A Fundação Ice Memory inaugurou o primeiro santuário global para núcleos de gelo sob a neve da Antártida perto da Estação Concordia, onde amostras dos Alpes repousam a menos 52 graus Celsius sem eletricidade, preservando bolhas de ar antigo que registram a história do clima da Terra para cientistas das próximas gerações
Escondido a nove metros de profundidade sob a neve da Antártida, cientistas esculpiram um cofre diferente de qualquer outro que existe no planeta. Ele não armazena ouro, sementes ou documentos. Dentro de uma caverna de 35 metros de comprimento escavada na neve compactada do planalto antártico, repousam amostras de gelo extraídas de geleiras de montanha que estão desaparecendo. A temperatura natural do local é de aproximadamente menos 52 graus Celsius, o que dispensa qualquer sistema de refrigeração mecânica ou eletricidade.
Conforme CNRS, o santuário foi inaugurado em janeiro pela Fundação Ice Memory, perto da Estação Franco-Italiana Concordia, e é o primeiro arquivo global projetado para preservar a memória do clima da Terra por séculos. As primeiras amostras a ocupar o cofre sob a neve da Antártida são dois núcleos de gelo dos Alpes: um do Col du Dôme do Mont Blanc, na França, e outro do Grand Combin, na Suíça. Cerca de 1,7 tonelada de gelo viajou da Europa até o planalto antártico em rota refrigerada por navio e avião de carga.
O que é a caverna sob a neve da Antártida e como ela funciona

A caverna foi escavada na neve compactada do planalto antártico, a cerca de nove metros abaixo da superfície. Com 35 metros de comprimento, o espaço abriga fileiras de núcleos de gelo acondicionados em caixas térmicas.
-
Caderno de cera cai em latrina há 800 anos, sobrevive intacto na Alemanha e revela anotações em latim que podem expor a rotina de um comerciante medieval de alto status
-
Depois de mais de 11 anos orbitando Marte, a NASA declarou perdida a sonda MAVEN, que sumiu ao passar por trás do Planeta Vermelho em dezembro, começou a girar de forma anormal, esgotou as baterias e nunca mais respondeu aos controladores na Terra
-
China cria cápsula com inteligência artificial que escaneia o estômago em apenas 8 minutos e pode reduzir custos em até R$ 1.400, abrindo caminho para uma nova era dos diagnósticos gastrointestinais sem tubos, sedação e desconforto aos pacientes
-
Cientistas simulam bola de fogo nuclear em laboratório e descobrem surpresa na precipitação radioativa ao observar como césio, urânio e cério mudam quando permanecem mais tempo em altas temperaturas
O frio extremo natural do planalto mantém a temperatura interna em torno de menos 52 graus Celsius o ano inteiro, sem necessidade de eletricidade, refrigeração mecânica ou manutenção constante.
Esse é o princípio que torna o santuário sob a neve da Antártida radicalmente diferente dos congeladores industriais que até agora armazenavam a maioria dos núcleos de gelo na Europa.
Congeladores mecânicos consomem grandes quantidades de eletricidade e estão expostos a apagões, crises políticas e erros humanos.
O armazenamento passivo na Antártida elimina esses riscos. Mesmo que o mundo exterior entre em colapso, o cofre continua funcionando porque depende apenas da física do lugar mais frio habitado do planeta.
Por que guardar gelo de montanha sob a neve da Antártida

Amostras de gelo extraídas de geleiras de alta montanha capturam minúsculas bolhas de ar antigo, junto com poeira, cinzas vulcânicas e vestígios de poluição acumulados ao longo de séculos.
Essas bolhas permitem que cientistas leiam diretamente os níveis de gases de efeito estufa e as oscilações de temperatura do passado, fornecendo dados que aprimoram os modelos climáticos usados para planejar defesas contra inundações, orientar decisões agrícolas e guiar políticas energéticas de longo prazo.
O problema é que essas geleiras estão desaparecendo. Desde 2000, geleiras de montanha perderam entre 2% e 39% do seu gelo em diferentes regiões do mundo.
A Organização Meteorológica Mundial alerta que quase metade das geleiras do planeta poderá sumir até o final do século se o aquecimento continuar.
O santuário sob a neve da Antártida existe para preservar essas amostras antes que as geleiras que as originaram desapareçam, levando consigo registros climáticos insubstituíveis.
De onde vieram as primeiras amostras e quais serão as próximas

Os primeiros núcleos de gelo a ocupar o cofre sob a neve da Antártida vieram dos Alpes europeus. Um foi extraído do Col du Dôme do Mont Blanc, na França, e o outro do Grand Combin, na Suíça.
As 1,7 tonelada de gelo viajaram do porto italiano de Trieste em rota refrigerada, primeiro em navio de pesquisa e depois em avião de carga, até chegar à Estação Concordia em dezembro de 2025.
Ao longo da próxima década, o santuário receberá amostras de geleiras ameaçadas em outras regiões do mundo. Núcleos de gelo dos Andes, das montanhas do Pamir, de Svalbard e de outras áreas vulneráveis devem se juntar às amostras alpinas.
A ideia é construir sob a neve da Antártida um arquivo completo da atmosfera terrestre ao longo de milhares de anos, acessível a cientistas de qualquer país por meio de normas internacionais vinculadas ao Tratado da Antártida.
O Tratado da Antártida e as regras de acesso ao cofre de gelo
O projeto foi aprovado pelas partes do Sistema do Tratado da Antártida em 2024, após avaliações ambientais detalhadas.
O santuário trata os núcleos de gelo como recurso comum global, e não como propriedade de um único país.
O acesso será regido por normas internacionais, com amostras liberadas apenas para projetos científicos cuidadosamente avaliados por comitês independentes.
Essa governança internacional é essencial para garantir que o arquivo sob a neve da Antártida não se torne refém de interesses nacionais ou políticos.
O projeto nasceu em 2015 como uma iniciativa do CNRS, a agência de pesquisa francesa, em parceria com institutos da Itália e da Suíça.
O Príncipe Alberto II de Mônaco, cuja fundação ajudou a financiar a construção, chamou as geleiras de pilares do sistema terrestre que sustentam milhões de pessoas muito além das regiões polares.
Por que a diretora do projeto diz que somos a última geração que pode agir
Anne Catherine Ohlmann, diretora da Fundação Ice Memory, declarou que somos a última geração com a oportunidade de preservar esses registros.
Se as geleiras de montanha desaparecerem antes que seus núcleos de gelo sejam extraídos e armazenados, a informação contida neles se perde para sempre. Não existe tecnologia capaz de recriar uma bolha de ar aprisionada há mil anos dentro de uma camada de gelo que derreteu.
Dados globais mostram que 2025 esteve entre os três anos mais quentes já registrados, com temperaturas aproximadamente 1,4 graus Celsius acima da média do século XIX. O ritmo de aquecimento não dá sinais de desaceleração.
O santuário sob a neve da Antártida é, ao mesmo tempo, uma resposta científica ao problema e uma mensagem para as gerações futuras: em algum lugar no planalto mais frio do planeta, a atmosfera do passado está congelada, esperando que alguém venha aprender com ela.
Um cofre que guarda o ar que o mundo respirava séculos atrás
Uma caverna de 35 metros sob a neve da Antártida, mantida a menos 52 graus Celsius sem um único watt de eletricidade, agora abriga amostras de gelo que contêm bolhas de ar com milhares de anos.
É a aposta mais ousada da ciência para preservar a memória do clima da Terra antes que as geleiras que guardam essa informação desapareçam de vez.
O frio eterno da Antártida faz de graça o que congeladores industriais fazem gastando fortunas em energia.
Você sabia que existia um cofre de gelo sob a Antártida? Acha que preservar a memória do clima é prioridade ou existem urgências maiores? Deixe nos comentários e compartilhe este artigo com quem se interessa por ciência, clima e o futuro do planeta.

É primordial que preservamos nosso clima, com uso de energia limpa, com extinção do petróleo no mundo. O homem é tão inteligente que se voltasse sua inteligência na preservação teriamos um planeta mais oxigenado. Mas preservar a memória do nosso clima para futura gerações é muito importante,pois no futuro as civilizações poderão mudar os erros do passados.