1. Início
  2. / Ciência e Tecnologia
  3. / China virou o jogo do lixo: aterro previsto para 50 anos lotou em 2019, país apostou em usinas WTE a 850°C, quase zerou lixões e na prática agora falta lixo
Tempo de leitura 11 min de leitura Comentários 1 comentário

China virou o jogo do lixo: aterro previsto para 50 anos lotou em 2019, país apostou em usinas WTE a 850°C, quase zerou lixões e na prática agora falta lixo

Escrito por Carla Teles
Publicado em 17/01/2026 às 21:54
Assista o vídeoChina virou o jogo do lixo aterro previsto para 50 anos lotou em 2019, país apostou em usinas WTE a 850°C, quase zerou lixões e na prática agora falta lixo (1)
China quase zerou lixões ao transformar lixo e resíduos em energia em usinas modernas; entenda o impacto ambiental e o que isso inspira para o Brasil.
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
26 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

China quase zerou lixões ao apostar em usinas que queimam resíduos a 850 ºC, geram energia elétrica, quase acabam com aterros e criam um cenário em que, em algumas regiões, o desafio é encontrar lixo para alimentar as usinas.

Todos os dias, cada brasileiro produz em média 1 kg de lixo. Pode parecer pouco quando olhamos para uma única casa, mas vira um problema gigantesco quando somamos bairros, cidades inteiras e milhões de habitantes. Em um país do tamanho da China, com mais de 1,4 bilhão de pessoas e algumas das maiores metrópoles do planeta, a gestão de resíduos virou questão de sobrevivência urbana. Nesse contexto, a China quase zerou lixões ao mudar a forma de lidar com o lixo e transformar um passivo ambiental em fonte de energia.

O caso do aterro de Jiang Kungu, em Xian, mostra a dimensão do desafio. Inaugurado em 1994 para funcionar por 50 anos, ele deveria receber resíduos até meados desta década. Na prática, lotou em 2019, pouco mais de duas décadas depois de aberto. O que era para ser uma solução de longo prazo virou um alerta sobre o colapso do modelo baseado em lixões e aterros sanitários. Poucos anos depois, o cenário mudou tanto que a China passou de excesso de lixo para situações em que antigas montanhas de resíduos estão sendo escavadas para alimentar usinas de geração de energia.

Quando o lixo saiu da calçada e virou crise nacional

China quase zerou lixões ao transformar lixo e resíduos em energia em usinas modernas; entenda o impacto ambiental e o que isso inspira para o Brasil.

O problema começa de forma banal, com um saco de lixo deixado na porta de casa, mas se transforma em um dos maiores desafios das administrações públicas. Coletar, transportar, tratar e dar destino adequado aos resíduos exige planejamento, infraestrutura e muito dinheiro.

Em países médios, isso já é difícil. Em um gigante como a China, com grandes metrópoles concentrando dezenas de milhões de pessoas, a pressão é ainda maior.

Um retrato simbólico dessa crise apareceu em um documentário que acompanhou, por anos, o avanço do lixo ao redor de Pequim.

O cineasta percorreu centenas de lixões na capital chinesa e registrou montanhas de resíduos se acumulando a poucos quilômetros de áreas densamente habitadas.

Crianças, catadores e animais conviviam diariamente com um cenário insalubre, cercados por restos de comida, plástico, papel e resíduos de toda natureza.

Esse contraste incomodava porque Pequim já vinha sendo apresentada ao mundo como uma metrópole moderna, com grandes obras de infraestrutura, avenidas, linhas de transporte e bairros inteiros revitalizados. Enquanto a cidade se modernizava na superfície, o lixo se acumulava em escala industrial nos arredores.

Do “lixão do mundo” à virada de chave

A crise interna ainda era agravada por outro fator. Durante anos, a China ficou conhecida como o “lixão do mundo”. Países desenvolvidos enviavam parte de seus resíduos para serem reciclados em território chinês, aproveitando a mão de obra mais barata e custos mais baixos de operação.

Plásticos, papel usado e até lixo eletrônico chegavam em grandes volumes. Alguns locais ficaram marcados por esse fluxo, com cidades inteiras ligando sua economia à triagem de resíduos estrangeiros. Na teoria, muito desse material seria reciclado.

Na prática, uma parte acabava descartada em lixões e aterros, ampliando o problema interno da China com o próprio lixo.

Ao mesmo tempo, o próprio país passava por uma transformação profunda. O crescimento econômico acelerado, a industrialização e o aumento de renda mudaram o padrão de consumo.

Produtos industrializados, alimentos embalados e itens descartáveis passaram a fazer parte do dia a dia urbano.

Com mais gente nas cidades e mais consumo, o volume de resíduos domésticos explodiu. Em poucos anos, a China se tornou o maior gerador de resíduos sólidos urbanos do mundo.

Projeções apontam que a produção anual de lixo urbano no país deve se aproximar de centenas de milhões de toneladas, mais que o dobro do que se produzia no início dos anos 2000.

A linha que concentra pessoas, lixo e pressão sobre o território

Para entender por que o modelo baseado em lixões e aterros entrou em colapso tão rápido, é preciso olhar para a geografia humana da China. Existe uma linha imaginária que corta o país do nordeste ao sudoeste e divide o território em duas partes muito diferentes.

De um lado, no oeste, está a maior parte da área territorial, com cerca de 57% da superfície do país. Só que ali vivem apenas 6% da população.

Do outro lado, no leste, em 43% do território, estão concentrados 94% dos chineses. Isso significa milhões de pessoas ocupando áreas relativamente pequenas, onde cada metro quadrado é valioso demais para ser usado como lixão.

Quando um aterro lota antes do previsto, como em Jiang Kungu, encontrar espaço para um novo local de descarte é quase impossível.

Em alguns casos, a sobrecarga cobrou um preço alto. Em 2015, o excesso de resíduos acumulados em um aterro que já havia atingido o limite de capacidade provocou um deslizamento que matou dezenas de pessoas.

Além do risco direto para quem vive e trabalha perto desses locais, os lixões representam um enorme impacto ambiental.

Durante a decomposição de resíduos orgânicos, ocorre emissão de gás metano, um dos principais gases de efeito estufa, além da formação de chorume, um líquido altamente poluente que contamina solo e lençóis freáticos.

Diante dessa combinação de falta de espaço, riscos ambientais e tragédias, o governo chinês começou a agir em duas frentes: conter o fluxo de lixo importado e redesenhar a política interna de tratamento de resíduos.

A primeira medida foi proibir a importação de lixo. Vários países que contavam com a China como destino de seus resíduos tiveram de correr para encontrar alternativas, mas a mudança ajudou a reduzir a pressão sobre os aterros chineses.

Como a China quase zerou lixões transformando lixo em energia

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

A mudança mais profunda veio quando o governo decidiu que era preciso mudar a pergunta central. Em vez de discutir apenas onde colocar o lixo, a prioridade passou a ser o que fazer com o lixo. Foi assim que a China quase zerou lixões em poucas décadas.

Para isso, o país recorreu a um velho instrumento de planejamento: os planos quinquenais. No 12º Plano Quinquenal, que cobriu o período entre 2011 e 2015, ficou estabelecido que cerca de 35% do lixo produzido deveria deixar de ir para aterros e passar a ser tratado por meio da queima controlada.

A incineração já existia em pequena escala, mas ocupava um papel coadjuvante. A partir desse plano, passou ao centro da política de resíduos, em um modelo conhecido como Wast-to-Energy (WTE), que converte lixo em energia.

Nesse sistema, o lixo é queimado em instalações que funcionam como usinas. Os resíduos são alimentados em incineradores que operam em torno de 850 ºC.

O calor gerado aquece caldeiras, transformando água em vapor. Esse vapor movimenta turbinas conectadas a geradores, produzindo energia elétrica que é injetada na rede e abastece casas, comércios e indústrias.

A tecnologia traz duas vantagens principais. A primeira é a redução de volume: a incineração pode diminuir em cerca de 90% a quantidade de resíduos que precisaria ir para um aterro. A segunda é o aproveitamento energético.

Cada tonelada de lixo processada gera algo entre 340 e 350 kWh de eletricidade, o suficiente para abastecer uma residência média durante um mês.

Em outras palavras, o lixo produzido por cinco casas pode gerar energia para manter uma delas funcionando.

Percebendo esse potencial, o governo central criou um ambiente favorável para investimentos. Governos locais e empresas passaram a receber incentivos financeiros, linhas de crédito e subsídios.

A energia gerada a partir do lixo foi valorizada, com tarifas mais altas, o que tornou os projetos atrativos do ponto de vista econômico.

Quando essa política começou, havia pouco mais de uma centena de usinas de incineração em operação no país. Em menos de uma década, esse número saltou para centenas de unidades espalhadas pela China.

Esse avanço em grande escala foi uma das bases para que a China quase zerou lixões em diversas regiões urbanas, liberando áreas antes ocupadas por aterros e lixões a céu aberto.

O efeito colateral da velocidade: agora está faltando lixo

Só que não existe solução simples para problemas complexos. O crescimento acelerado das usinas de incineração criou um novo tipo de pressão.

Cada unidade funciona como uma empresa que recebe dinheiro tanto pela queima do lixo quanto pela energia gerada. Nesse modelo, o lixo é, literalmente, a matéria-prima do negócio.

Quando essa matéria-prima começa a faltar, as usinas passam a operar abaixo da capacidade. Sem lixo suficiente, a produção de energia cai, a receita diminui e a sustentabilidade financeira fica ameaçada.

Para evitar isso, algumas cidades passaram a escavar antigos aterros sanitários em busca do lixo enterrado no passado, reabrindo montanhas de resíduos que estavam fechadas há anos.

À primeira vista, parece uma solução engenhosa. Porém, essa prática envolve riscos importantes. A decomposição de resíduos em aterros ao longo do tempo gera grandes bolsões de metano.

Ao revirar camadas profundas de lixo, esse gás pode escapar de forma descontrolada, aumentando o risco de explosões, incêndios e emissões concentradas de poluentes.

Em situações extremas, houve até a discussão sobre voltar a importar lixo de outros países para garantir o abastecimento das usinas, em uma espécie de inversão de papéis em relação ao passado recente.

O país que decidiu deixar de ser destino do lixo estrangeiro passou a considerar trazer resíduos de fora para manter suas usinas funcionando.

O que o Brasil pode aprender com a experiência chinesa

Enquanto a China avançou rapidamente em infraestrutura e planejamento, o Brasil ainda convive com o desafio básico de eliminar lixões a céu aberto.

Desde 2010, com a aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (lei 12.305), o país estabeleceu prazos para o fim dos lixões.

Alguns dos mais emblemáticos, como o lixão da Estrutural, em Brasília, e o aterro de Gramacho, na região metropolitana do Rio de Janeiro, foram desativados.

Mesmo assim, estimativas apontam a existência de cerca de 3 mil lixões a céu aberto em funcionamento, recebendo resíduos sem qualquer tratamento adequado. A reciclagem também avança em ritmo lento.

De acordo com dados do setor, apenas cerca de 5% das mais de 220 mil toneladas de resíduos geradas diariamente no Brasil são recicladas. Todo o restante segue para aterros ou lixões.

Nesse cenário, a incineração com aproveitamento energético ainda não é realidade consolidada no país, mas começa a sair do papel.

Está prevista para o primeiro trimestre de 2027 a inauguração da primeira usina Wast-to-Energy do Brasil, na cidade de Barueri, em São Paulo.

Instalada em uma área de aproximadamente 37 mil m², a unidade deve receber resíduos do próprio município e de cidades vizinhas, como Santana de Parnaíba e Carapicuíba. A expectativa é gerar cerca de 20 MW de energia, o suficiente para abastecer algo em torno de 40 mil residências.

Estudos indicam que, se o Brasil tratasse cerca de 47% do lixo urbano em usinas semelhantes, seria possível gerar energia para mais de 4 milhões de residências e movimentar mais de 200 bilhões de reais ao longo de 40 anos. Em paralelo, haveria uma redução significativa na quantidade de resíduos enviados para lixões e aterros.

A experiência chinesa mostra que, com planejamento de longo prazo, incentivos econômicos e metas claras, é possível mudar o caminho dos resíduos em poucos anos.

A forma como a China quase zerou lixões pode servir de inspiração, mas o Brasil precisa adaptar o modelo à própria realidade, considerando diferenças de escala, renda, infraestrutura e capacidade de fiscalização.

Incineração não é solução mágica para o lixo

Apesar de todos os benefícios potenciais, a incineração não resolve tudo sozinha. Mesmo reduzindo em até 90% o volume de resíduos, ela gera cinzas que precisam ser tratadas e destinadas de forma adequada.

Isso mantém a necessidade de aterros controlados, agora voltados para um resíduo mais concentrado e, muitas vezes, mais tóxico.

Além disso, a incineração é uma atividade potencialmente poluente. Durante a queima do lixo, são produzidos gases e partículas que, se não forem devidamente filtrados, podem causar impactos à saúde humana e ao meio ambiente.

Por isso, as usinas exigem sistemas avançados de filtragem e monitoramento constante. Sem fiscalização rigorosa, cresce o risco de emissões acima do permitido.

O próprio governo chinês reconhece esses limites. Mesmo tendo apostado fortemente nas usinas WTE para reduzir lixões e gerar energia, o país vem adotando medidas complementares, como a obrigatoriedade da separação do lixo doméstico em várias cidades, o incentivo à reciclagem e programas de “cidades lixo zero”.

Apesar do nome, cidades lixo zero não significam uma realidade sem lixo algum, e sim uma estratégia para reduzir ao máximo o envio de resíduos a aterros, combinando reutilização, reciclagem, compostagem e tratamento térmico apenas para o que não puder ser reaproveitado.

Lição final: planejar o fim dos lixões, não o fim da discussão

A experiência da China indica que é possível acelerar a transição em poucos anos quando há metas claras, investimento pesado em infraestrutura e coordenação entre governo central, autoridades locais e setor privado.

O caminho que levou a China quase zerou lixões passa por decisões duras, como abandonar o papel de “lixão do mundo”, e por alternativas tecnológicas, como as usinas WTE, mas também por mudanças de comportamento e novas regras para a população.

Para o Brasil, a principal lição não é copiar tudo o que a China fez, e sim entender que o problema do lixo não se resolve com medidas pontuais.

É preciso combinar redução de resíduos na origem, melhoria da reciclagem, inclusão de catadores, implantação de usinas modernas e, principalmente, fiscalização constante para garantir que soluções não criem novos problemas.

No fim das contas, a pergunta que fica para nós é simples e direta: na sua opinião, o Brasil deveria seguir o caminho da China e apostar em usinas que transformam lixo em energia para acabar com os lixões?

Inscreva-se
Notificar de
guest
1 Comentário
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Jurandir
Jurandir
19/01/2026 09:43

Sim, pois mesmo com essa tecnologia, a reciclagem de materiais não seria afetada, mantendo assim a renda das pessoas que vivem da reciclagem e também afetaria de forma positiva a economia das prefeituras em relação aos gastos que envolvem a manutenção dos resíduos sólidos urbanos.

Carla Teles

Produzo conteúdos diários sobre economia, curiosidades, setor automotivo, tecnologia, inovação, construção e setor de petróleo e gás, com foco no que realmente importa para o mercado brasileiro. Aqui, você encontra oportunidades de trabalho atualizadas e as principais movimentações da indústria. Tem uma sugestão de pauta ou quer divulgar sua vaga? Fale comigo: carlatdl016@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
Ir para o vídeo em destaque
1
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x