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Austrália espalha salsichas envenenadas pelo deserto e usa armadilhas, tiros e cercas para travar guerra contra gatos invasores que matam mais de 1,5 bilhão de animais nativos por ano, ameaçam mais de 200 espécies e transformam isca de carne em arma extrema de conservação

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Escrito por Ana Alice Publicado em 05/07/2026 às 16:12 Atualizado em 05/07/2026 às 16:14
Assista o vídeoAustrália usa iscas tóxicas contra gatos ferais que ameaçam espécies nativas e reacende debate sobre biodiversidade e conservação. (Imagem: Ilustrativa)
Austrália usa iscas tóxicas contra gatos ferais que ameaçam espécies nativas e reacende debate sobre biodiversidade e conservação. (Imagem: Ilustrativa)
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Uma estratégia australiana contra gatos ferais combina ciência, tecnologia e controle ambiental em áreas remotas, enquanto reacende o debate sobre biodiversidade, espécies invasoras e os limites das ações usadas para proteger animais nativos ameaçados.

A Austrália usa iscas tóxicas em formato de pequenas salsichas de carne como uma das ferramentas de controle contra gatos ferais, animais invasores que vivem e se reproduzem na natureza.

A medida integra uma estratégia nacional para reduzir a pressão desses predadores sobre espécies nativas, especialmente em áreas extensas e de difícil manejo, onde armadilhas, cercas e equipes em campo têm alcance limitado.

O caso ganhou repercussão internacional em abril de 2019, quando a CBS News noticiou o uso de iscas envenenadas lançadas em regiões remotas para combater a população de gatos ferais.

Em 2026, o tema recebeu novas atualizações em fontes oficiais: a página da Feral Cat Taskforce, grupo que coordena ações contra gatos ferais na Austrália, foi atualizada em 03 de junho, e o governo da Tasmânia informou no mesmo mês que Little Dog Island foi declarada livre desses predadores após um projeto de erradicação e monitoramento ambiental.

De acordo com o Departamento de Mudança Climática, Energia, Meio Ambiente e Água da Austrália, os gatos ferais matam mais de 1,5 bilhão de mamíferos, aves, répteis e sapos nativos por ano.

O órgão também estima a morte anual de 1,1 bilhão de invertebrados e reconhece a predação por esses felinos como ameaça a mais de 200 espécies nacionais ameaçadas e a 37 espécies migratórias listadas.

O mesmo departamento afirma que os gatos ferais contribuíram para a extinção de mais de 20 espécies de mamíferos australianos.

Entre os grupos afetados estão animais terrestres ameaçados, como bilbies, bandicoots, bettongs e numbats, citados em documentos oficiais como exemplos de espécies pressionadas pela presença desses predadores.

Como funcionam as iscas contra gatos ferais na Austrália

A isca Curiosity® foi desenvolvida como uma pequena salsicha de carne com um pellet rígido de plástico no interior.

Esse pellet encapsula uma toxina e foi projetado para explorar diferenças no modo como gatos e parte dos animais nativos consomem alimento.

Segundo o governo australiano, a proposta é reduzir o risco de envenenamento de espécies não alvo, já que muitos animais nativos tendem a mastigar e rejeitar partes rígidas da isca.

As salsichas são feitas de carne de canguru, gordura de frango e aromatizantes para atrair gatos ferais. Imagem: Captura de tela via Dave Algar/Departamento de Biodiversidade, Conservação e Atrações.
As salsichas são feitas de carne de canguru, gordura de frango e aromatizantes para atrair gatos ferais. Imagem: Captura de tela via Dave Algar/Departamento de Biodiversidade, Conservação e Atrações.

A toxina usada no Curiosity® é o PAPP, sigla em inglês para para-aminopropiofenona.

Em termos simples, a substância interfere no transporte de oxigênio pelo sangue.

O produto, de acordo com as informações oficiais, exige avaliação ambiental, autorização de uso e aplicação dentro de regras definidas para controle de espécies invasoras.

Há também o Eradicat®, isca utilizada na Austrália Ocidental.

O produto tem formato semelhante, mas usa o 1080, uma toxina sintética relacionada a compostos que ocorrem naturalmente em algumas plantas da região.

Como parte da fauna local tem maior tolerância a essa substância, o uso pode ser considerado em contextos específicos, embora o governo alerte que iscas tóxicas podem representar risco a espécies não alvo em determinadas áreas.

Por que os gatos ferais ameaçam a fauna nativa

Os gatos ferais são da mesma espécie dos gatos domésticos, mas vivem sem depender de tutores, caçam para sobreviver e ocupam diferentes ambientes.

Na Austrália, eles aparecem em florestas, campos, áreas úmidas, regiões áridas e zonas costeiras, o que torna o controle mais complexo e caro.

Gatos matam bilhões de aves silvestres todos os anos. Este gato feral capturou uma rosela-de-cabeça-pálida. Crédito da imagem: Brisbane City Council (via Wikimedia)
Gatos matam bilhões de aves silvestres todos os anos. Este gato feral capturou uma rosela-de-cabeça-pálida. Crédito da imagem: Brisbane City Council (via Wikimedia)

A dificuldade não está apenas na quantidade de animais.

Gatos ferais costumam ser solitários, ativos principalmente à noite e encontrados em baixas densidades distribuídas por grandes áreas.

Essa combinação reduz a eficiência de métodos como captura manual e busca direta, segundo o governo australiano.

O impacto ambiental ocorre porque muitas espécies nativas australianas evoluíram sem contato com predadores felinos.

Pequenos mamíferos, aves que nidificam no solo, répteis e anfíbios podem ser mais vulneráveis à caça.

Além disso, gatos ferais podem transmitir doenças infecciosas a animais nativos, rebanhos domésticos e seres humanos, de acordo com o departamento ambiental australiano.

Na legislação federal, a predação por gatos ferais é classificada como um processo ameaçador-chave.

Essa categoria, prevista na Lei de Proteção Ambiental e Conservação da Biodiversidade de 1999, permite a elaboração de planos nacionais para reduzir ameaças à sobrevivência, abundância ou evolução de espécies e comunidades ecológicas nativas.

Plano nacional coordena ações contra espécies invasoras

O Plano de Redução de Ameaças de 2024 para a predação por gatos ferais substituiu a versão de 2015 e passou a orientar a resposta nacional ao problema.

O documento foi elaborado com base em revisão do plano anterior, evidências científicas recentes e uma consulta pública realizada entre setembro e dezembro de 2023, que recebeu 1.628 respostas.

Pela primeira vez, um plano desse tipo foi produzido em conjunto pelo governo federal e por estados e territórios.

Nova Gales do Sul, Tasmânia, Austrália Ocidental, Vitória, Austrália do Sul, Território do Norte e Território da Capital Australiana aderiram à iniciativa, segundo o departamento federal.

A política também conta com a Feral Cat Taskforce, criada para apoiar a coordenação de ações, compartilhar informações e promover boas práticas de manejo.

A página oficial da força-tarefa foi atualizada em 03 de junho de 2026 e informa que o grupo atua em apoio ao Comissário de Espécies Ameaçadas, aos governos australianos e a organizações envolvidas na proteção da biodiversidade.

O controle não depende apenas das iscas.

As ferramentas citadas pelo governo incluem armadilhas, abate por tiro, cercas à prova de predadores, áreas de refúgio para espécies ameaçadas, erradicação em ilhas e equipamentos automatizados.

Imagem: Reprodução
Imagem: Reprodução

Em grandes áreas, o envenenamento por iscas é descrito pelo órgão ambiental como a forma mais efetiva de controle, desde que aplicado de acordo com regras e avaliações de risco.

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Little Dog Island mostra resultado de manejo ambiental

Uma atualização relevante ocorreu em Little Dog Island, ilha de 83 hectares no Estreito de Bass, ao nordeste da Tasmânia.

O governo da Tasmânia informou em junho de 2026 que o projeto para erradicar gatos ferais da ilha foi considerado bem-sucedido.

A área integra o grupo Furneaux e abriga colônias de aves marinhas, incluindo shearwaters e pequenos pinguins em retorno.

As ações de controle ocorreram durante os invernos de 2022 e 2023.

Depois da retirada dos animais, equipes fizeram monitoramento com câmeras de sensor de movimento, cães farejadores, buscas em campo, iluminação noturna e imagens térmicas por drones.

Após mais de dois anos sem registros de gatos ferais, a ilha foi declarada livre desses predadores.

À ABC News, a bióloga Sue Robinson, da Biosecurity Tasmania, afirmou que 21 gatos foram capturados e submetidos à eutanásia humanitária durante o período de controle.

“Em 83 hectares, isso é muito gato”, disse.

A pesquisadora também declarou que os animais provavelmente causavam danos significativos à fauna local, avaliação feita com base na densidade de gatos encontrada na ilha.

O caso de Little Dog Island ajuda a entender por que ilhas recebem atenção em programas de manejo.

Nesses ambientes, a remoção de predadores invasores pode ser monitorada com mais precisão do que em áreas continentais abertas.

Ainda assim, operações desse tipo dependem de acompanhamento posterior, já que a recolonização por espécies invasoras e mudanças no equilíbrio local precisam ser avaliadas ao longo do tempo.

Tecnologia aplicada ao controle de gatos invasores

A imagem das salsichas tóxicas chama atenção porque resume uma escolha de manejo considerada sensível por envolver o abate de animais invasores.

Do ponto de vista das autoridades australianas, a medida busca reduzir a mortalidade de espécies nativas ameaçadas.

Entidades de proteção animal, por outro lado, costumam questionar métodos com veneno e defendem alternativas consideradas menos letais.

O desenvolvimento das iscas também mostra a tentativa de tornar o controle mais seletivo.

No caso do Curiosity®, a cápsula rígida foi pensada para diminuir a ingestão por animais nativos.

Já o Felixer™, outro equipamento citado pelo governo australiano, usa identificação automatizada para reconhecer gatos e raposas antes de liberar uma dose medida de gel tóxico.

O manejo dos gatos ferais, portanto, reúne dados ambientais, legislação, tecnologia e debate público.

A Austrália trata esses felinos como uma ameaça estabelecida à biodiversidade e mantém ações para reduzir seus impactos, mas o tema continua cercado por controvérsias sobre bem-estar animal, eficácia dos métodos e proteção de espécies nativas.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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