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Cidade de 9.000 anos sem ruas intriga arqueólogos: moradores de Çatalhöyük entravam em casa pelos telhados e sepultavam as pessoas sob o chão, revelando um modelo urbano único da pré-história

Escrito por Caio Aviz
Publicado em 18/03/2026 às 17:27
Moradores de Çatalhöyük circulam pelos telhados de casas de barro ao pôr do sol, utilizando escadas para acesso interno às residências na antiga cidade sem ruas
Habitantes de Çatalhöyük utilizam os telhados como áreas de convivência e acesso às casas, refletindo a organização única da cidade sem ruas na Turquia neolítica
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O sítio arqueológico mostra como milhares de pessoas viveram por séculos sem ruas, acessando casas pelos telhados e mantendo tradições sociais e funerárias singulares

Uma das descobertas mais emblemáticas da arqueologia mundial continua sendo analisada por especialistas, atraindo atenção global.
Çatalhöyük, localizado na planície de Konya, no centro-sul da Turquia, surgiu por volta de 7400 a.C., conforme registros reconhecidos pelo Patrimônio Mundial da UNESCO em 2012.
O assentamento reuniu milhares de pessoas em casas de barro construídas lado a lado, sem ruas, o que moldou uma organização urbana incomum.
Assim, o acesso às residências era feito por aberturas nos telhados, enquanto os próprios tetos funcionavam como áreas de convivência coletiva.

Estrutura urbana revela adaptação contínua ao longo de séculos

Ao longo de cerca de 1.400 anos de ocupação contínua, gerações reconstruíram as casas no mesmo local, criando camadas sucessivas.
Com isso, foram formadas 18 camadas arqueológicas, elevando o monte a aproximadamente 21 metros de altura, segundo a UNESCO.
Estimativas populacionais variaram ao longo do tempo.
Enquanto estudos antigos indicavam até 8.000 habitantes, uma pesquisa de 2024, publicada no Journal of Anthropological Archaeology, revisou esse número para entre 600 e 800 pessoas em fases específicas.
Dessa forma, ficou evidente que nem todas as casas eram ocupadas simultaneamente.

Ausência de ruas foi solução estratégica para o ambiente

A organização sem ruas não ocorreu por acaso, pois a região enfrentava cheias sazonais frequentes.
Assim, caminhos ao nível do solo se transformariam em lamaçais, o que inviabilizaria a circulação.
Diante disso, as casas foram projetadas com aberturas no teto que funcionavam como portas, janelas e chaminés ao mesmo tempo.
No interior das moradias estavam fornos, áreas de trabalho e plataformas de descanso.
Consequentemente, a fumaça saía pelo mesmo espaço que permitia a entrada de luz natural.

Práticas funerárias mostram relação direta com o cotidiano

Outro aspecto marcante foi o hábito de enterrar os mortos sob o piso das casas.
Os corpos eram posicionados em forma fetal e envoltos em esteiras, conforme evidenciado por escavações arqueológicas.
Além disso, adultos eram enterrados sob plataformas, enquanto recém-nascidos ficavam próximos aos fornos.
Inclusive, em um único edifício, foram encontrados 62 indivíduos, segundo pesquisadores da Universidade de Poznań.
Posteriormente, alguns crânios eram retirados, revestidos com gesso e pintados, indicando práticas de veneração aos ancestrais.

Estudos indicam organização social sem hierarquia evidente

Não foram identificados palácios, templos ou edifícios públicos, o que sugere uma estrutura social sem hierarquia arquitetônica.
Segundo análises conduzidas por Michael Richards e Jessica Pearson, citadas pela Scientific American, homens e mulheres apresentavam dietas semelhantes.
Além disso, ambos tinham níveis equivalentes de desgaste físico e exposição à fumaça.
Posteriormente, um estudo genético de 2025, com 131 genomas antigos, revelou um padrão matrilocal, no qual mulheres permaneciam nas casas familiares.

Registro visual pode representar evento natural histórico

Na década de 1960, o arqueólogo James Mellaart identificou um mural com cerca de três metros de largura.
A pintura mostra formas geométricas interpretadas como o assentamento e, acima, uma possível erupção do vulcão Hasan Dağı.
Mais recentemente, em 2014, o vulcanólogo Axel Schmitt, da UCLA, datou uma erupção em 6960 a.C., conforme estudo publicado na PLOS ONE.
Assim, a coincidência reforça a hipótese de que o evento tenha sido registrado pelos moradores.

Uso de obsidiana e têxteis revela avanços técnicos

A obsidiana foi amplamente utilizada na fabricação de ferramentas e objetos.
Entre eles, destacam-se espelhos polidos, considerados alguns dos mais antigos do mundo, com cerca de 8.000 anos.
Segundo achados de James Mellaart, alguns estavam associados a contextos funerários.
Além disso, fragmentos têxteis encontrados são classificados pela World History Encyclopedia como os mais antigos já registrados.
Também foram descobertas mais de 2.500 estatuetas de argila, principalmente representando animais.

Escavações revelam apenas parte do assentamento

Atualmente, apenas cerca de 5% da área total de Çatalhöyük foi escavada.
Assim, milhares de estruturas permanecem preservadas sob o solo do monte leste.
Dessa forma, o local continua sendo essencial para compreender os primeiros modelos de vida urbana.
Esse conjunto de evidências mostra como a organização social, arquitetônica e cultural já apresentava complexidade há milhares de anos.

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Caio Aviz

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