Cientistas cidadãos identificam três novos ORCs em aglomerados distantes, elevando registros globais, detalhando estruturas de rádio gigantes invisíveis em outras frequências e reforçando vínculos entre jatos de buracos negros extremos
Cientistas cidadãos identificaram três novos círculos de rádio estranhos, conhecidos como ORCs, em aglomerados de galáxias distantes, ampliando o número desses objetos raros e oferecendo novas pistas sobre sua formação e importância cósmica.
Os ORCs foram identificados pela primeira vez em 2019 por Anna Kapinska, do Observatório Nacional de Radioastronomia, durante a análise de dados do Australian Square Kilometre Array Pathfinder, conhecido como ASKAP.
Essas estruturas colossais podem atingir dimensões até 50 vezes maiores que a Via Láctea, que possui aproximadamente 100.000 anos-luz de diâmetro, revelando escalas pouco comuns mesmo em padrões astronômicos.
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Apesar do tamanho extremo, os ORCs permanecem invisíveis em comprimentos de onda ópticos, infravermelhos e de raios X, sendo detectáveis apenas por observações feitas com radiotelescópios sensíveis.
Para Ananda Hota, da Universidade de Mumbai, que liderou a pesquisa, essas estruturas estão entre as mais enigmáticas já observadas, podendo revelar informações cruciais sobre a coevolução de galáxias e buracos negros.
Até o momento, apenas oito ORCs haviam sido confirmados em todo o universo observável, número que torna cada nova detecção particularmente relevante para o avanço do conhecimento astronômico.

Ciência cidadã amplia o alcance das descobertas cósmicas
As três novas identificações foram possíveis graças à atuação de cientistas cidadãos que analisaram dados no RAD@home Astronomy Collaboratory, a primeira plataforma de ciência cidadã da Índia, idealizada por Hota.
Os participantes examinaram grandes volumes de informações de rádio e sinalizaram padrões incomuns, permitindo que pesquisadores profissionais conduzissem análises mais detalhadas das estruturas suspeitas.
Após essa triagem inicial, os sinais de rádio foram confirmados pelo LOFAR, um conjunto de antenas de baixa frequência distribuídas pela Europa Ocidental e centradas na Holanda.
Esse processo colaborativo mostrou que a análise humana ainda desempenha papel decisivo na identificação de padrões complexos, mesmo em um cenário dominado por algoritmos automatizados.
Segundo Pratik Dabhade, do Centro Nacional de Pesquisa Nuclear em Varsóvia, a participação cidadã reforça a importância contínua da percepção humana na astronomia moderna.
ORCs gêmeos revelam sistema extremo e distante
Um dos ORCs recém-descobertos é composto por dois anéis gigantes em expansão, cada um com 978.000 anos-luz de diâmetro, envolvidos por emissão difusa ainda mais extensa.
Essa névoa de rádio alcança 2,6 milhões de anos-luz de diâmetro e está conectada a uma radiogaláxia gigante catalogada como RAD J131346.9+500320.
Localizado a cerca de 7 bilhões de anos-luz de distância, com desvio para o vermelho de 0,94, esse é o sistema de ORC mais distante e poderoso já identificado.
Trata-se apenas da segunda vez que ORCs gêmeos são observados, indicando eventos energéticos excepcionais na história dessa galáxia distante e massiva.
A equipe liderada por Hota suspeita que os anéis sejam relíquias de uma explosão anterior, atualmente reenergizadas por um supervento associado a um buraco negro ativo.
Estruturas ligadas a jatos de buracos negros
Outras duas grandes estruturas em forma de anel foram encontradas em radiogaláxias gigantes mais próximas, ambas situadas a cerca de 1,3 bilhão de anos-luz de distância.
Nesses casos, os ORCs parecem estar diretamente associados a jatos de rádio emanados dos núcleos galácticos, onde residem buracos negros supermassivos ativos.
Esses jatos são feixes de partículas carregadas que, ao interagir com campos magnéticos, produzem emissão de rádio por meio da radiação síncrotron.
Em uma das galáxias, catalogada como RAD J122622.6+640622, a emissão difusa se estende por cerca de 3 milhões de anos-luz, formando uma estrutura colossal.
Um dos jatos nessa galáxia curva-se lateralmente e retorna em direção ao núcleo, terminando em um anel de emissão de rádio com 100.000 anos-luz de diâmetro.
Na outra radiogaláxia gigante, RAD J142004.0+621715, com emissão total de 1,4 milhão de anos-luz, um jato semelhante também culmina em um grande anel.

Ambiente dos aglomerados molda os anéis de rádio
As três galáxias compartilham o fato de estarem inseridas em aglomerados galácticos massivos, preenchidos por uma densa névoa de plasma quente conhecida como meio intracúmulo.
Especialmente nos dois sistemas mais próximos, os jatos de rádio parecem interagir intensamente com esse meio, influenciando diretamente a forma dos jatos e dos anéis.
Essa interação sugere que os ORCs não surgem isoladamente, mas resultam de processos dinâmicos entre buracos negros, jatos energéticos e ambientes galácticos densos.
Para Dabhade, essas estruturas fazem parte de uma família mais ampla de formações exóticas de plasma, moldadas por ventos, jatos e condições ambientais extremas.
Perspectivas futuras para novas descobertas
Os resultados reforçam o valor da ciência cidadã em um período em que a inteligência artificial assume papel crescente na análise de grandes volumes de dados astronômicos.
Mesmo assim, o reconhecimento humano de padrões continua sendo decisivo para revelar fenômenos raros, como demonstrado pelas novas detecções de ORCs recentes.
Olhando adiante, espera-se que muitos outros ORCs sejam identificados pelo Square Kilometre Array, uma vasta rede de radiotelescópios na África do Sul e Austrália.
Com entrada em operação prevista para o início da década de 2030, o projeto deverá ampliar significativamente o catálogo dessas estruturas, aprofundando a compreensão sobre sua origem e evoluçao.
Os resultados detalhados dessas descobertas foram publicados em 2 de outubro na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, consolidando mais um avanço na exploração do universo invisível ao olho humano.
Com informações de Space.com.

