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Cientistas descobriram por puro acaso que um organismo microscópico tirado de uma lagoa em Oxford não segue uma das regras “universais” do DNA, achado feito durante um teste de sequenciamento com objetivo bem diferente

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 08/05/2026 às 00:13
Atualizado em 08/05/2026 às 00:15
Cientistas do Earlham descobrem por acaso organismo de Oxford que reescreve regras do DNA. Códons de parada viram aminoácidos. Achado inédito na PLOS Genetics.
Cientistas do Earlham descobrem por acaso organismo de Oxford que reescreve regras do DNA. Códons de parada viram aminoácidos. Achado inédito na PLOS Genetics.
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Cientistas do Instituto Earlham, no Reino Unido, descobriram por acaso que o organismo microscópico Oligohymenophorea sp. PL0344, coletado em lagoa do Oxford University Parks, reescreve regras universais do código genético ao usar dois códons de parada como aminoácidos diferentes em achado inédito publicado na revista PLOS Genetics.

Cientistas do Instituto Earlham, no Reino Unido, fizeram uma descoberta inesperada durante um teste de sequenciamento de DNA. O organismo microscópico que estavam analisando, coletado em uma lagoa do Oxford University Parks, reescreve uma das regras consideradas universais do código genético.

A pesquisa foi liderada pela Dra. Jamie McGowan, cientista pós-doutoral do Earlham Institute. O objetivo inicial era prático: testar um novo método de sequenciamento capaz de funcionar com quantidades mínimas de DNA, incluindo material genético de uma única célula.

O alvo do teste era um protista de água doce. O resultado foi uma anomalia genética inédita. O organismo, identificado como Oligohymenophorea sp. PL0344, revelou-se uma espécie até então desconhecida com forma rara de ler o DNA.

A descoberta foi publicada na revista científica PLOS Genetics. Dois códons que normalmente funcionam como sinais de parada na síntese de proteínas foram reatribuídos a aminoácidos diferentes, combinação que os pesquisadores classificam como nunca antes vista.

“Foi pura sorte termos escolhido esse protista para testar nosso método de sequenciamento, e isso apenas demonstra o quanto ainda temos a aprender sobre a genética dos protistas”, afirmou a Dra. McGowan.

O que esse organismo de Oxford fez de tão diferente das regras do DNA

Cientistas do Earlham descobrem por acaso organismo de Oxford que reescreve regras do DNA. Códons de parada viram aminoácidos. Achado inédito na PLOS Genetics.

Para entender o achado, é preciso lembrar como funciona o código genético. Em quase todos os seres vivos, três códons sinalizam o fim de um gene: TAA, TAG e TGA. Eles funcionam como pontos finais nas instruções genéticas, indicando que a síntese de proteínas deve parar.

Esse sistema é descrito como quase universal. As variações conhecidas até agora são raras, e quando ocorrem, TAA e TAG costumam mudar juntos, assumindo o mesmo aminoácido. Esse padrão sugeria que os dois códons estavam ligados na evolução.

O organismo de Oxford fez algo diferente. Apenas TGA continua funcionando como códon de parada. Os outros dois sinais foram reaproveitados para significados distintos: TAA passou a especificar lisina, enquanto TAG passou a codificar ácido glutâmico.

A combinação é o que torna o caso único. “Não temos conhecimento de nenhum outro caso em que esses códons de parada estejam ligados a dois aminoácidos diferentes”, disse a Dra. McGowan. “Isso quebra algumas das regras que pensávamos conhecer sobre a tradução de genes.”

A equipe também encontrou mais códons TGA do que o esperado, distribuídos de forma específica logo após as regiões codificadoras. Os pesquisadores acreditam que essa concentração ajuda a compensar a perda dos outros dois sinais de parada e evita leituras contínuas prejudiciais à célula.

O que são os ciliados e por que esse grupo é tão estranho geneticamente

O Oligohymenophorea sp. PL0344 pertence a um grupo chamado ciliados. São protistas nadadores, visíveis ao microscópio, encontrados em diversos ambientes aquáticos. Eles se tornaram especialmente interessantes para geneticistas por uma razão específica.

Os ciliados são conhecidos como pontos críticos de alterações no código genético. Estudos repetidos mostraram que esse grupo abriga mais variações genéticas anômalas do que qualquer outro tipo de organismo conhecido.

A categoria “protista” é ampla por definição. “Essencialmente, é qualquer organismo eucariótico que não seja um animal, planta ou fungo”, explicou a Dra. McGowan. Isso inclui amebas, algas, diatomáceas, mixomicetos e algas vermelhas.

A diversidade dentro do grupo é tão grande que generalizações são quase impossíveis. Alguns protistas são mais aparentados aos animais, outros às plantas. Há predadores e presas, parasitas e hospedeiros, organismos que nadam e outros sedentários.

Um estudo publicado na PLOS Genetics em 2024 reforçou que os ciliados são fontes excepcionalmente ricas em surpresas no código genético. Pesquisadores identificaram múltiplas reatribuições independentes do códon de parada UAG em ciliados filofaríngeos, com diferentes espécies usando o mesmo códon para codificar aminoácidos distintos.

Por que a descoberta desse organismo desafia o que se sabia sobre o código genético

O DNA pode ser entendido como conjunto de instruções, mas essas instruções precisam ser interpretadas. Primeiro um gene é transcrito em RNA. Depois o RNA é traduzido em aminoácidos, que se ligam para formar proteínas e outras moléculas funcionais.

A tradução começa em um códon de iniciação (ATG) e termina em um códon de parada. No organismo encontrado em Oxford, esse sistema de terminação tradicional foi reorganizado de forma que ainda não havia sido documentada em nenhum outro ser vivo.

A análise do genoma e do transcriptoma identificou genes de tRNA supressores correspondentes aos códons reatribuídos. Isso confirmou a conclusão de que o organismo realmente lê os antigos sinais de parada como aminoácidos, não apenas em casos isolados.

A descoberta tem implicação que vai além da curiosidade biológica. Mostra que mesmo um dos sistemas mais conservados da biologia pode ser mais flexível do que se imaginava. O código genético, considerado quase imutável por décadas, abriga exceções que a evolução vem produzindo de forma independente em diferentes linhagens.

Cientistas que tentam criar códigos genéticos sintéticos em laboratório encontram, na natureza, exemplos de mecanismos que ninguém havia desenhado. “Há coisas fascinantes que podemos encontrar, se as procurarmos”, disse a Dra. McGowan. “Ou, neste caso, quando não os estamos procurando.”

O que a pesquisa do Instituto Earlham significa para a biologia molecular

A pesquisa original que identificou o Oligohymenophorea sp. PL0344 foi publicada na PLOS Genetics em 2023. O trabalho foi financiado pela Wellcome Trust como parte do Projeto Árvore da Vida de Darwin e apoiado pelo Conselho de Pesquisa em Biotecnologia e Ciências Biológicas (BBSRC), parte do UKRI britânico.

Os dados de sequenciamento e os recursos de montagem do genoma foram depositados em repositórios públicos. A decisão permite que outros grupos de pesquisa repliquem e aprofundem o achado, prática que se tornou padrão em biologia molecular nas últimas décadas.

Para o leitor não especializado, a mensagem central é simples. A natureza não opera com regras tão rígidas quanto se imaginava, e os organismos pouco estudados (especialmente os microbianos) podem reservar surpresas que reescrevem capítulos inteiros dos livros de biologia.

A combinação entre novos métodos de sequenciamento e curiosidade científica é o motor dessas descobertas. Sem o teste de uma técnica para amostras minúsculas de DNA, esse organismo de uma lagoa britânica continuaria invisível para a ciência, mesmo abrigando uma das exceções mais notáveis ao código genético padrão.

E você, achou impressionante essa descoberta? Acha que ainda existem muitas regras da biologia esperando para serem reescritas? Deixe sua opinião nos comentários.

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Bruno Teles

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