disputa por cabos submarinos se tornou um dos grandes temas da geopolítica do século XXI
Mais de 95% do tráfego internacional de dados trafega atualmente por cabos submarinos espalhados pelos oceanos, tornando essas estruturas praticamente invisíveis em elementos fundamentais para o funcionamento da economia global.
A decisão europeia de ampliar o EllaLink demonstra que a disputa por conectividade deixou de ser apenas uma questão tecnológica e passou a integrar a agenda estratégica de governos, empresas e blocos econômicos.
Se o petróleo definiu grande parte da geopolítica do século XX, os corredores de dados começam a ocupar um espaço cada vez maior nas decisões econômicas e diplomáticas do século XXI.

