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Cidade na Índia transforma lixo em moeda: 1 kg de garrafas e embalagens plásticas vira refeição completa em “café do lixo” que já retirou 23 toneladas das ruas e virou arma contra fome, poluição e aterros

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Escrito por Ana Alice Publicado em 02/06/2026 às 23:34
Assista o vídeoGarbage Café de Ambikapur troca plástico por refeições e vira exemplo de limpeza urbana na Índia após elogio de Narendra Modi no rádio. (Imagem: Ilustrativa)
Garbage Café de Ambikapur troca plástico por refeições e vira exemplo de limpeza urbana na Índia após elogio de Narendra Modi no rádio. (Imagem: Ilustrativa)
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Projeto citado por Narendra Modi transforma resíduos plásticos em refeições na cidade indiana de Ambikapur e voltou ao debate por unir limpeza urbana, reaproveitamento de materiais e apoio alimentar a pessoas em vulnerabilidade.

O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, citou o Garbage Café, de Ambikapur, no estado de Chhattisgarh, como exemplo de iniciativa municipal voltada à redução do descarte irregular de plástico.

O projeto permite que moradores entreguem resíduos plásticos e recebam comida em troca: 1 quilo dá direito a uma refeição completa, enquanto meio quilo pode ser trocado por um lanche ou café da manhã.

A menção ocorreu no 127º episódio do programa de rádio “Mann Ki Baat”, transmitido em 26 de outubro de 2025.

A proposta passou a circular novamente no noticiário indiano porque combina duas frentes de política pública: manejo de resíduos urbanos e oferta de alimentação a pessoas em situação de vulnerabilidade.

Na prática, o plástico descartado deixa de ser apenas um problema para a limpeza da cidade e passa a integrar um sistema de coleta, pesagem e encaminhamento para reaproveitamento.

Como funciona o Garbage Café em Ambikapur

O Garbage Café é operado pela administração municipal de Ambikapur.

No modelo descrito pelo governo indiano e por veículos locais, moradores entregam plástico descartado em pontos definidos e recebem alimento conforme a quantidade recolhida.

Quem apresenta 1 quilo de resíduos pode receber almoço ou jantar; com meio quilo, a troca é feita por uma opção menor, como um lanche.

Quando foi anunciado, em 2019, o projeto tinha como público principal pessoas sem recursos para comprar refeições, além de catadores e moradores dispostos a recolher plástico das ruas.

À época, o então prefeito Ajay Tirkey afirmou à Thomson Reuters Foundation que qualquer pessoa poderia doar plástico e que o café seria administrado principalmente por mulheres.

As primeiras informações sobre o serviço mencionavam pratos comuns na alimentação indiana, como arroz, curry, lentilhas e papadams.

Para volumes menores de plástico, a troca poderia envolver itens de café da manhã, entre eles samosas, bolinhos de lentilha e pães recheados.

O formato aproxima a coleta de resíduos de uma recompensa imediata, sem depender de mecanismos complexos para engajar a população.

O funcionamento, no entanto, depende de uma estrutura pública por trás da troca.

O plástico precisa ser recebido, pesado, separado e encaminhado para reciclagem ou outras formas de reaproveitamento.

Sem essa etapa, a entrega de comida teria efeito limitado sobre a gestão ambiental da cidade.

Imagem: Ritesh Saini / Corporação Municipal de Ambikapur
Imagem: Ritesh Saini / Corporação Municipal de Ambikapur

Cidade indiana ganhou destaque por limpeza urbana

Ambikapur já aparecia em programas nacionais de limpeza urbana antes da criação do café.

A cidade adotou coleta porta a porta e separação de resíduos com participação de mulheres organizadas em grupos de trabalho, o que ajudou o município a ganhar visibilidade em rankings indianos de saneamento e limpeza.

Em 2020, o governo da Índia informou que Ambikapur estava entre as cidades classificadas com cinco estrelas no protocolo nacional de “cidades livres de lixo”.

A lista também incluía Indore, Navi Mumbai, Surat, Rajkot e Mysuru, municípios avaliados por critérios ligados ao manejo de resíduos sólidos.

Nesse contexto, o Garbage Café funciona como uma ação complementar à política local de limpeza.

A troca por alimento não substitui a coleta regular nem resolve isoladamente o problema do plástico, mas cria um incentivo adicional para que resíduos descartados em vias públicas entrem no sistema formal de manejo.

A iniciativa também se diferencia de campanhas educativas tradicionais porque oferece uma contrapartida concreta a quem recolhe o material.

Para a administração municipal, o modelo permite reforçar a coleta seletiva; para parte da população, representa acesso imediato a uma refeição.

Projeto voltou ao debate após fala de Narendra Modi

A fala de Modi deu nova projeção ao Garbage Café ao apresentá-lo como uma experiência local de combate à poluição plástica.

Durante o “Mann Ki Baat”, o primeiro-ministro destacou que o projeto permite trocar resíduos por comida e associou a iniciativa à participação dos moradores de Chhattisgarh em ações de limpeza urbana.

Jornais indianos, como o Times of India, repercutiram a declaração e retomaram os detalhes do funcionamento do café.

As reportagens destacaram a regra de troca por peso e a atuação da Corporação Municipal de Ambikapur na condução do projeto.

O tema se insere em uma discussão nacional mais ampla.

Desde 1º de julho de 2022, a Índia proíbe a fabricação, importação, armazenamento, distribuição, venda e uso de determinados plásticos descartáveis de baixa utilidade e alto potencial de poluição, como talheres, copos, canudos e outros itens de uso único.

Mesmo com a proibição, o volume de resíduos plásticos continua elevado.

Dados informados ao Parlamento indiano apontam que o país gerou 4.136.188,83 toneladas de resíduos plásticos no ano financeiro de 2022-23.

O dado corresponde às informações repassadas por conselhos estaduais de controle de poluição e comitês responsáveis pelo monitoramento ambiental.

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Plástico recolhido entra na política urbana

A experiência de Ambikapur é frequentemente citada porque transforma a coleta de plástico em uma troca direta e mensurável.

O morador recolhe o resíduo, entrega o material, passa por pesagem e recebe alimento.

Ao mesmo tempo, a cidade ganha uma via adicional para retirar plástico das ruas e encaminhá-lo a etapas posteriores de tratamento.

Reportagens publicadas desde a criação do café indicam que Ambikapur já utilizava a venda de plástico e papel reciclado como parte de sua política de manejo de resíduos.

A cidade também foi associada ao uso de plástico em obras viárias, prática adotada em diferentes regiões da Índia como alternativa para reaproveitar parte desse material.

A descrição técnica exige cuidado.

Estradas desse tipo não são feitas apenas de plástico.

Em geral, resíduos triturados entram na composição de misturas usadas na pavimentação, junto de materiais convencionais.

Por isso, a formulação mais precisa é dizer que o plástico pode ser incorporado a obras de infraestrutura, e não que substitui integralmente todos os componentes de uma via.

Na rotina urbana, a troca proposta pelo café cria uma relação direta entre descarte, coleta e recompensa.

Esse tipo de ação não elimina a necessidade de políticas maiores, como redução na produção de embalagens, fiscalização de itens proibidos e ampliação da reciclagem, mas atua em uma etapa visível do problema: o resíduo que chega às ruas.

Iniciativa une alimentação e combate ao lixo plástico

O Garbage Café também passou a ser observado por reunir temas normalmente tratados em áreas separadas da administração pública.

De um lado, há o combate ao descarte irregular de plástico; de outro, a oferta de alimentação a pessoas em situação de pobreza.

A junção das duas frentes ajuda a explicar a repercussão da iniciativa dentro e fora da Índia.

Especialistas em gestão de resíduos costumam apontar que programas locais têm maior chance de adesão quando a população entende o benefício prático da participação.

No caso de Ambikapur, a regra por peso torna o processo visível e fácil de acompanhar, o que reduz a distância entre o ato de recolher plástico e o resultado obtido.

A experiência, porém, depende de continuidade administrativa.

Para manter o funcionamento, o município precisa financiar as refeições, organizar o recebimento dos resíduos e garantir destinação adequada ao material recolhido.

Caso essas etapas falhem, a iniciativa perde parte de sua finalidade ambiental.

A replicação em outras cidades também exigiria adaptação.

Municípios com alta geração de resíduos, baixa estrutura de coleta ou pouca capacidade de triagem teriam de resolver esses pontos antes de adotar um modelo semelhante.

A comida, nesse caso, é apenas a face mais visível de uma engrenagem que envolve logística, saneamento, orçamento público e participação social.

Ao voltar ao noticiário, o Garbage Café reforça uma questão discutida em diferentes países: como tornar a redução de resíduos mais próxima da rotina das pessoas.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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