1. Início
  2. Ciência e Tecnologia
  3. Cientistas descobrem sinal quase invisível emitido pelos vulcões antes de entrar em erupção e criam sistema capaz de prever até 92% das explosões vulcânicas horas antes de acontecerem
Faça um comentário 8 min de leitura

Cientistas descobrem sinal quase invisível emitido pelos vulcões antes de entrar em erupção e criam sistema capaz de prever até 92% das explosões vulcânicas horas antes de acontecerem

Imagem de perfil do autor Maria Heloisa Barbosa Borges
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 16/03/2026 às 10:58
erupção, magma e vulcão ganham novo alerta vulcânico com monitoramento vulcânico capaz de antecipar sinais horas antes da explosão.
erupção, magma e vulcão ganham novo alerta vulcânico com monitoramento vulcânico capaz de antecipar sinais horas antes da explosão.
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

Ao detectar microvariações horizontais do solo geradas pela subida do magma, o método Jerk abriu uma nova frente para prever erupção com antecedência, reduziu a dependência de grandes redes de monitoramento e mostrou que até sinais quase imperceptíveis podem indicar risco real horas antes da atividade vulcânica atingir a superfície.

Prever uma erupção com antecedência suficiente para acionar alertas e proteger populações próximas continua sendo um dos desafios mais difíceis da vulcanologia. Agora, um sistema chamado Jerk passou a chamar atenção por conseguir detectar um sinal extremamente sutil no solo, ligado à movimentação do magma em profundidade, antes de o vulcão entrar em atividade.

O ponto mais relevante dessa descoberta é que o método não depende de uma estrutura gigantesca para funcionar. Com apenas um sismômetro de banda larga, os pesquisadores conseguiram registrar sinais minúsculos, quase invisíveis em medições convencionais, e transformar esse comportamento em alertas automáticos capazes de antecipar a abertura de uma erupção em muitos casos.

O sinal quase invisível que aparece antes da erupção

O sistema Jerk foi desenvolvido para detectar movimentos horizontais muito pequenos do solo causados pela intrusão de magma na crosta terrestre. Esses movimentos aparecem como transientes de frequência muito baixa, uma espécie de alteração breve, discreta e difícil de enxergar em leituras comuns, mas que pode indicar que o interior do vulcão está passando por uma reorganização importante pouco antes de uma erupção.

A grande novidade está no fato de que esse sinal não é apenas uma oscilação genérica. Ele parece estar ligado ao fraturamento dinâmico das rochas, processo que ocorre quando o magma força caminho no subsolo. Em vez de depender apenas da leitura estatística de vários dados acumulados, o método tenta identificar diretamente um fenômeno físico que antecede a erupção, tornando o aviso mais objetivo e potencialmente mais útil em tempo real.

Os pesquisadores observaram que esses sinais são tão pequenos que chegam à escala de nanômetros por segundo ao cubo. Mesmo assim, ainda podem ser captados por um sismômetro de banda muito larga, desde que o processamento dos dados seja capaz de eliminar interferências e separar o que realmente importa. Isso muda a lógica do monitoramento, porque mostra que um vulcão pode revelar sua preparação para uma erupção de forma muito mais sutil do que se imaginava.

Na prática, o sistema corrige fatores externos, como as marés terrestres, e monitora continuamente a presença desse padrão. Quando o sinal ultrapassa determinado limite, o alerta é disparado automaticamente. O resultado é uma leitura permanente do comportamento interno do vulcão, com foco na fase em que o magma começa a pressionar a estrutura subterrânea antes de alcançar a superfície.

Como o método foi testado durante mais de uma década

A validação do Jerk aconteceu no Piton de la Fournaise, na Ilha da Reunião, um dos vulcões mais monitorados do planeta. O sistema começou a operar em abril de 2014 como parte do monitoramento automatizado do observatório local, utilizando dados de uma estação sismológica instalada a cerca de 8 quilômetros do cume. O primeiro alerta ocorreu em 20 de junho de 2014 e foi emitido 1 hora e 2 minutos antes da erupção.

Ao longo dos dez anos seguintes, o desempenho do sistema chamou atenção. Entre 2014 e 2023, foram registradas 24 erupções no vulcão, e o método conseguiu prever 92% desses eventos. O intervalo entre o alerta e o início da atividade variou bastante: em alguns casos foi de poucos minutos; em outros, chegou a 8,5 horas. Esse alcance temporal é especialmente relevante, porque amplia a chance de resposta por parte de autoridades e equipes de proteção civil.

O mais importante é que o teste não foi feito apenas de forma retrospectiva, com análise posterior dos dados. O Jerk operou em tempo real, automaticamente e sem supervisão direta durante anos, o que dá muito mais peso aos resultados. Em estudos sobre precursores de erupção, é comum que os sinais só pareçam claros depois que tudo já aconteceu. Aqui, o comportamento foi acompanhado enquanto o vulcão seguia ativo, o que aproxima o método de uma aplicação concreta.

Além disso, os pesquisadores também revisaram registros mais antigos do mesmo vulcão, cobrindo 24 erupções entre 1998 e 2010. Nesses episódios, o sinal identificado pelo Jerk também apareceu de forma consistente antes dos eventos eruptivos. Essa repetição fortalece a hipótese de que o fenômeno não é acidental, mas faz parte de um padrão físico associado à movimentação do magma nas fases que antecedem a erupção.

Por que prever uma erupção ainda é tão difícil

Os vulcões geralmente dão sinais de alerta antes de uma erupção. A atividade sísmica pode aumentar, o solo pode se deformar e os gases emitidos podem mudar de volume ou composição. O problema é que esses indícios nem sempre apontam com clareza o momento exato em que a erupção vai começar, quanto tempo vai durar ou qual será sua intensidade. Ter sinais não significa, automaticamente, ter previsões precisas.

Esse é um dos maiores dilemas do monitoramento vulcânico. Um alerta tardio pode comprometer a reação das autoridades e colocar pessoas em risco. Já um alerta falso pode desencadear evacuações caras, interrupções econômicas e perda de confiança da população. Por isso, qualquer nova ferramenta precisa equilibrar sensibilidade e confiabilidade, evitando tanto o silêncio diante do perigo quanto o excesso de alarmes.

Nesse cenário, o Jerk se destaca porque tenta observar um estágio muito específico do processo: o instante em que o magma penetra e pressiona o interior da crosta. Em vez de depender exclusivamente do acúmulo de vários sinais indiretos, o método busca um marcador mais direto do que está acontecendo no subsolo. Quanto mais próximo o sinal estiver do processo físico real que antecede a erupção, maior tende a ser seu valor operacional.

Ainda assim, a previsão de erupção continua longe de ser uma ciência exata. Cada vulcão tem características próprias, com sistemas magmáticos, estruturas geológicas e comportamentos eruptivos diferentes. Um padrão eficiente em um local não necessariamente será reproduzido da mesma forma em outro. Por isso, o avanço é importante, mas precisa ser tratado com a cautela que esse tipo de risco exige.

O que significam os alertas que não terminam em erupção

O sistema apresentou um índice de 14% de alertas que não resultaram em erupção. À primeira vista, isso poderia parecer um problema clássico de falso positivo. Mas a análise mais detalhada mostrou outro cenário: esses avisos estavam ligados a intrusões magmáticas reais, ou seja, o magma de fato se movimentou sob o vulcão, embora não tenha chegado à superfície para produzir uma erupção aberta.

Esses episódios são frequentemente descritos como “erupções abortadas”. Em termos práticos, isso significa que o alarme não identificou um ruído irrelevante, mas um processo vulcânico genuíno interrompido antes da fase final. Essa distinção é fundamental, porque mostra que o sistema pode estar captando corretamente a presença de magma em ascensão, mesmo quando o desfecho não se transforma em erupção visível.

No Piton de la Fournaise, esses sinais puderam ser conferidos com outros parâmetros de monitoramento, como sismicidade, deformação do solo e medições de gases. Em outras palavras, havia confirmação independente de que o vulcão estava passando por uma intrusão magmática. Isso reforça a utilidade do Jerk não apenas como detector de erupção, mas também como ferramenta para identificar fases críticas de pressão subterrânea.

Um exemplo recente citado pelos pesquisadores ocorreu em 5 de dezembro de 2025, durante uma crise sísmica no vulcão. Na ocasião, foi registrado um sinal Jerk fraco, de apenas 0,1 nm/s³, acompanhado por pequenas mudanças de deformação e anomalias de gás. Não houve erupção, mas o episódio confirmou que o magma havia penetrado sob o vulcão. Mesmo sem explosão, o alerta revelou atividade real, o que ajuda a entender melhor o comportamento interno do sistema vulcânico.

O que essa descoberta pode mudar no monitoramento de vulcões

Um dos pontos mais promissores do método é sua simplicidade relativa. Como ele pode funcionar com pouco equipamento, existe a possibilidade de aplicação em vulcões que não contam com uma infraestrutura robusta de monitoramento. Em muitas regiões do mundo, esse é justamente o principal gargalo: há vulcões ativos, mas faltam redes complexas e permanentes de observação. Uma ferramenta mais enxuta pode ampliar muito a capacidade de vigilância.

Os próximos passos já apontam nessa direção. A equipe pretende testar o sistema em outros vulcões ativos, e um dos primeiros alvos será o Monte Etna, na Itália. A partir de 2026, está prevista a instalação de uma nova rede de sismômetros de banda larga para ampliar a detecção de sinais ligados à movimentação do magma. Essa etapa será decisiva para mostrar se o padrão identificado no Piton de la Fournaise pode ser reproduzido em ambientes vulcânicos diferentes.

O avanço também se conecta a outras iniciativas de alerta precoce, como projetos que estudam o uso de cabos de fibra óptica para detectar terremotos e atividade vulcânica. A combinação de diferentes tecnologias pode criar sistemas mais sensíveis e rápidos, capazes de acompanhar com mais precisão a fase que antecede uma erupção. Quanto maior a integração entre sensores e métodos, maior a chance de reduzir incertezas.

No fim, a descoberta não elimina o risco nem resolve sozinha todas as limitações da previsão vulcânica. Mas ela abre uma possibilidade concreta: a de que sinais minúsculos, antes difíceis de interpretar, passem a funcionar como avisos antecipados de um processo destrutivo de grande escala. Isso muda a forma de olhar para o vulcão, porque mostra que a erupção pode começar a se anunciar muito antes do que os olhos conseguem perceber.

Com informações do portal sciencedaily.

A criação de ferramentas como o Jerk ajuda a aproximar a ciência de uma meta que sempre pareceu distante: entender com mais precisão o instante em que um vulcão deixa de ser apenas uma ameaça potencial e passa a caminhar para uma erupção real. E você, acha que sistemas assim podem transformar a prevenção em áreas de risco ou ainda é cedo para confiar nesse tipo de alerta?

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x