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Como Dubai saiu da miséria absoluta, com gente comendo gafanhotos, para virar vitrine mundial de ostentação, petróleo escasso e megaprojetos erguidos à base de trabalho quase escravo

Publicado em 12/12/2025 às 09:16
Atualizado em 12/12/2025 às 09:18
Assista o vídeoDubai saiu da fome e das pérolas e ergueu uma cidade global com petróleo, infraestrutura, turismo e desafios de escravidão moderna.
Dubai saiu da fome e das pérolas e ergueu uma cidade global com petróleo, infraestrutura, turismo e desafios de escravidão moderna.
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De vila pobre no deserto, Dubai viveu fome após o crash de 1929 e a Segunda Guerra, comeu gafanhotos, achou petróleo só em 1966 e logo reduziu a dependência para menos de 1% hoje. Portos, aeroporto, contrabando e turismo de 18,2 milhões em 2024 explicam o salto, com recordes globais.

Em Dubai, a virada começa na tragédia: após o crash de 1929, o comércio de pérolas desmoronou e, na Segunda Guerra Mundial, as importações de comida foram afetadas, empurrando a cidade para a fome. Depois vieram obras decisivas, como o início de projetos em 1959, a inauguração do aeroporto em 1960, a descoberta de petróleo em 1966 e a abertura do porto em 1972.

O que hoje parece “milagre” também tem um lado sombrio: com a explosão populacional e os megaprojetos, Dubai passou a depender fortemente de mão de obra imigrante vulnerável. Nos anos 2000, houve protestos ligados às obras do Burj Khalifa e, em 2011, um trabalhador teria se jogado do 147º andar após ser impedido de voltar ao seu país, segundo a Human Rights Watch.

Antes do brilho, a região era rota comercial e protetorado britânico

A área do sudoeste da Península Arábica é habitada por povos nômades há cerca de 2,7 mil anos e manteve ligações comerciais com povos do Golfo Pérsico e de fora, incluindo paquistaneses, indianos, etíopes, turcos e chineses.

Dessa dinâmica surgiram os emirados que hoje formam os Emirados Árabes Unidos: Abu Dhabi, Sharjah, Dubai, Aiman, Um al Qaiuan e Ras al Khaimah.

Dubai, especificamente, era uma vila de pescadores pouco expressiva, que pertenceu a Abu Dhabi até 1833. No século 16, chegaram os portugueses, depois vieram os holandeses e, por fim, os britânicos, interessados em proteger suas rotas marítimas para a Índia Britânica.

Eles firmaram tratados com os xeques costeiros, prometendo ajuda em caso de ameaça externa. A ideia de “Costa dos Piratas” é descrita por pesquisadores como exagero difundido pelos britânicos para legitimar dominação, como explica o historiador Johan Mathew, da Universidade Rutgers.

Pérolas: o motor econômico que quebrou a cidade

Por mais que a fama de pirataria seja contestada, o comércio de pérolas era real e central. No começo do século 20, 95% da economia do Golfo Pérsico girava em torno das pérolas.

Havia cerca de 1,2 mil navios dedicados à atividade, cada um com até 80 marinheiros, e um quarto dessas embarcações estava em Dubai, segundo o jornalista Jim Krane.

O problema é que a prosperidade virou colapso. O crash de 1929 derrubou mercados de luxo e atingiu Dubai, que dependia das pérolas.

E, mesmo sem a quebra da Bolsa, a atividade já estava ameaçada: pesquisadores japoneses descobriram como cultivar pérolas, deslocando a prática artesanal árabe por um modelo industrializado e padronizado.

Dubai quebrou, mercadores indianos voltaram para Mumbai, escolas internacionais fecharam, e o emirado enfrentou 17 anos de miséria.

Fome, gafanhotos e lagartos: a sobrevivência na Dubai de 80 anos atrás

Com a crise econômica e, depois, os impactos indiretos da Segunda Guerra Mundial, as redes de importação de comida, essenciais para sobreviver no deserto, foram atingidas. Negócios faliram, estrangeiros foram embora, e a fome chegou.

Nuvens de gafanhotos, antes praga, viraram alívio, porque as pessoas fritavam os insetos para comer.

Outra alternativa era caçar lagartos do gênero Uromastyx, conhecidos em árabe como dub, descritos como abundantes no deserto.

Alguns linguistas associam esse termo à etimologia do nome Dubai, embora haja teorias mais aceitas, como a ideia de que “Dubai” viria do verbo árabe para “rastejar”, em referência ao ritmo lento dos barcos na enseada que deu origem ao povoado.

O fato central é brutal: havia gente morrendo de fome e comendo insetos para sobreviver.

1971: nasce um país pobre, e Dubai não era a terra do petróleo

Desde o século 19, os britânicos pouco teriam feito para desenvolver os emirados, segundo Krane. Em 1971, eles deixaram oficialmente a região e, por serem pequenos demais para virarem Estados independentes, os emirados formaram uma federação: surgiam os Emirados Árabes Unidos (EAU).

O novo país era descrito como pobre e atrasado: não havia universidades, o analfabetismo passava de 70% e a expectativa de vida era cerca de 50 anos.

E, embora a exploração de petróleo nos Emirados tenha começado nos anos 1950 em Abu Dhabi, Dubai perfurou por anos sem achar. A sorte do país era o petróleo, mas a escassez relativa em Dubai forçou uma estratégia diferente.

Porto, aeroporto e contrabando: a infraestrutura veio antes da ostentação

O xeque Rashid bin Saeed al Maktoum queria um porto e um aeroporto. O assoreamento na Enseada de Dubai afastava navios grandes e o investimento necessário era maior do que as receitas locais.

Para levantar dinheiro, ele recorreu a doações de famílias mercantes, venda de títulos e, sobretudo, um empréstimo do Kuwait. As obras começaram em 1959, e o porto com o nome do xeque foi inaugurado em 1972.

No aeroporto, a história é ainda mais reveladora do “oportunismo” descrito na narrativa. Rashid recebeu um “não” de Londres para construir o terminal, porque havia uma base aérea britânica em Sharjah.

Dubai lucrava com ouro importado do Reino Unido e dos EUA e contrabandeado para a Índia, onde era proibido.

O ouro chegava por Sharjah, que ficava com parte do lucro. Rashid contratou uma firma inglesa para projetar o terminal e pagou, por fora, um piloto britânico para levar cargas a uma pista improvisada em Dubai.

Em seguida, segundo Frauke Heard-Bey, Rashid entregou um Rolex ao piloto para presentear o administrador britânico responsável e ganhar apoio. O Aeroporto Internacional de Dubai foi inaugurado em 1960.

1966: petróleo, dependência rápida e diversificação ainda mais rápida

Em 1966, Dubai finalmente encontrou petróleo. Seis anos depois, a economia local dependia dele quase como na era das pérolas: cerca de dois terços do PIB vinham do petróleo.

Ao mesmo tempo, os investimentos em infraestrutura já mudavam a cidade: nos anos 1960, Dubai ganhou linhas telefônicas e água encanada, e a luz elétrica chegou em 1961.

Na década de 1970, após a independência, o prestígio de Rashid se traduziu em duas visitas oficiais da rainha Elizabeth 2ª.

Na segunda, ela inaugurou um novo porto, em 1979: Jebel Ali, descrito como o maior porto artificial do planeta e um dos terminais mais movimentados do mundo.

O ponto-chave é que Dubai tratou o petróleo como alavanca, não como destino. Em 1985, o petróleo era metade do PIB; nos anos 2000, caiu para 3%; e hoje é menos de 1%.

A necessidade ajudou a impor disciplina: mesmo com reservas significativas, Dubai jamais teve petróleo comparável ao de Abu Dhabi.

Segundo a Opep, os Emirados são grandes produtores, mas nove de cada dez barris do país estão em Abu Dhabi. Assim, Dubai consolidou uma economia de serviços, com finanças, mercado imobiliário, comércio e turismo liderando a diversificação.

Trabalho forçado e kafala: o custo humano por trás dos megaprojetos

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A história local tem ligação antiga com mercados desregulados ou ilegais. Nos anos 1950, Dubai era descrita como estratégica no tráfico internacional de haxixe e ópio.

E o tráfico de escravos, prática milenar conectando a Arábia à África, acelerou no auge das pérolas. Os britânicos tentaram coibir no século 19, mas a escravidão só foi banida oficialmente em 1963.

O problema, segundo a ONG Walk Free, reaparece como “escravidão moderna”, com trabalhadores imigrantes vulneráveis a um sistema restritivo conhecido como kafala, que os vincula aos patrões.

Nos anos 2000, houve protestos contra condições de trabalho durante as obras do Burj Khalifa, o prédio mais alto do mundo, com 828 metros.

E há o episódio citado pela Human Rights Watch: em 2011, um trabalhador teria se atirado do 147º andar após ser proibido de voltar ao país natal.

A Walk Free reconhece que os EAU estão entre os países que mais adotam medidas para combater a escravidão moderna quando comparados a outros da região, mas o desequilíbrio de poder descrito permanece como elemento central do debate.

População, turismo e recordes: Dubai vende superlativos, mas carrega alertas

Com a diversificação, a população disparou: 40 mil habitantes em 1960, 370 mil em 1985, 1 milhão no começo deste século e 3,6 milhões hoje.

O Aeroporto de Dubai é descrito como o maior em tráfego de passageiros internacionais: cerca de 92 milhões em 2024, alta de 6,1% em relação ao ano anterior.

Dubai ficou à frente de Londres, com 79 milhões. Em passageiros totais, Dubai fica atrás de Atlanta, com 108 milhões.

No turismo, o governo declarou a ambição de fazer de Dubai a cidade mais visitada do mundo em 2025. Em 2024, Dubai ficou em 7º lugar em um levantamento da consultoria Euromonitor, com 18,2 milhões de visitantes estrangeiros, bem atrás de Bangkok, líder com 32,4 milhões, mas quase três vezes mais do que o Brasil inteiro, segundo a comparação apresentada.

Hoje, Dubai também coleciona recordes citados como reconhecidos pelo Guinness World Records, incluindo o edifício mais alto, a maior fonte pública, o maior shopping center e outros superlativos.

Ainda assim, há lembretes de limite físico: a roda-gigante mais alta do mundo fechou em 2022, e especulações apontaram problemas no solo da ilha artificial onde ela está instalada.

A própria trajetória de Dubai sugere que, mesmo quando tudo parece possível, o risco nunca desaparece.

Pergunta rápida: para você, o que explica mais a transformação de Dubai, visão estratégica e infraestrutura ou a disposição de aceitar custos sociais altos para crescer tão rápido?

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Douglas
Douglas
12/12/2025 16:25

Não precisa nem ler a matéria pra saber que escolhendo o caminho do socialismo e comunismo é que não foi

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Fonte
Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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