Estudo publicado em 13 de fevereiro de 2026 aponta a presença de grandes estruturas em espiral sob a camada de gelo da Groenlândia e sugere que o gelo profundo pode ser até 10 vezes mais macio do que se estimava, com possível impacto sobre modelos de fluxo e projeções do nível do mar
Cientistas identificaram na Groenlândia indícios de um processo oculto no interior da camada de gelo que pode ajudar a explicar como essa massa se movimenta em profundidade e influenciar modelos usados para prever mudanças futuras nas calotas polares e no nível do mar.
Estruturas profundas desafiam a visão tradicional sobre o gelo
A descoberta envolve grandes formações espirais semelhantes a plumas enterradas nas profundezas da vasta camada de gelo da Groenlândia. Essas estruturas vinham intrigando pesquisadores havia mais de dez anos, sem uma explicação consolidada para sua origem.
Agora, cientistas da Universidade de Bergen, na Noruega, afirmam ter encontrado uma explicação ao aplicar modelos matemáticos semelhantes aos usados para estudar a separação lenta dos continentes ao longo do tempo. O trabalho aponta que essas formações podem estar ligadas a um processo de convecção térmica no interior do gelo.
-
Homem faz gambiarra genial com baterias de notebooks e deixa de pagar conta de energia elétrica; sistema caseiro funciona desde 2016 com 650 células reaproveitadas, 24 painéis solares e mais de 10 kWEm
-
Ascensão logística da China acende alerta para infraestrutura brasileira: portos com IA movimentam 47 milhões de TEU, Pequim investe R$ 285 bilhões na África e ameaça até US$ 60 bilhões do agro brasileiro enquanto Santos enfrenta gargalos históricos
-
Nasa foca em fezes de astronautas para alimentar plantas na Lua com sistema de 3 biorreatores capaz de reciclar resíduos, recuperar água e ampliar missões espaciais após alcançar 98% de reaproveitamento na ISS
-
Esqueça a varredeira lenta: China cria caminhão-aspirador que limpa rodovias a até 80 km/h, suga pedras, poeira e metais do asfalto e promete reduzir bloqueios sem parar o trânsito
De acordo com a pesquisa, essa convecção térmica corresponde a um movimento lento e circulatório provocado por diferenças de temperatura entre camadas mais profundas e mais superficiais. Esse tipo de dinâmica costuma ser mais associado ao fluxo de calor no manto terrestre do que ao comportamento de grandes massas de gelo.
Andreas Born, professor do Centro Bjerknes de Pesquisa Climática e do Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Bergen, afirmou que a constatação contraria a forma mais comum de pensar sobre o gelo. Segundo ele, normalmente o gelo é visto como um material sólido, o que torna surpreendente a observação de que partes da camada de gelo da Groenlândia possam sofrer convecção térmica.
Convecção térmica aparece como explicação para o movimento oculto
Born, que estuda camadas de gelo no hemisfério norte há mais de 15 anos e assina o estudo como coautor, relacionou o fenômeno a um comportamento comparável ao de uma panela de macarrão fervendo. A comparação foi usada para ilustrar o fato de que partes do gelo podem se agitar lentamente em profundidade, apesar da aparência rígida da superfície.
O primeiro autor do estudo, o glaciologista Robert Law, também destacou o caráter incomum da descoberta. Segundo ele, a ideia de que a convecção térmica possa ocorrer dentro de uma camada de gelo vai contra a intuição e as expectativas mais usuais sobre esse material.
Law afirmou que, embora pareça inesperado, a física sustenta esse comportamento. Segundo o pesquisador, o gelo é pelo menos um milhão de vezes mais macio que o manto da Terra, o que permite que as mesmas leis físicas se apliquem, ainda que em um contexto considerado por ele como uma “aberração da natureza”.
O estudo foi publicado na revista The Cryosphere e acabou selecionado como “artigo de destaque” pela relevância atribuída ao trabalho. A pesquisa leva o título “Explorando as condições propícias à convecção na camada de gelo da Groenlândia” e foi publicada em 13 de fevereiro de 2026.
O que o estudo indica sobre a camada de gelo da Groenlândia
Os resultados sugerem que o gelo nas profundezas do norte da Groenlândia pode ser cerca de dez vezes mais macio do que se supunha anteriormente.
A equipe investigou justamente se as grandes estruturas em forma de pluma vistas no interior da camada de gelo poderiam ser explicadas pela convecção térmica e o que isso revelaria sobre a maciez e o movimento do gelo.
Segundo os pesquisadores, essas estruturas provavelmente são produzidas por um processo lento de agitação interna, impulsionado por diferenças de temperatura. A conclusão reforça a hipótese de que o interior da camada de gelo não é estático, mas submetido a mecanismos físicos mais complexos do que se imaginava.
Ainda assim, os autores ressaltam que o fato de o gelo profundo ser mais macio não significa automaticamente um derretimento mais rápido. Law afirmou que aprimorar a compreensão da física do gelo é importante para aumentar a segurança das projeções sobre o futuro, mas ponderou que mais estudos são necessários para isolar completamente essa questão.
Ele destacou que, por si só, o gelo mais macio não quer dizer necessariamente que a elevação do nível do mar será maior. A cautela apresentada pelos autores acompanha a avaliação de que o estudo amplia o conhecimento sobre a dinâmica interna da camada de gelo, mas não permite transformar a descoberta em um sinal direto de aceleração imediata do derretimento.
Impacto da descoberta para modelos e previsões futuras
Para Andreas Born, a principal contribuição do trabalho está no potencial de melhorar os modelos científicos usados para calcular o balanço de massa das calotas polares e projetar a elevação futura do nível do mar. Segundo ele, a descoberta pode ser fundamental para reduzir incertezas nessas projeções.
Como o gelo mais macio influencia o fluxo da camada de gelo, os resultados podem ajudar a aperfeiçoar previsões sobre como essas grandes massas se comportarão nas próximas décadas. O estudo não apresenta a descoberta como evidência de crise iminente, mas como um passo relevante para compreender um sistema natural complexo.
Law observou que a Groenlândia costuma aparecer no noticiário por temas ligados à mineração, à geopolítica e às preocupações climáticas. Neste caso, porém, ele afirmou que o principal significado da pesquisa está em revelar a complexidade e o dinamismo da camada de gelo.
O pesquisador também destacou características singulares da Groenlândia, dizendo que sua natureza é especial e que a camada de gelo local tem mais de mil anos. Segundo ele, trata-se da única camada de gelo da Terra que possui cultura e população permanente em suas margens, o que reforça a importância de compreender os processos ocultos que ocorrem no interior desse sistema.
Equipe internacional participou da pesquisa
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Bergen, por meio do Departamento de Ciências da Terra e do Centro Bjerknes para Pesquisa Climática. A pesquisa também contou com a colaboração de especialistas do Centro de Voos Espaciais Goddard, da NASA, da Universidade de Oxford e da ETH Zurich.
Além de Robert Law e Andreas Born, o trabalho tem a participação de Philipp Voigt, Joseph A. MacGregor e Claire Marie Guimond. A publicação apresenta como ponto central a análise das condições que favorecem a convecção dentro da camada de gelo da Groenlândia e as implicações desse processo para a maciez do gelo profundo.
Na avaliação expressa pelos autores, quanto maior for o conhecimento sobre os processos escondidos no interior do gelo, melhor será a preparação para mudanças que poderão atingir litorais ao redor do mundo.
A pesquisa, assim, coloca a Groenlândia no centro de uma nova frente de investigação científica sobre o funcionamento interno das grandes camadas de gelo.

-
-
-
-
17 pessoas reagiram a isso.