1. Início
  2. Curiosidades
  3. China quer rasgar montanhas com 612 km de túneis para desviar água do Yangtzé, apagar vilarejos inteiros do mapa e mover mais de 100 mil pessoas em nome da segurança hídrica
Faça um comentário 6 min de leitura

China quer rasgar montanhas com 612 km de túneis para desviar água do Yangtzé, apagar vilarejos inteiros do mapa e mover mais de 100 mil pessoas em nome da segurança hídrica

Imagem de perfil do autor Ana Alice
Escrito por Ana Alice Publicado em 18/04/2026 às 23:57
Assista o vídeoTiger Leaping Gorge volta ao centro do debate com a barragem de Longpan, restrições em Yunnan e alerta sobre risco geológico. (Imagem: Ilustrativa)
Tiger Leaping Gorge volta ao centro do debate com a barragem de Longpan, restrições em Yunnan e alerta sobre risco geológico. (Imagem: Ilustrativa)
  • Reação
  • Reação
  • Reação
5 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

Cartazes oficiais, restrições territoriais e estudos científicos recolocam Tiger Leaping Gorge no centro de uma disputa que envolve energia, geologia e comunidades tradicionais em uma das paisagens mais conhecidas do alto curso do Yangtzé.

Cartazes afixados em vilas do noroeste de Yunnan passaram a marcar a rotina de moradores de uma das regiões mais conhecidas do alto curso do Yangtzé.

Um aviso do governo provincial proíbe novas construções e restringe a entrada de moradores em áreas associadas ao projeto da hidrelétrica de Longpan, no trecho do rio chamado de Jinsha na China.

Pelas regras divulgadas pelas autoridades, a referência territorial é a cota de 2.010 metros de altitude.

Abaixo dela, imóveis, plantações e povoados podem ser alcançados pelo reservatório, caso a obra avance.

Estimativas publicadas pela imprensa internacional e por documentos locais indicam que o impacto potencial pode ultrapassar 100 mil pessoas.

O número ajuda a dimensionar por que a discussão sobre a barragem voltou ao centro do debate regional.

Mais do que uma obra de geração elétrica, o projeto envolve reassentamento populacional, uso da terra, patrimônio natural e risco geológico em uma área já conhecida por sua complexidade ambiental.

Em Longpan, o tema aparece no cotidiano de forma discreta, mas constante.

No fim da tarde, quatro mulheres idosas da etnia naxi costumam jogar cartas diante de um centro para idosos, com a montanha Nevada do Dragão de Jade ao fundo e o rio correndo muito abaixo.

Reportagens recentes de campo registraram que, entre moradores de vilas da região, os avisos oficiais e as medições ligadas ao projeto passaram a frequentar as conversas com mais insistência nos últimos meses.

Yangtzé, Jinsha e Tiger Leaping Gorge

Antes de atravessar a China até desaguar em Xangai, o Yangtzé recebe, nesse trecho, o nome de Jinsha, expressão traduzida como “rio das areias douradas”.

É ali que o curso d’água entra no corredor montanhoso conhecido como Tiger Leaping Gorge, ou Garganta do Salto do Tigre, no sudoeste do país.

Segundo a Unesco, a região mais ampla das Três Rios Paralelos de Yunnan reúne vales profundos, picos glaciais acima de 6 mil metros e gargantas de grande desnível.

Essa configuração física está no centro da disputa.

Para o setor energético, a combinação entre vazão, desnível e estreitamento do vale amplia o interesse hidrelétrico.

Já para pesquisadores e órgãos de conservação, o relevo, a biodiversidade e a sensibilidade geológica tornam o local especialmente delicado.

A área também concentra comunidades de minorias étnicas, como naxi e tibetanos, o que adiciona dimensão social ao debate sobre eventual reassentamento.

A própria formação do desfiladeiro ajuda a explicar esse interesse múltiplo.

Estudos científicos relacionam a paisagem da região à colisão entre as placas Indiana e Euroasiática e à elevação do Himalaia e do Planalto Tibetano.

No campo da geologia, o vale é tratado como uma área de grande relevância para observar processos de tectônica ativa, erosão e dinâmica fluvial em terreno montanhoso.

Restrição de construções e cota de 2.010 metros

O texto divulgado pelo governo de Yunnan trata diretamente do território afetado pelo empreendimento.

O aviso veta novas casas, ampliações, plantações perenes, cemitérios e outros usos em áreas destinadas à obra, ao reassentamento e à inundação.

Também restringe a migração para esses locais, com exceções administrativas específicas, como retorno de ex-militares, pessoas liberadas do sistema prisional, casamentos e graduados que voltam à cidade natal sem colocação formal.

Na prática, a medida impede que novos ocupantes passem a reivindicar compensação futura.

O aviso oficial informa ainda que quem se instalar depois da publicação não será incluído nas políticas de reassentamento vinculadas ao projeto.

Esse tipo de restrição costuma anteceder grandes obras de infraestrutura na China e funciona como um congelamento do território antes de uma definição operacional mais ampla.

Movimento semelhante ocorreu na porção do projeto situada em Sichuan.

Em 22 de novembro de 2024, autoridades locais anunciaram restrições equivalentes para a área de Derong, também relacionada à futura zona de influência do reservatório.

Com isso, os dois lados administrativos do vale passaram a adotar mecanismos parecidos de controle sobre construção, circulação e ocupação.

Barragem de Longpan e a retomada do projeto

A barragem de Longpan não é um projeto novo.

Em 2004, o governo central aprovou uma primeira versão do empreendimento para a região de Tiger Leaping Gorge.

À época, a proposta previa um grande reservatório e deslocamento em massa de moradores ao longo de cerca de 200 quilômetros rio acima.

A reação de comunidades locais e de grupos ambientalistas foi intensa, e o plano acabou sendo engavetado em 2007.

A retomada do tema, agora, ocorre em outro contexto.

A China ampliou sua capacidade de geração de energia considerada limpa, ao mesmo tempo em que mantém o objetivo de reforçar a segurança energética e reduzir a dependência do carvão.

Nesse ambiente, grandes hidrelétricas voltaram a ganhar espaço em documentos públicos e planejamentos empresariais, especialmente em regiões de grande potencial hidráulico.

Documentos financeiros divulgados em 2025 e 2026 pela Huadian Yunnan, empresa estatal ligada ao setor elétrico, mencionam o complexo Longpan-Liangjiaren entre os principais projetos planejados pela companhia e registram desembolsos preliminares.

Esse tipo de referência não equivale, por si só, à confirmação definitiva da construção, mas indica que a etapa preparatória segue em andamento do ponto de vista administrativo e financeiro.

Ainda não foi localizada, em fonte pública amplamente acessível, uma confirmação final e inequívoca de aprovação definitiva por Pequim para a execução integral da barragem de Longpan.

O que aparece de forma documentada até aqui é a retomada da preparação do terreno institucional: restrições de uso da terra, medições físicas, planejamento financeiro e enquadramento do projeto em documentos recentes.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Medições cadastrais e incerteza sobre reassentamento

Em 2025, reportagens internacionais relataram o avanço de equipes encarregadas de levantamentos cadastrais em vilas que podem ser afetadas.

Em Jinjiang, uma das localidades citadas, moradores chegaram a impedir a entrada de topógrafos em casas no início do ano, segundo relatos publicados pela imprensa.

A preocupação central, nesses casos, é que a medição materialize uma remoção ainda sem detalhamento público suficiente sobre destino, compensações e condições de reassentamento.

Esse ponto ajuda a explicar a reação local.

Para comunidades rurais de montanha, a terra não representa apenas moradia, mas também base de renda, organização familiar e vínculo comunitário.

Quando o debate entra na fase de cadastro, a apreensão costuma crescer porque a possibilidade de deslocamento deixa de ser abstrata e passa a afetar decisões práticas sobre plantio, reformas, herança e permanência.

Estudos científicos sobre geologia e deslizamentos em Yunnan

Além da dimensão social, Tiger Leaping Gorge é acompanhada com atenção por pesquisadores por causa das características físicas do terreno.

Em fevereiro de 2025, um estudo publicado na revista Natural Hazards and Earth System Sciences descreveu o noroeste de Yunnan como uma área com combinação complexa de falhas geológicas, potencial para rupturas múltiplas e forte relação entre atividade sísmica e ocorrência de deslizamentos.

Outro trabalho, publicado em 2024 na revista Hydraulic Engineering, classificou trechos do alto rio Jinsha como áreas de ameaça elevada ou muito elevada para represamentos naturais provocados por deslizamentos.

Em termos práticos, isso significa que o risco regional não se limita à engenharia de uma barragem planejada.

A própria dinâmica do relevo, em cenário de sismos e movimentos de massa, é tratada pela literatura científica como fator relevante para a gestão do território.

Esse conjunto de elementos ajuda a explicar por que a área é observada sob diferentes perspectivas ao mesmo tempo.

Para o setor elétrico, o desnível do vale representa potencial de geração.

Para a comunidade científica, o mesmo relevo concentra processos geológicos ativos e sensíveis.

Já para os moradores, o avanço do projeto pode redefinir o uso da terra e o destino de comunidades instaladas ali há gerações.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
Ir para o vídeo em destaque
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x