Apagões frequentes, infraestrutura antiga e uma obra submarina sem precedentes que promete mudar o futuro energético da cidade: La Gomera conviveu por anos com apagões totais e agora aposta em um cabo único no mundo para evitar que a ilha volte a ficar às escuras
La Gomera sofreu, ao longo dos últimos anos, sucessivos apagões totais que afetaram moradores, comércios e serviços essenciais, especialmente em episódios registrados entre 2023 e 2026, até que uma solução inédita começou a ser implantada nas Ilhas Canárias: um cabo único no mundo, instalado no fundo do oceano, capaz de conectar a ilha a Tenerife e reduzir de forma drástica o risco de novos colapsos energéticos.
A interrupção mais recente ocorreu em um domingo marcado por ventos fortes, às 12h13, quando toda a ilha ficou sem energia.
Relógios pararam, telas apagaram e 15.610 pontos de média e baixa tensão foram afetados. O problema não ficou restrito à iluminação.
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Um sistema isolado que entrou em colapso mais de uma vez
A repetição dos apagões em La Gomera não é fruto do acaso. A ilha opera como um sistema elétrico isolado, dependente quase exclusivamente da central termoelétrica de El Palmar. Quando um dos geradores apresenta falha, todo o sistema entra em risco.
Segundo informações divulgadas pela Rádio e Televisão Canária, a origem do apagão mais recente foi uma desestabilização em um dos geradores.
Esse tipo de falha provoca o chamado efeito cascata, quando os demais equipamentos são desligados automaticamente por segurança, resultando em um apagão total.
O presidente do Cabildo de La Gomera, Casimiro Curbelo, foi direto ao apontar o problema. Um dos motores é antigo e sua deterioração compromete toda a rede.
A empresa Endesa informou que as causas exatas seguem em investigação, mas a idade da infraestrutura é tratada como fator central.
Uma recuperação rápida que não elimina o risco estrutural
Diferente do apagão de julho de 2023, que deixou a ilha sem energia por três dias e gerou uma multa de 12,1 milhões de euros à concessionária, a resposta técnica desta vez foi mais ágil. Em apenas 17 minutos, o fornecimento começou a ser restabelecido.
A retomada, porém, precisou ser gradual. O então ministro da Transição Ecológica e Energia, Mariano Hernández Zapata, explicou que religar toda a carga de uma vez poderia provocar um novo colapso.
O serviço só foi totalmente normalizado por volta das 15h25, quase três horas depois, com alerta para pequenas interrupções pontuais.
O cabo único no mundo que promete mudar a história da ilha
No centro dessa transformação está um projeto considerado histórico pela engenharia elétrica europeia. A Red Eléctrica de España iniciou a instalação do cabo CA trifásico mais profundo do planeta, atingindo 1.145 metros no leito marinho.
São 36 quilômetros de extensão ligando as subestações de Chío, em Tenerife, e El Palmar, em La Gomera. O cabo opera a 66 kV e funciona como um verdadeiro cordão umbilical energético entre as ilhas.
Com ele, La Gomera poderá receber até 50 MVA de energia externa em caso de falha local. Isso significa que um problema em um único gerador não será mais suficiente para apagar toda a ilha.
Energia mais estável e espaço para fontes renováveis
Além de aumentar a segurança energética, o cabo único no mundo abre caminho para a integração de fontes renováveis. A interligação permite que a energia limpa produzida em uma ilha seja compartilhada com a outra, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis e ajudando no cumprimento das metas de descarbonização das Ilhas Canárias.
O modelo atual, baseado em geração isolada, será substituído por uma rede interconectada, mais flexível e resistente a falhas.
Uma solução que chegou tarde, mas ainda é essencial
O cronograma inicial previa a conclusão da interligação até o fim de 2025. Com o início de 2026, moradores perceberam que a obra ainda não estava plenamente operacional.
Até a finalização das conexões e a entrada em funcionamento prevista para o primeiro trimestre do ano, La Gomera segue vulnerável.
Mesmo com protocolos de emergência mais eficientes, o sentimento de incerteza permanece. Autoridades regionais acompanham a situação de perto, conscientes de que cada apagão afeta a economia local e a imagem turística da ilha.
O cabo submarino, no entanto, é visto como a única garantia real de que um motor antigo não volte a silenciar La Gomera inteira.
