Família brasileira relata choque ao ver, por escrito, que o menino de 11 anos pode ser preso, processado e multado se ficar no Reino Unido. Nascido nos EUA, Guilherme nunca morou no Brasil, fala pouco português e vive na Inglaterra desde 2019, onde estuda e tem laços sociais com amigos.
Há algumas semanas, o menino de 11 anos Guilherme recebeu uma carta do governo britânico sugerindo que ele voltasse para o Brasil, apesar de viver legalmente na Inglaterra desde 2019 com os pais, Hugo e Ana Luiza. O casal se divorciou em 2021, e Ana só poderá solicitar residência permanente novamente em 2027.
O impasse começou quando, no fim do ano passado, Hugo completou cinco anos no país e pediu residência permanente para ele e para os filhos. A residência dele foi aprovada, mas a de Guilherme foi negada e o pedido do irmão, Luca, ainda não tinha resposta, colocando a família sob risco de ter a vida interrompida.
Quem é o menino de 11 anos no centro do caso

Guilherme tem 11 anos, nasceu nos Estados Unidos e nunca morou no Brasil. Ele diz que não se sente confortável falando português com fluência. Na rotina descrita pela família, Guilherme conta que gosta de jogar futebol, estuda em uma boa escola e tenta ir bem nos estudos.
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Ele vive na Inglaterra desde 2019 com o irmão Luca e os pais, Hugo e Ana Luiza, que sempre relataram estar no país de forma legal.
O ponto de maior choque, segundo a família, é ver uma criança tratada como se fosse um infrator em um documento oficial.
Como a família foi para a Inglaterra e qual era o status migratório
A mudança para a Inglaterra ocorreu depois que Hugo recebeu uma proposta de trabalho como professor universitário. Ana Luiza e os filhos entraram como dependentes do visto dele.
Em 2021, Hugo e Ana Luiza se divorciaram. Ana, que é enfermeira, passou a ter um visto próprio como trabalhadora qualificada.
Essa mudança reiniciou o prazo para o caminho de residência dela, e, de acordo com o relato, ela só poderá ter o pedido aprovado em 2027.
O pedido de residência e a decisão que atingiu o menino de 11 anos
No fim do ano passado, quando Hugo completou cinco anos no país, ele solicitou residência permanente para si e para os filhos.
O governo aprovou a residência permanente de Hugo, mas não concedeu a de Guilherme. Sobre Luca, o governo ainda não havia respondido o pedido.
A família afirma que imaginava tratar-se de um procedimento comum, mas relata que as regras se mostraram tão específicas e restritas que o caso acabou enquadrado como exceção, principalmente por causa do divórcio e da configuração de guarda.
O argumento do governo e por que a carta virou um “susto”
O argumento atribuído ao governo é que, como nenhum dos pais tem guarda exclusiva e como ambos não possuem residência permanente ao mesmo tempo, os filhos não teriam direito ao status.
Hugo afirma que escreveu uma carta dizendo que os meninos viveram parte importante da vida no Reino Unido, estavam adaptados, tinham laços sociais e que Guilherme havia sido aprovado em um processo seletivo para uma escola competitiva.
Ainda assim, a resposta oficial teria indicado estar “satisfeito” de que Guilherme poderia retornar ao Brasil, continuar os estudos e até frequentar uma escola em inglês, com a possibilidade de a família retornar junto.
A parte mais grave: ameaça de prisão, processo e multa por escrito
O trecho que mais assusta a família é o tom de ameaça associado ao documento.
Segundo o relato, a carta inclui a ideia de que o menino de 11 anos poderia ser preso, processado e multado, o que o pai descreve como se a criança estivesse sendo tratada como criminosa.
Além disso, o pai afirma que o documento traz avisos que “não se aplicam jamais” a uma criança, como referências a trabalhar ilegalmente, ter salário apreendido e não conseguir alugar uma casa.
Para ele, isso dá a impressão de texto “copiado e colado”, levantando dúvidas sobre o cuidado e o critério usados na análise do caso.
Impacto emocional e social nas crianças e na família
Hugo descreve que se sentiu descaracterizado como ser humano, como pai e como profissional, afirmando que o sistema ignorou a realidade de duas crianças que construíram a vida no Reino Unido.
A família diz que laços sociais foram desconsiderados, inclusive o vínculo das crianças com escola e amigos.
Eles relatam que colegas têm perguntado às crianças se vão voltar ao Brasil, porque pais de amigos viram notícias e comentaram.
Para proteger os filhos, os pais disseram apenas que havia um problema na documentação, que seria estressante, mas que eles acreditam que conseguirão resolver.
O que diz o especialista ouvido pela BBC e qual é o próximo passo
A BBC conversou com um advogado britânico especialista em imigração, que afirma ter ficado surpreso e interpreta o caso como exemplo de como regras podem não contemplar complexidades da vida familiar.
Ele diz que o órgão de imigração não teria demonstrado muita compaixão e que a realidade familiar não é “preto no branco”, mas feita de mudanças e relações que se transformam.
A família agora espera a revisão da decisão e tenta entender se as crianças podem permanecer como dependentes, mesmo sem o direito imediato à residência permanente, mantendo um status legal semelhante ao que tinham até então.


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