Um rio subterrâneo contaminado com mercúrio despeja anualmente cerca de 1 kg do metal tóxico na laguna Mar Menor, no sudeste da Espanha. O fluxo oculto cria condições para a formação de metilmercúrio, uma substância que se acumula em peixes e frutos do mar e pode causar danos neurológicos irreversíveis em humanos.
Pesquisadores identificaram um rio subterrâneo tóxico que transporta água contaminada com mercúrio dos aquíferos subterrâneos até a laguna Mar Menor, no sudeste da Espanha, uma das regiões mais populares do país para turismo de praia e pesca local. O rio subterrâneo, invisível na superfície, despeja anualmente cerca de 1 quilograma de mercúrio na laguna, um volume que parece pequeno em termos absolutos mas é significativo para um ecossistema costeiro tão sensível. As concentrações de mercúrio na água que chega pelo rio subterrâneo são comparáveis às registradas na atmosfera e superiores às de alguns rios superficiais da região, o que indica que a fonte de poluição subterrânea pode estar causando danos que passaram anos sem ser detectados.
O problema não é apenas o mercúrio que o rio subterrâneo despeja. Quando a água contaminada se mistura à água salgada e rasa da laguna, formam-se zonas com pouco oxigênio e muita matéria orgânica, condições ideais para que microrganismos convertam o mercúrio inorgânico em metilmercúrio, uma forma orgânica altamente tóxica que se acumula com eficiência em peixes, moluscos e outros organismos aquáticos. Para turistas e moradores que consomem frutos do mar da região, a descoberta do rio subterrâneo levanta uma questão que vai além da ciência ambiental: o que já comemos sem saber?
O que é o rio subterrâneo tóxico descoberto sob a laguna Mar Menor
Segundo o portal da Revista Oeste, o elemento central do estudo é a identificação de um fluxo subterrâneo de água contaminada que conecta os aquíferos da região à laguna Mar Menor. Esse rio subterrâneo não é visível na superfície e não aparece em mapas hidrográficos convencionais, o que explica por que a fonte de poluição permaneceu oculta durante anos, mesmo com os problemas ambientais da laguna sendo amplamente documentados. A água que o rio subterrâneo transporta carrega mercúrio dissolvido que se origina de atividades industriais e agrícolas que contaminaram os aquíferos ao longo de décadas.
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O Mar Menor é a maior laguna costeira de água salgada da Europa, com cerca de 135 km² de superfície e profundidade média de apenas 3,6 metros. Sua pouca profundidade e a temperatura elevada da água criam um ambiente particularmente vulnerável à contaminação, onde poluentes como o mercúrio se concentram mais rapidamente do que em corpos d’água mais profundos e frios. A descoberta do rio subterrâneo como fonte de poluição adiciona uma camada de complexidade a uma situação ambiental que já era crítica.
Como o rio subterrâneo transforma mercúrio em metilmercúrio

O mercúrio que o rio subterrâneo despeja na laguna não é, por si só, a maior ameaça. O perigo real surge quando microrganismos presentes nos sedimentos do fundo convertem o mercúrio inorgânico em metilmercúrio, uma forma orgânica do metal que é muito mais tóxica e biologicamente ativa. Esse processo, chamado de metilação, ocorre principalmente em zonas pobres em oxigênio, onde bactérias anaeróbicas que reduzem sulfato e ferro utilizam compostos com mercúrio durante seu metabolismo.
A mistura da água do rio subterrâneo com a água salgada da laguna cria exatamente as condições que favorecem essa reação. As bactérias adicionam grupos metila ao mercúrio, tornando-o mais solúvel em compostos orgânicos e capaz de atravessar com facilidade as membranas celulares dos organismos aquáticos. Uma vez dentro dos tecidos de peixes e moluscos, o metilmercúrio se acumula e não é eliminado naturalmente, um processo conhecido como bioacumulação. À medida que peixes maiores consomem peixes menores, a concentração do contaminante aumenta em cada nível da cadeia alimentar, fenômeno chamado biomagnificação.
Os riscos que o rio subterrâneo representa para a saúde humana
A principal preocupação dos pesquisadores é o consumo de peixes e frutos do mar contaminados. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o metilmercúrio pode afetar o cérebro e o sistema nervoso central, principalmente em fetos e crianças pequenas, causando danos que podem ser irreversíveis. Para adultos, a exposição prolongada ao contaminante está associada a alterações neurológicas, motoras e cognitivas que se manifestam gradualmente e podem não ser identificadas até que o dano já esteja consolidado.
Na laguna Mar Menor, onde a pesca é uma atividade econômica importante e o turismo gastronômico atrai milhares de visitantes, a presença de um rio subterrâneo despejando mercúrio coloca em risco tanto a saúde dos moradores quanto a confiança dos consumidores nos produtos locais. Peixes predadores de topo, como o robalo e a dourada, costumam concentrar as maiores quantidades de metilmercúrio, exatamente as espécies mais valorizadas nos restaurantes da região. A via de exposição mais comum é simples e cotidiana: comer um peixe grelhado no almoço.
Por que o rio subterrâneo passou anos sem ser detectado
A natureza subterrânea do fluxo é a principal razão pela qual a contaminação permaneceu invisível. Monitoramentos ambientais tradicionais medem a qualidade da água na superfície e analisam a descarga de rios e canais visíveis, mas raramente avaliam o que entra no ecossistema por baixo do solo. O rio subterrâneo que contamina o Mar Menor opera fora do radar desses sistemas, despejando mercúrio continuamente sem que ninguém veja a água entrando na laguna.
Esse tipo de fonte de poluição, chamado de descarga subterrânea de águas, é reconhecido pela ciência há décadas, mas continua sendo subestimado na gestão ambiental. Especialistas defendem que aquíferos e águas costeiras sejam integrados em uma mesma estratégia de monitoramento, em vez de serem tratados como sistemas independentes. A situação do Mar Menor demonstra que ignorar o que acontece no subsolo pode comprometer anos de esforços para recuperar um ecossistema que já estava sob pressão por outras fontes de poluição, como o escoamento agrícola e o despejo de esgotos.
O que pode ser feito para reduzir o impacto do rio subterrâneo
A descoberta do rio subterrâneo não resolve o problema, mas permite que ele seja enfrentado com informações que antes não existiam. Entre as medidas defendidas por pesquisadores e órgãos ambientais estão a redução do uso de insumos agrícolas que contaminam os aquíferos, a melhoria rigorosa do tratamento de esgotos urbanos e resíduos industriais, o monitoramento regular de mercúrio e metilmercúrio em água, sedimentos e peixes e a adaptação contínua dos planos de manejo costeiro às mudanças climáticas.
As ondas de calor marinhas, que estão se tornando mais frequentes no Mediterrâneo, podem agravar a situação ao reduzir ainda mais os níveis de oxigênio na laguna e acelerar o processo de metilação do mercúrio. Para os moradores e turistas que frequentam o Mar Menor, a recomendação é acompanhar os boletins de qualidade da água e da pesca emitidos pelas autoridades locais e limitar o consumo de espécies predadoras de topo até que o monitoramento confirme que os níveis de contaminação estão dentro dos limites seguros. O rio subterrâneo que ninguém via agora tem nome, e o primeiro passo para resolver um problema é saber que ele existe.
Cientistas descobriram um rio subterrâneo invisível despejando mercúrio em uma das praias mais famosas da Espanha. O veneno pode estar nos peixes que milhares de pessoas consomem. Você confiaria em comer frutos do mar de uma laguna contaminada? Deixe sua opinião nos comentários.

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