A OMS quer frear a medicalização do parto normal e diz que muitas mulheres saudáveis seguem recebendo intervenções sem necessidade, em um cenário que afeta o nascimento e o cuidado com mães e bebês no mundo todo.
A Organização Mundial da Saúde voltou a acender o debate sobre a medicalização do parto ao afirmar que, em muitos países, mulheres e bebês saudáveis seguem sendo expostos a intervenções desnecessárias durante o nascimento. A entidade diz que isso vem acontecendo mesmo quando a evolução do trabalho de parto é normal e não há sinal de complicação.
O alerta vem em meio a uma mudança que afeta milhões de famílias todos os anos: a OMS estima que cerca de 140 milhões de partos ocorram no mundo anualmente. Na visão da agência, boa parte desses nascimentos poderia acontecer com menos interferência, desde que houvesse cuidado adequado, comunicação clara e respeito às decisões da mulher.
Segundo a WHO, o problema não está no uso de recursos médicos quando eles são necessários, mas na tendência de acelerar o parto ou intervir por rotina, mesmo sem indicação. Entre os exemplos citados estão a infusão de ocitocina para acelerar contrações e a cesariana, procedimentos que ganharam espaço nas últimas décadas.
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OMS diz que parto normal não precisa virar procedimento

A mensagem principal da OMS é direta: se o trabalho de parto está evoluindo de forma normal e mãe e bebê estão bem, não há motivo para apressar o nascimento com intervenções extras. A entidade afirma que o parto é um processo fisiológico e que a maioria das mulheres pode passar por ele sem complicações.
No comunicado, a agência também chama atenção para um efeito menos visível, mas importante: a medicalização do parto pode enfraquecer a sensação de autonomia da mulher e piorar a experiência do nascimento. Para a OMS, o cuidado precisa proteger a saúde sem transformar um evento natural em uma sequência de procedimentos automáticos.
56 recomendações para mudar a experiência do nascimento
A nova diretriz da OMS traz 56 recomendações baseadas em evidências para orientar o cuidado durante o trabalho de parto e logo após o nascimento. O pacote inclui medidas que valorizam a presença de um acompanhante escolhido pela gestante, a privacidade, a confidencialidade e a comunicação respeitosa entre profissionais e pacientes.
A organização também defende que a mulher participe das decisões sobre alívio da dor, posição para parir e momento de fazer força. A lógica é simples: mesmo quando há intervenção médica, a paciente não deve ser tratada como espectadora do próprio parto.
Pressa para abrir dilatação também entra na mira
Um dos pontos mais importantes da recomendação é a revisão da velha referência de 1 centímetro por hora como padrão de dilatação cervical na fase ativa do trabalho de parto. Segundo a OMS, esse parâmetro pode ser irreal para algumas mulheres e não é confiável para identificar risco de desfecho ruim.
A entidade afirma ainda que uma dilatação mais lenta, por si só, não deve ser motivo automático para acelerar o parto ou antecipar o nascimento. Em outras palavras, cada trabalho de parto tem seu ritmo, e a pressa não pode substituir a avaliação clínica.
A OMS lembra que a fase ativa costuma durar até 12 horas no primeiro parto e até 10 horas nos seguintes, embora esse tempo varie de mulher para mulher. O recado da agência é que a diferença de ritmo faz parte do processo e não deve ser tratada como falha.
Partos humanizados ganham força em meio a riscos e desigualdades
O debate sobre a medicalização do parto também expõe uma questão maior: a qualidade do cuidado prestado às mulheres. A OMS afirma que intervenções desnecessárias são comuns em países de baixa, média e alta renda, consumindo recursos e ampliando desigualdades já existentes.
A agência diz ainda que cerca de 830 mulheres morrem por dia no mundo por complicações relacionadas à gravidez ou ao parto, em mortes que, na maioria dos casos, poderiam ser evitadas com atendimento de melhor qualidade. Para a OMS, o desafio não é escolher entre tecnologia e naturalidade, mas garantir que o cuidado seja usado com critério, sem excesso e sem violência institucional.
O alerta recoloca no centro uma discussão que atravessa hospitais, maternidades e debates públicos em vários países: nascer com segurança também significa nascer com respeito. Se o tema faz parte da sua rotina ou da sua experiência, vale compartilhar a matéria e deixar sua opinião nos comentários.
