Fóssil de pena com 30.000 anos é o primeiro do tipo já encontrado. Achado revela informações inéditas sobre aves antigas
Valentina Rossi viu pela primeira vez o fóssil de um abutre-grifo de 30.000 anos ainda como aluna de mestrado, em 2014, em Roma. A ave, encontrada em 1889 perto da capital italiana, estava em excelente estado. Rossi ficou fascinada ao observar a impressão fossilizada da cabeça do animal e uma pena fóssil preservada, enquanto ouvia a explicação do pesquisador Dawid Iurino.
Na época, Iurino comentou que a composição exata das penas fossilizadas ainda era um mistério. Determinar isso exigiria métodos mais avançados e, segundo ele, essa seria uma missão para estudos futuros.
A análise de estruturas tão bem preservadas ultrapassava o que o grupo de paleontólogos podia fazer naquele momento.
-
Coreia do Sul vai afundar 20 caixões de concreto de 12,5 mil toneladas no mar de Busan para erguer 1,4 km de quebra-mar no Jinhae New Port, obra de 12,6 trilhões de wons que amplia o porto que o país quer colocar entre os 3 maiores do mundo
-
Veneza guarda no fundo da lagoa 78 portões de aço de até 350 toneladas que despertam do mar como uma muralha invisível para separar a cidade do Adriático quando marés extremas ameaçam engolir canais, praças, igrejas e museus
-
China coloca 432 robôs para erguer do chão um prédio gigantesco de 7,5 mil toneladas e fazer construção quase centenária “andar” por Xangai, movendo o patrimônio cerca de 10 metros por dia para abrir espaço a um centro subterrâneo sem transformar a arquitetura histórica em entulho
-
Chip dentro da bola da Copa detecta toque invisível a olho nu, ajuda VAR a analisar impedimento e decisão resulta na vitória de Portugal sobre a Croácia
Mais de uma década depois, a resposta finalmente chegou. Um novo estudo liderado por Rossi, com colaboração de Iurino e outros pesquisadores, foi publicado na revista Geology. A pesquisa revelou que as penas foram fossilizadas por zeólitas — minerais formados a partir de compostos de alumínio e silício.
Descoberta inédita
É a primeira vez que cientistas relatam a mineralização de tecidos moles por zeólitas. A descoberta abre novas possibilidades para a paleontologia. Rossi, agora paleontóloga da University College Cork, na Irlanda, explica que encontrar penas preservadas em três dimensões já é muito raro. E encontrá-las mineralizadas é ainda mais incomum.
A presença de zeólitas indica que a fossilização da pena fóssil ocorreu a partir da interação entre rochas vulcânicas e água. Com isso, os cientistas agora podem explorar ambientes vulcânicos como potenciais locais de preservação de tecidos moles.
Origem das penas fossilizadas: microscópio e espectroscopia
Para comprovar a origem mineral das penas fósseis, os pesquisadores usaram um microscópio eletrônico de alta potência. Estudaram a forma e a textura das estruturas preservadas.
Depois, aplicaram diferentes técnicas de espectroscopia para analisar a estrutura química. O resultado confirmou a presença de ligações compatíveis com zeólitas.
A mineralização de tecidos moles geralmente depende da composição química. Tecidos musculares, por exemplo, são frequentemente fossilizados por fosfato de cálcio, pois já contêm cálcio e fósforo.
No entanto, as penas não contêm silício nem alumínio, o que tornou a presença das zeólitas um ponto intrigante.
Hipóteses sobre o processo químico
Segundo Rossi, a mineralização pode ter ocorrido devido ao pH do tecido em decomposição. Mary Schweitzer, professora emérita da Universidade Estadual da Carolina do Norte, que não participou do estudo, comentou que certas moléculas em decomposição podem atrair alumínio ou sílica. Ela afirmou que ainda são necessárias mais pesquisas para entender completamente essa transformação.
Estudos anteriores já mostraram que zeólitas podem se formar em materiais biológicos mergulhados em soluções contendo silício e alumínio. A novidade agora é observar isso em penas fossilizadas naturalmente, algo inédito até então.
Estudo da pena fóssil: o fim do abutre
Com os dados obtidos, os cientistas conseguiram montar um modelo tafonômico — uma reconstituição dos últimos momentos do animal até sua fossilização. Não havia indícios de ferimentos. A suspeita dos pesquisadores é que o abutre tenha morrido por causa de gases tóxicos emitidos durante uma erupção vulcânica.
Mesmo morto, o corpo do animal permaneceu intacto. Ele pode ter sido coberto por um fluxo vulcânico mais frio e lento. Isso explicaria a preservação dos tecidos, que normalmente seriam destruídos pelo calor.
A lava endureceu com o corpo da ave por baixo. Depois de algum tempo, as chuvas penetraram a rocha e geraram um fluido com alto teor de minerais.
Esse fluido reagiu com os tecidos da ave. A combinação química gerou as zeólitas, que começaram a substituir o tecido antes que ele se decompusesse por completo. Assim, as penas se transformaram em pedra.
Novas pistas para futuras descobertas
Os autores sugerem que esse tipo de fossilização pode ter acontecido com muitos outros organismos ao longo do tempo. Segundo eles, é possível que categorias inteiras de fósseis estejam sendo ignoradas por estarem em formações rochosas consideradas inadequadas.
Geralmente, áreas vulcânicas não são vistas como bons locais para buscar fósseis, devido à violência dos fluxos de lava. Mas a nova descoberta mostra que algumas exceções existem. A pesquisa pode mudar como os cientistas escolhem onde escavar e o que procurar.
Com informações de ZME Science.
