Um registro esquecido por décadas revela como soavam os oceanos antes da era do ruído industrial e por que esse som antigo pode mudar a ciência marinha
Durante décadas, o canto das baleias despertou fascínio, curiosidade científica e até aplicações inesperadas. Ele já foi estudado para fins de conservação ambiental, usado em pesquisas sobre comunicação animal, explorado como ferramenta para relaxamento e sono, e até enviado ao espaço como uma das representações sonoras da vida na Terra. No entanto, ninguém imaginava que um dos registros mais importantes desse fenômeno estivesse guardado em silêncio desde 1949.
A descoberta aconteceu quando arquivistas da Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI) analisavam antigos discos de áudio conhecidos como audograph discs. Inicialmente, o material parecia apenas mais um registro técnico de experimentos acústicos do pós-guerra. Contudo, ao reproduzir o som, os pesquisadores perceberam que estavam diante de algo extraordinário: o canto de uma baleia registrado há mais de 75 anos, possivelmente o mais antigo já documentado no mundo.
A informação foi divulgada por publicações científicas internacionais e por canais ligados à própria instituição, com base em análises técnicas realizadas a partir do acervo histórico do WHOI, reacendendo o debate sobre como o oceano soava antes da intensificação das atividades humanas.
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Como uma gravação militar de 1949 se transformou no mais antigo canto de baleia já identificado
Para entender a importância dessa descoberta, é preciso voltar no tempo. O disco foi gravado por pesquisadores a bordo do navio R/V Atlantis, que, à época, realizavam experimentos acústicos em parceria com o Office of Naval Research dos Estados Unidos. Esses testes incluíam medições do volume de explosivos subaquáticos e avaliações iniciais de sistemas de sonar, tecnologias consideradas estratégicas no período pós-Segunda Guerra Mundial.
Naquele momento, os cientistas não tinham a intenção de registrar sons de animais marinhos. Ainda assim, o equipamento captou algo inesperado. Décadas depois, ao revisitar o material, os arquivistas do WHOI não conseguiram identificar imediatamente o som. Foi somente após uma colaboração com a Ocean Alliance que o mistério começou a ser solucionado.
A gravação foi comparada com um arquivo que reúne mais de 2.400 registros sonoros de baleias e outros ruídos oceânicos, coletados entre as décadas de 1950 e 1990. A partir dessa análise detalhada, os pesquisadores confirmaram que o som registrado em 7 de março de 1949, próximo às ilhas Bermudas, pertence ao canto de uma baleia-jubarte.
Segundo Laela Sayigh, bioacústica marinha e pesquisadora sênior do WHOI, dados desse período praticamente não existem. Em declaração oficial, ela explicou que o oceano atual é muito mais ruidoso, com um aumento significativo tanto no número quanto na diversidade de fontes sonoras. Por isso, esse registro antigo funciona como uma linha de base histórica, permitindo comparar como os sons das baleias mudaram ao longo do tempo.
Por que essa gravação sobreviveu e o que ela revela sobre o futuro da pesquisa oceânica
O motivo pelo qual essa gravação resistiu ao tempo está diretamente ligado à tecnologia utilizada. O som foi registrado com um Gray Audograph, um equipamento que grava áudio ao entalhar fisicamente o som em discos de plástico, em vez de utilizar fitas magnéticas. Esse método, embora rudimentar para os padrões atuais, acabou sendo decisivo para a preservação do material, já que muitas gravações em fita se degradaram ao longo das décadas.
Além disso, o dispositivo provavelmente fazia parte do chamado “WHOI suitcase”, um dos primeiros sistemas portáteis de gravação acústica subaquática já desenvolvidos. Curiosamente, como os pesquisadores originais não compreenderam exatamente o que estavam ouvindo, o disco não foi catalogado corretamente e permaneceu armazenado por quase 80 anos, sem chamar atenção.
Para Ashley Jester, diretora de Serviços de Dados de Pesquisa e Biblioteca do WHOI, a sobrevivência desses discos é resultado tanto do material quanto da preservação cuidadosa. Segundo ela, o acervo reflete uma cadeia contínua de curiosidade científica: primeiro dos engenheiros que gravaram sons inexplicáveis e, agora, dos arquivistas determinados a entender seu significado.
Atualmente, o canto das baleias é uma ferramenta essencial para compreender como esses animais se comunicam a longas distâncias. Estudos mostram, por exemplo, que cachalotes utilizam sons semelhantes a vogais, formando algo comparável a um alfabeto fonético, enquanto baleias-azuis alteram a frequência de seus cantos para evitar que orcas detectem seus filhotes.
De acordo com Peter Tyack, bioacústico marinho e pesquisador emérito do WHOI, gravações subaquáticas são fundamentais para proteger populações vulneráveis. Elas permitem detectar baleias mesmo quando não podem ser vistas e, ao mesmo tempo, monitorar como ruídos de navios, atividades industriais e tráfego marítimo alteram a paisagem sonora dos oceanos, afetando a navegação, a comunicação e a sobrevivência desses animais.
Recentemente, o WHOI recebeu financiamento para digitalizar toda a sua coleção de audograph discs. Quando o processo for concluído, o material ficará acessível tanto para pesquisadores quanto para o público em geral, ampliando o impacto científico e educativo desse acervo histórico.
Segundo Jester, preservar dados no momento em que são criados é um investimento no futuro da ciência. Esses registros, mesmo quando parecem incompreensíveis à primeira vista, podem se tornar peças-chave décadas depois.
Fonte: iflscience


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