Na Universidade de Brasília, a UnB, pesquisadores criaram o Rapha, um dispositivo para pé diabético que combina o látex natural da seringueira e luz de LED para cicatrizar feridas mais rápido e ajudar a evitar as cerca de 50 mil amputações por ano no Brasil, fruto de quase 20 anos de pesquisa.
O pé diabético é uma das complicações mais temidas do diabetes, e leva milhares de pessoas à amputação todo ano no Brasil. Pesquisadores da Universidade de Brasília, a UnB, criaram um aparelho que quer mudar esse cenário. Batizado de Rapha, o dispositivo para pé diabético combina dois elementos brasileiros e baratos: o látex natural da seringueira e a luz de LED. Juntos, eles aceleram a cicatrização das feridas e podem ajudar a evitar boa parte das cerca de 50 mil amputações por ano no país.
A invenção foi noticiada pelo Só Notícia Boa, que mostrou o resultado de quase duas décadas de pesquisa. O Rapha já recebeu o selo de segurança do Inmetro e aguarda o registro da Anvisa para ser produzido em larga escala. Não é promessa de laboratório distante: é tecnologia nacional, feita com matéria-prima do próprio Brasil, perto de chegar aos pacientes.
Látex da seringueira e luz de LED juntos

O Rapha usa um curativo feito de látex natural extraído da seringueira, a mesma árvore da borracha, colocado sobre a ferida.
-
Cansado de ver a chuva alagar a rua em Miami, um menino do 6º ano criou um concreto que “bebe” a água usando conchas de ostra e carvão jogados fora e venceu o prêmio Lemelson de jovem inventor
-
Pesquisadores brasileiros desenvolvem aparelho portátil que rastreia câncer de mama com micro-ondas, sem dor nem radiação, custa cerca de R$ 1 mil e pode substituir mamógrafo de até US$ 240 mil
-
Cerveja que funciona como vacina? Cientista desenvolve método experimental com leveduras vivas, testa a própria bebida e divulga os resultados da pesquisa publicada no Zenodo
-
Startup quer lavar sua louça, limpar banheiro e organizar geladeira de graça, mas com funcionários usando câmeras na cabeça para transformar a bagunça da sua casa em dados capazes de treinar a próxima geração de robôs domésticos com inteligência artificial
Por cima do curativo, entra um emissor de luz de LED, que age junto com o látex para estimular a pele a se regenerar mais rápido. São duas tecnologias trabalhando ao mesmo tempo no mesmo ferimento.
De um lado, o látex natural; do outro, a luz. Esse dispositivo para pé diabético junta o que a natureza e a engenharia têm de melhor numa solução só.
Como o Rapha cura a ferida
Cada parte do aparelho tem uma função específica. O látex natural da seringueira ajuda o corpo a formar novos vasos sanguíneos na região da ferida, o que leva mais sangue e nutrientes ao local e acelera a recuperação.
A luz de LED, por sua vez, ativa as células da pele, dando um empurrão extra na cicatrização. Na prática, depois de limpar a ferida, aplica-se a camada de látex e posiciona-se a luz por cerca de 30 minutos, e o curativo fica no lugar por 24 horas.
É um tratamento simples de aplicar, mas com ciência pesada por trás. O Rapha transforma um processo lento em algo mais rápido e eficiente.
O problema: 50 mil amputações por ano
O alvo do aparelho é uma tragédia silenciosa de saúde pública. O Brasil tem mais de 16 milhões de pessoas com diabetes, e o pé diabético é uma das complicações mais graves da doença.
Quando uma ferida no pé não cicatriza direito, ela pode evoluir para infecção e levar à amputação, num total de cerca de 50 mil amputações por ano no país. Cada uma dessas cirurgias muda uma vida para sempre.
Acelerar a cicatrização dessas feridas é, portanto, uma forma direta de evitar amputações. É exatamente esse gargalo que o dispositivo para pé diabético quer atacar.
Quase 20 anos de pesquisa na UnB

O aparelho é fruto de quase duas décadas de pesquisa na Universidade de Brasília, lideradas pela professora Suélia Rodrigues, do grupo de Engenharia Biomédica da UnB.
A história começou por volta de 2005, quando ela, ainda doutoranda, percebeu o potencial do látex para estimular a formação de vasos sanguíneos. Ao longo dos anos, outros nomes entraram no projeto, como o pesquisador Adson Ferreira da Rocha, segundo a UnB.
Foram anos de teses, testes e ajustes até o equipamento ficar pronto. É ciência brasileira de fôlego longo, construída tijolo por tijolo na UnB.
Selo do Inmetro e espera pela Anvisa
A tecnologia já avança rumo ao mercado e ao SUS. O Rapha recebeu o selo de segurança do Inmetro, um passo importante para qualquer equipamento médico.
Agora, o dispositivo para pé diabético aguarda o registro da Anvisa, a agência que precisa liberar o produto para que ele possa ser fabricado em larga escala. A tecnologia foi licenciada para a empresa brasileira Life Care Medical, que cuidará da produção.
O objetivo final é que o aparelho chegue à rede pública de saúde e atenda quem mais precisa. De projeto acadêmico a produto regulado, o caminho está quase completo.
Por que a matéria-prima nacional importa
Um detalhe torna o Rapha ainda mais brasileiro. O látex usado vem da seringueira, a Hevea brasiliensis, árvore nativa da Amazônia e base da borracha natural.
Usar o látex natural da seringueira como matéria-prima significa uma tecnologia de baixo custo e com cara nacional, em vez de depender de insumos importados e caros. Isso pode baratear o tratamento e facilitar a produção dentro do país.
Valorizar a seringueira também conecta a saúde a uma cadeia produtiva tradicional brasileira. É inovação de ponta usando o que o Brasil já tem de sobra.
O que o Rapha mostra
A maior lição é o que a ciência brasileira pode fazer com recursos próprios. O Rapha mostra que pesquisadores da UnB conseguiram transformar o látex natural da seringueira e uma luz de LED num dispositivo para pé diabético capaz de ajudar a evitar amputações.
Vale, claro, manter o pé no chão. O aparelho ainda aguarda o registro da Anvisa para ser produzido em escala, então a chegada em massa aos pacientes depende dessa aprovação e da produção, e não é da noite para o dia.
Ainda assim, ver um produto nascido de quase 20 anos de pesquisa na UnB, feito com matéria-prima nacional, perto de combater 50 mil amputações por ano é o tipo de avanço que dá orgulho. Da seringueira à cama do paciente, o Rapha une natureza, engenharia e saúde pública, e prova que pesquisa de longo prazo, bem financiada, salva pés e vidas.
E você, sabia que o látex da borracha pode ajudar a curar feridas e evitar amputações? Conta pra gente nos comentários o que acha desse tipo de inovação da ciência brasileira.
