Alediane Kelly e Euzébio Dias cultivam hortaliças em cerca de 2% dos 25 hectares do Sítio Shekinah, em Mata Cavalo. Com assistência técnica do Senar, a renda triplicou, enquanto ajustes em solo, irrigação, cobertura e manejo podem elevar a rentabilidade sem aumentar a área plantada da produção no futuro próximo.
As hortaliças cultivadas por Alediane Kelly e Euzébio Dias ocupam somente cerca de meio hectare, mas se tornaram a principal fonte de renda da família. No Sítio Shekinah, localizado na comunidade quilombola Mata Cavalo, em Nossa Senhora do Livramento, Mato Grosso, o casal transformou uma pequena horta em atividade comercial depois de anos tentando prosperar com outras culturas.
A história foi publicada pelo Canal Rural Mato Grosso em 26 de maio de 2025, dentro do programa Senar Transforma. A reportagem mostra que a renda do casal triplicou depois da entrada no programa de Assistência Técnica e Gerencial do Senar Mato Grosso, embora o técnico responsável avalie que a mesma área ainda possa alcançar rentabilidade até dez vezes maior.
Conquista da terra levou 16 anos
A luta pela propriedade começou em 1994. Euzébio relatou que participou da mobilização ao lado do pai, do tio e de outros integrantes da comunidade, muitos dos quais morreram antes de acompanhar o resultado definitivo da disputa.
-
Professora de escola rural usa uma placa com apenas 2 letras para formar dezenas de palavras, transforma a alfabetização em brincadeira e faz crianças aprenderem a ler com alegria, enquanto o método simples conquista educadores de todo o Brasil e leva o vídeo a ultrapassar 6,2 milhões de visualizações
-
Homem deixou uma empresa que administrou por 11 anos, trocou o escritório por uma fazenda que precisava de reformas e criou um sistema regenerativo que hoje alimenta mais de 2.000 pessoas por semana, usando estufas, pastoreio rotativo e água da chuva para produzir por mais tempo sem destruir o solo
-
Mulher comprou um farol de 1912 em uma ilha remota da Noruega, passou quase duas décadas restaurando a construção e transformou o Litløy Lighthouse em refúgio aberto a visitantes no meio do Atlântico Norte
-
SUS libera insulina glargina de aplicação diária para crianças, adolescentes e idosos e distribuição já começou em 16 estados brasileiros
Somente em 2010 o casal conseguiu se estabelecer oficialmente na área e trabalhar com segurança sobre a terra conquistada. O intervalo entre o início da mobilização e a entrada definitiva na propriedade chegou a aproximadamente 16 anos.
O sítio seria chamado inicialmente de Vitória, mas o nome já era comum na região. Euzébio escolheu Shekinah por associar a palavra à vitória representada pela conquista da terra, embora a explicação linguística tenha sido apresentada como resultado de uma pesquisa pessoal do produtor.
Primeiras culturas não garantiram renda estável
Antes de concentrar esforços nas hortaliças, o casal tentou diferentes atividades. Euzébio plantou bananas, mas interrompeu a produção depois de não obter o resultado esperado.
Também foram cultivadas aproximadamente 4 mil ramas de mandioca. A colheita foi boa, porém faltava mercado para absorver o produto naquela época, impedindo que a quantidade produzida se transformasse em retorno financeiro consistente.
Outra tentativa envolveu cerca de 2 mil pés de abacaxi. Um incêndio atingiu a plantação antes da colheita e destruiu a produção. A sucessão de dificuldades levou o casal a procurar uma cultura capaz de unir demanda, frequência de venda e aproveitamento de uma área reduzida.
Hortaliças passaram do consumo próprio para o mercado
No começo, a produção da horta era destinada principalmente ao consumo da família. O potencial comercial ganhou força depois que Kelly participou de um curso sobre olericultura oferecido pelo Senar Mato Grosso.
A produtora recebeu a possibilidade de acompanhamento pelo programa de Assistência Técnica e Gerencial, conhecido como ATeG. Inicialmente, ela questionou se uma horta pequena justificaria a presença de um técnico de campo, mas decidiu aceitar o suporte.
A assistência ajudou o casal a enxergar as hortaliças como negócio, e não apenas como produção de subsistência. A partir desse processo, foram organizadas ações para aumentar a produtividade, melhorar a gestão e ampliar os canais de comercialização.
Meio hectare sustenta o carro-chefe do sítio
O Sítio Shekinah possui 25 hectares, mas a área destinada às folhas e hortaliças representa aproximadamente 2% do total. Esse percentual corresponde a cerca de meio hectare.
Nesse espaço, o casal mantém 25 canteiros com diferentes produtos. A lista apresentada pela reportagem inclui couve, salsa, rúcula, coentro, almeirão, alho, cebolinha, pimenta, pepino e três tipos de alface: americana, crespa e roxa.
A pequena extensão contrasta com a importância econômica da horta para a família. Embora ocupe uma parcela reduzida da propriedade, a atividade se tornou o principal negócio do sítio e a base para os planos de crescimento.
Outras atividades complementam as vendas
A propriedade também mantém gado de corte, criação de frango caipira, tanques de peixes e produção de pequi. Há ainda cultivos de mandioca, banana, maxixe, pepino e jiló, além do trabalho com polpas de frutas.
Kelly explicou que esses produtos podem ser vendidos em conjunto com itens da horta. Um cliente que compra peixe pode levar temperos, enquanto quem procura pequi também pode adquirir verduras para acompanhar a refeição.
A família começou ainda a trabalhar com conservas, aproveitando parte da produção que poderia ultrapassar a demanda imediata. A diversificação reduz perdas e cria novas formas de agregar valor ao que é cultivado no sítio.
Venda direta virou uma das forças do casal
O técnico de campo Marcus Vinicius de Miranda identificou a comercialização como um dos principais pontos positivos da propriedade. Kelly e Euzébio conseguem levar a produção diretamente aos consumidores, evitando depender exclusivamente de intermediários.
Os pedidos são divulgados e recebidos pelas redes sociais. O casal monta pacotes e cestas de hortaliças, realiza entregas e participa de feiras em Nossa Senhora do Livramento, Cuiabá e Várzea Grande.
Segundo Kelly, as caixas de verduras costumam ser procuradas rapidamente quando chegam às feiras. A venda direta permite maior proximidade com os clientes e ajuda a agregar valor aos produtos, mas a fonte não informa os preços praticados nem o faturamento mensal da atividade.
Assistência técnica triplicou a renda familiar
O trabalho do ATeG começou pouco mais de três anos antes da gravação apresentada pelo programa. As visitas mensais serviram para identificar problemas, estabelecer metas e planejar mudanças compatíveis com os recursos do casal.
Kelly passou a registrar compras, vendas e resultados de cada período. Com essas anotações, produtor e técnico conseguem comparar meses, localizar quedas de desempenho e discutir correções para a atividade.
A produtora afirmou que a renda mensal chegou a triplicar e, em alguns meses, ultrapassou esse resultado. O avanço permitiu melhorar a irrigação, adquirir um veículo para entregas e instalar placas solares na residência, segundo o relato apresentado ao programa.
Produção ainda sofre com o período chuvoso
Apesar do crescimento, a horta continua exposta às condições climáticas porque os canteiros não possuem cobertura. As chuvas podem prejudicar as folhas, favorecer a umidade excessiva e aumentar a ocorrência de fungos e doenças.
Marcus indicou a implantação de miniestufas ou estruturas baixas como uma das alternativas. A proposta é aproveitar o período seco para ampliar as vendas e reunir recursos que possam financiar a proteção antes da próxima estação chuvosa.
A cobertura permitiria manter maior regularidade na produção de hortaliças durante o ano. A mudança, contudo, depende da capacidade financeira da propriedade e ainda aparecia como planejamento no momento da reportagem.
Rotação de culturas pode reduzir problemas nos canteiros
Outra orientação envolve a rotação das culturas. Em vez de cultivar continuamente o mesmo produto no mesmo canteiro, o casal pode alternar espécies e famílias vegetais ao longo dos ciclos.
Essa organização ajuda a evitar a concentração de pragas e doenças associadas a determinadas plantas. Também pode melhorar o aproveitamento de nutrientes e reduzir o desgaste provocado pela repetição do mesmo cultivo.
O técnico considerou a produção regular, mas identificou espaço para elevar o desempenho dos canteiros. A intenção é aumentar a quantidade colhida sem ampliar a área e sem impor uma carga de trabalho incompatível com a estrutura familiar.
Análise pode corrigir o solo existente
O casal cogitava levar terra nova para a horta porque o solo da propriedade apresenta grande quantidade de cascalho. O técnico explicou que essa operação seria trabalhosa e poderia ser substituída por uma análise do material já existente.
Com amostras do solo, seria possível definir necessidades de calagem, adubação e reposição de elementos como fósforo, potássio, cálcio, magnésio e micronutrientes. A recomendação seria corrigir o solo atual em vez de substituí-lo sem avaliação.
Marcus também afirmou que o cascalho não impede necessariamente a produção. Quando o material entre as pedras está equilibrado, o terreno pode sustentar hortaliças e ainda favorecer o escoamento da água superficial, reduzindo o acúmulo de umidade próximo das folhas.
Certificação pode aumentar o valor das hortaliças
De acordo com o técnico, o casal conduz a horta de maneira semelhante a uma produção orgânica, sem utilização de agroquímicos. Entretanto, os produtos não podem ser comercializados oficialmente como orgânicos porque ainda não possuem certificação.
Uma das possibilidades mencionadas é a formação de uma Organização de Controle Social com pelo menos três produtores da região. Nesse modelo, há acompanhamento entre os próprios agricultores e abertura para fiscalização da comunidade compradora.
A obtenção da certificação poderia elevar em aproximadamente 30% a rentabilidade da propriedade, segundo a avaliação apresentada no programa. Esse percentual é uma projeção técnica e não um ganho já alcançado pelo casal.
Mesma área pode render até dez vezes mais
Marcus afirmou que a prioridade não deve ser ampliar a horta. Uma expansão aumentaria a necessidade de mão de obra, investimentos, irrigação e outros custos que poderiam pressionar a família.
A estratégia defendida é otimizar o uso do terreno, da água, dos fertilizantes e do trabalho dos produtores. Cobertura dos canteiros, correção do solo, rotação de culturas, planejamento e certificação aparecem entre as medidas possíveis.
Com essas mudanças, o técnico estimou que a rentabilidade das hortaliças pode crescer até dez vezes na mesma área. A previsão representa um potencial condicionado à implantação das melhorias e não uma garantia de resultado futuro.
Uma pequena área pode transformar outras famílias?
Alediane Kelly e Euzébio Dias levaram 16 anos para conquistar definitivamente a terra e enfrentaram perdas antes de encontrar nas hortaliças uma fonte regular de sustento. Com assistência técnica, gestão e venda direta, a renda familiar triplicou sem que a atividade ocupasse mais do que cerca de meio hectare.
O próximo desafio é elevar a produtividade sem aumentar excessivamente os custos ou a carga de trabalho. Você acredita que assistência técnica semelhante deveria alcançar mais agricultores familiares e comunidades tradicionais? Conte nos comentários qual medida considera mais importante para aumentar a renda em pequenas propriedades.

