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Cientistas descobrem que a humanidade trocou um desastre ambiental por outro: os mesmos produtos químicos que salvaram a camada de ozônio agora contaminam rios, aquíferos e sangue humano com um poluente eterno impossível de remover

Publicado em 27/03/2026 às 23:50
Substitutos dos CFCs criaram um novo desastre ambiental: o TFA, poluente eterno, já causa contaminação em rios e sangue humano após salvar a camada de ozônio.
Substitutos dos CFCs criaram um novo desastre ambiental: o TFA, poluente eterno, já causa contaminação em rios e sangue humano após salvar a camada de ozônio.
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Um estudo revela que os substitutos dos CFCs já depositaram 335 mil toneladas de TFA na superfície da Terra. A contaminação por esse poluente eterno atinge rios, aquíferos e sangue humano em um novo desastre ambiental silencioso que expõe os limites da solução adotada para proteger a camada de ozônio.

A eliminação dos clorofluorcarbonos foi celebrada durante décadas como uma das maiores conquistas ambientais da humanidade. O Protocolo de Montreal funcionou, a camada de ozônio está se recuperando e a história parecia encerrada com um final positivo. Mas pesquisadores da Universidade de Lancaster acabam de mostrar que a humanidade pode ter trocado um desastre ambiental por outro mais silencioso, mais lento e potencialmente mais difícil de resolver.

O estudo, publicado na revista Geophysical Research Letters, revela que os substitutos dos CFCs os mesmos produtos químicos adotados para proteger a camada de ozônio se decompõem na atmosfera e geram ácido trifluoroacético, conhecido como TFA, um poluente eterno da família dos PFAS que já contamina rios, aquíferos, água da chuva, alimentos e até o sangue humano. A estimativa é que cerca de 335.500 toneladas métricas de TFA foram depositadas na superfície terrestre entre 2000 e 2022, e a carga continua aumentando ano após ano.

O que é o TFA e por que ele é considerado um poluente eterno

O ácido trifluoroacético é uma molécula de ácido fluorado que pertence à mesma família dos PFAS os chamados “químicos eternos” porque resistem à decomposição na natureza. Uma vez formado, o TFA se dissolve facilmente na água, se move com rios e águas subterrâneas e é extremamente difícil de remover com estações de tratamento convencionais.

Diferentemente de poluentes industriais que se degradam lentamente ou se fixam a sedimentos, o TFA permanece em circulação indefinidamente. Essa característica faz dele um tipo particularmente preocupante de contaminante ambiental.

Os pesquisadores de Lancaster estimam que os substitutos dos CFCs e certos gases anestésicos já depositaram aproximadamente um terço de milhão de toneladas de TFA no planeta, e o volume acumulado só tende a crescer, já que os gases de origem podem permanecer na atmosfera por décadas antes de se decomporem.

Como gases que protegem a camada de ozônio viram um desastre ambiental

O mecanismo é direto. Quando o mundo abandonou os CFCs, a indústria passou a usar outros gases fluorados HCFCs e HFCs em refrigeradores, bombas de calor e aparelhos de ar-condicionado.

Esses substitutos causam muito menos danos à camada de ozônio, mas muitos deles se decompõem em TFA nas altas camadas da atmosfera, e o poluente retorna à Terra com a chuva ou se deposita diretamente na terra e na água.

Na prática, cada vez que um refrigerador de supermercado funciona ou um ar-condicionado é ligado em uma noite quente de verão, uma pequena parte da cadeia de refrigeração contribui para essa chuva química lenta. Não se trata de um vazamento dramático, mas de uma garoa constante que se acumula silenciosamente ano após ano.

O modelo global desenvolvido pelos pesquisadores sugere que a produção anual de TFA a partir desses produtos químicos pode atingir seu pico a qualquer momento entre agora e o final deste século, mesmo com a redução gradual do uso desses gases.

Do gelo do Ártico ao sangue humano: onde o TFA já foi encontrado

Um dos resultados mais reveladores do estudo é que medições feitas em núcleos de gelo do Ártico a milhares de quilômetros de qualquer fábrica confirmam que quase todo o TFA retido no gelo pode ser explicado pela decomposição dos substitutos dos CFCs transportados pelo vento ao redor do globo. A contaminação não é local; é planetária.

Mais perto de onde as pessoas vivem, campanhas de monitoramento encontraram TFA na água da chuva, em rios, em águas minerais engarrafadas, em alimentos à base de cereais e até no sangue e no leite materno humanos.

Um relatório da Pesticide Action Network Europe documentou contaminação em aquíferos profundos usados para abastecimento de água engarrafada na Europa, enquanto outros estudos mediram a presença do composto em água de torneira e em produtos alimentícios em diversos países.

O cenário configura um desastre ambiental em câmera lenta que só agora começa a ser dimensionado.

O que dizem os órgãos reguladores sobre o risco à saúde

A posição dos reguladores ainda é ambígua. A Agência Europeia de Produtos Químicos classifica o TFA esse poluente eterno como prejudicial à vida aquática, com efeitos duradouros.

O Departamento Federal de Produtos Químicos da Alemanha propôs rotulá-lo como potencialmente tóxico para a reprodução humana, o que elevaria significativamente o nível de alerta sobre o composto.

Ao mesmo tempo, uma revisão da Agência Austríaca para a Saúde e Segurança Alimentar constatou exposição humana clara em contextos médicos e ambientais, mas nenhum dano clínico consistente nos níveis ambientais atuais embora os dados disponíveis sejam limitados.

A autora principal do estudo de Lancaster, Lucy Hart, afirma que os substitutos dos CFCs provavelmente são a principal fonte atmosférica de TFA, e o coautor Ryan Hossaini argumenta que os níveis crescentes de gases fluorados são generalizados, persistentes e estão aumentando.

A nova geração de refrigerantes pode piorar o desastre ambiental

O estudo destaca ainda que a geração mais recente de refrigerantes, conhecidos como HFOs especialmente o HFO-1234yf, usado em sistemas de ar-condicionado automotivos é uma fonte atmosférica emergente e provavelmente crescente de TFA.

Isso significa que a transição para gases com menor potencial de aquecimento global pode estar ampliando o problema da contaminação por poluentes eternos.

A questão levanta um dilema incômodo para as políticas ambientais. Se um gás nocivo é substituído por outro sem verificar o que acontece ao longo de todo o seu ciclo de vida, a humanidade está resolvendo o problema ou apenas mudando sua forma?

Para a maioria das pessoas, esse desastre ambiental nunca será tão visível quanto o buraco na camada de ozônio foi. No entanto, os pesquisadores alertam que a extrema persistência do TFA significa que decisões tomadas hoje sobre refrigerantes e produtos químicos terão repercussões em rios, solos e fontes de água potável por gerações.

O que você acha dessa descoberta? Acredita que governos e indústrias vão agir a tempo ou estamos repetindo o padrão de criar um problema novo ao resolver o anterior? Deixe sua opinião nos comentários.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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