Geleira Totten tem “portal” submarino que pode levar água quente ao gelo e drena bacia capaz de elevar oceanos em mais de 3,5 m.
Cientistas da identificaram uma espécie de “portal” submarino sob a Geleira Totten, na Antártida Oriental, que pode permitir a entrada de água oceânica relativamente quente até a base do gelo. A descoberta ajuda a explicar por que uma das regiões mais importantes do manto de gelo antártico apresenta sinais de afinamento e perda de massa. O “portal” é uma vale submarino de cerca de 5 km de largura, revelado por levantamentos aéreos com radar de penetração no gelo, gravímetro, laser e sensores geomagnéticos. Essa passagem profunda pode funcionar como corredor para água quente atingir a cavidade sob a plataforma de gelo da Totten.
O tamanho do risco chama atenção porque a Totten drena a Bacia Subglacial Aurora, uma região com gelo suficiente para elevar o nível global do mar em mais de 3,5 metros se passasse por perda extrema ao longo de séculos. Esse número não é previsão imediata, mas potencial físico de elevação caso a massa de gelo fosse desestabilizada.
Geleira Totten esconde uma passagem submarina capaz de conectar água quente ao gelo profundo
A descoberta foi publicada em estudo na Nature Geoscience e divulgada por instituições como a Australian Antarctic Division e o Imperial College London.
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Os pesquisadores mapearam a topografia escondida sob a geleira e encontraram um vale no fundo do mar capaz de abrir caminho para água oceânica alcançar a base do gelo.
A Australian Antarctic Division afirma que essa passagem pode explicar por que a Totten é considerada a geleira que mais rapidamente afina na Antártida Oriental.
A água quente não precisa derreter o gelo pela superfície: ela pode atacar a geleira por baixo, justamente na região onde o gelo começa a flutuar.
Esse ponto é decisivo porque plataformas de gelo funcionam como barreiras naturais. Quando elas perdem espessura por baixo, reduzem sua capacidade de segurar o gelo continental que escorre em direção ao oceano.
Totten drena uma bacia com gelo suficiente para elevar o mar em mais de 3,5 metros
A escala da Totten é o que transforma a descoberta em alerta global. Segundo a Australian Antarctic Division, há gelo suficiente no sistema drenado pela Geleira Totten para elevar o nível médio do mar em pelo menos 3,5 metros, valor comparável ao potencial da camada de gelo da Antártida Ocidental.

O estudo também destaca que parte da bacia drenada pela Totten está apoiada abaixo do nível do mar, com regiões que chegam a 1,7 km abaixo do nível oceânico e são cobertas por até 4 km de gelo. Essa geometria aumenta a vulnerabilidade à entrada de água quente.
Em linguagem simples: não é apenas uma geleira grande. É uma porta de saída de uma bacia profunda, enterrada sob quilômetros de gelo, com potencial de afetar costas em todo o planeta se entrar em recuo prolongado.
Água quente chega por depressões profundas, correntes e canais no fundo do mar
Um estudo publicado na Nature Communications em 2023 detalhou melhor como o calor oceânico pode avançar até a plataforma de gelo da Totten. Os pesquisadores identificaram uma combinação de quebra profunda da plataforma continental, depressão ampla, circulação ciclônica e canais profundos que ajudam a transportar água quente até a cavidade sob o gelo.

O National Institute of Polar Research, do Japão, explicou que a água quente de origem oceânica interage com a plataforma da Totten e chega à cavidade por meio de duas grandes calhas glaciais profundas. Esse caminho ajuda a explicar como o calor ultrapassa uma região que antes era difícil de observar por causa do gelo marinho espesso.
O mesmo estudo informou que a temperatura da água mais quente que alcança a cavidade varia cerca de 0,8 °C em escala interanual. Em ambiente polar, essa diferença é suficiente para mudar a taxa de derretimento basal.
Helicópteros lançaram 74 sondas por rachaduras no gelo para medir água quente sob a plataforma
A dificuldade de estudar a Totten é extrema. Navios são frequentemente bloqueados por gelo marinho e icebergs, então pesquisadores passaram a usar helicópteros para lançar sondas por rachaduras no gelo costeiro.
Em uma campanha de seis dias, cientistas lançaram 74 sondas AXCTD e AXBT em fendas de gelo com largura entre 15 e 540 metros. Esses instrumentos mediram temperatura e salinidade até 1.000 metros de profundidade.
Os resultados mostraram intrusões de água oceânica relativamente quente, entre 0,5 °C e 1 °C, abaixo de 550 a 600 metros em uma área antes pouco amostrada da plataforma continental.
Os cientistas também identificaram saída de água de degelo da cavidade da plataforma, uma evidência direta de derretimento por baixo.
Plataforma de gelo da Totten tem uma das maiores taxas de derretimento basal da Antártida Oriental
A plataforma de gelo da Totten não está apenas exposta ao oceano. Segundo estudo da Nature Communications, ela apresenta taxa média de derretimento basal de 10,5 ± 0,7 metros por ano, a maior entre as plataformas de gelo da Antártida Oriental no conjunto analisado.
O mesmo trabalho cita perda basal de 63,2 ± 4 gigatoneladas por ano no período de 2007 a 2008. Esse dado reforça que a interação entre oceano e gelo já é um componente relevante da dinâmica da Totten.
A descoberta do “portal” e dos caminhos de água quente não significa que um colapso esteja acontecendo de forma imediata. Mas mostra que a Antártida Oriental, por muito tempo tratada como mais estável que a Ocidental, também tem pontos vulneráveis ao aquecimento oceânico.
O perigo da Totten está no que os satélites não conseguem ver
Satélites conseguem medir afinamento, velocidade do gelo e mudanças na superfície. Mas o problema mais sensível da Totten está escondido embaixo: no contato entre oceano, fundo marinho e base da plataforma de gelo.
É nesse ponto invisível que vales submarinos, depressões profundas e correntes carregadas de calor podem transformar a estabilidade de uma geleira. A Totten não precisa derreter por cima para preocupar os cientistas; basta que água relativamente quente continue encontrando caminho até sua base.
A imagem final é incômoda: uma geleira colossal da Antártida Oriental, assentada sobre uma bacia profunda, atravessada por passagens submarinas e conectada a gelo suficiente para elevar o mar em mais de 3,5 metros.
O “portal” não é ficção científica é geografia escondida sob o gelo, e pode ser uma das chaves para entender o futuro das cidades costeiras.

