Com aumento de 37% no número de navios ao norte do paralelo 60 entre 2013 e 2023 e crescimento de 2.696 para 3.310 toneladas métricas nas emissões, o carbono negro intensifica o derretimento do gelo e pressiona a OMI por novas regras
O carbono negro no Ártico tornou-se foco de preocupação internacional após aumento de 37% no número de navios ao norte do paralelo 60 entre 2013 e 2023, elevando emissões de carbono negro de 2.696 toneladas métricas em 2019 para 3.310 em 2024 e acelerando o derretimento do gelo marinho.
O carbono negro no Ártico é apontado como agravante do aquecimento regional em meio ao crescimento do tráfego marítimo em rotas antes congeladas e intransitáveis. O avanço do degelo no Oceano Ártico abriu espaço para navios de carga, pesca e cruzeiro.
O aumento do tráfego ganhou maior atenção com a pressão do presidente Trump para que os Estados Unidos assumissem o controle da Groenlândia. O debate geopolítico ocorreu paralelamente às discussões ambientais sobre emissões e impactos na região.
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A fuligem expelida pelos navios, conhecida como carbono negro, deposita-se sobre gelo, neve e geleiras. Ao reduzir a capacidade de reflexão da luz solar, amplia a absorção de calor e contribui para que o Ártico seja a região de aquecimento mais rápido da Terra.
Carbono negro é um tipo de partícula microscópica formada pela queima incompleta de combustíveis fósseis, madeira, carvão, diesel e biomassa. Ele faz parte do material conhecido como “fuligem” e é um dos principais componentes da poluição do ar em áreas urbanas e industriais.
Carbono negro acelera derretimento e reforça ciclo de aquecimento
O carbono negro agrava o derretimento do gelo marinho ao intensificar a absorção de radiação solar. Com menos superfície branca refletindo luz, mais calor é retido, fortalecendo um ciclo de aquecimento crescente.
“Isso acaba num ciclo interminável de aquecimento crescente”, afirmou Sian Prior, principal consultora da Clean Arctic Alliance. Segundo ela, as emissões, em especial o carbono negro, permanecem completamente desregulamentadas no Ártico.
O derretimento do gelo marinho pode afetar padrões climáticos em todo o mundo. A região ártica, ao aquecer mais rapidamente, influencia sistemas atmosféricos globais e amplia preocupações ambientais além das fronteiras locais.
Estudos citados indicam que o impacto do carbono negro no aquecimento global é 1.600 vezes maior que o do dióxido de carbono ao longo de um período de 20 anos. Esse dado reforça a pressão por regulamentações específicas.
Proposta de combustíveis polares na OMI enfrenta cenário político incerto
Em dezembro, França, Alemanha, Ilhas Salomão e Dinamarca propuseram que a Organização Marítima Internacional exigisse o uso de combustíveis polares por navios em águas árticas. Esses combustíveis são mais leves e emitem menos poluentes de carbono.
A proposta abrange todos os navios que navegam ao norte do paralelo 60. Inclui medidas de adequação para empresas e delimita a área geográfica de aplicação. O texto deveria ser apresentado ao Comitê de Prevenção e Resposta à Poluição da OMI.
Havia expectativa de análise adicional por outro comitê em abril. No entanto, o contexto político internacional trouxe incertezas quanto à velocidade de avanço das negociações.
No ano passado, a OMI esperava adotar regulamentações que imporiam taxas de carbono ao transporte marítimo. A medida buscava incentivar combustíveis mais limpos e eletrificação de frotas. Após pressão do Sr. Trump, a decisão foi adiada por um ano.
As perspectivas passaram a ser consideradas incertas. Diante desse cenário, observadores consideram difícil imaginar progressos rápidos na limitação do carbono negro no Ártico.
Proibição do óleo combustível pesado tem impacto limitado até 2029
Uma proibição prevista para 2024 restringiu o uso de óleo combustível pesado no Ártico. O impacto, porém, foi classificado como modesto devido a brechas na legislação.
Isenções e exceções permitem que alguns navios continuem utilizando esse tipo de combustível até 2029. O estudo da Energy and Environmental Research Associates apontou que a medida resultaria apenas em pequena redução nas emissões de carbono negro.
Em 2019, navios ao norte do paralelo 60 emitiram 2.696 toneladas métricas de carbono negro. Em 2024, o volume chegou a 3.310 toneladas métricas. O levantamento identificou barcos de pesca como a maior fonte de emissões.
Entre 2013 e 2023, o número de navios nessas águas aumentou 37%, segundo o Conselho do Ártico. No mesmo período, a distância total percorrida cresceu 111%, ampliando a exposição da região à fuligem.
Mais tráfego marítimo significa mais fuligem no ar. O fenômeno acompanha a abertura gradual de rotas antes bloqueadas pelo gelo.
Tensões internas nas nações árticas dificultam regulamentação
Mesmo entre países com litoral no Ártico, existem divergências internas sobre regulamentações. A Islândia é citada como exemplo de tensão entre agenda ambiental e interesses econômicos.
Embora líder em tecnologias verdes, como captura de carbono e uso de energia térmica para aquecimento, ambientalistas afirmam que o país avançou menos na regulamentação da poluição marítima.
A indústria pesqueira, uma das mais importantes da Islândia, exerce influência significativa. Segundo Arni Finnsson, presidente do conselho da Associação Islandesa de Conservação da Natureza, há resistência a novos custos.
Ele afirmou que a indústria está satisfeita com lucros, insatisfeita com impostos e pouco envolvida em temas como clima ou biodiversidade. Acrescentou que custos de combustíveis mais limpos e eletrificação geram oposição.
O Ministério do Meio Ambiente, Energia e Clima da Islândia declarou que a proposta de combustíveis polares é positiva quanto ao propósito e conteúdo básico. Contudo, indicou necessidade de estudos adicionais antes de decisão definitiva.
O comunicado também afirmou apoio a medidas mais rigorosas para combater emissões do transporte marítimo e reduzir o carbono negro.
Rota Marítima do Norte reduz distâncias, mas impõe riscos e críticas
O fascínio por pesca, extração de recursos e distâncias menores impulsiona o uso de rotas árticas. Navios podem economizar dias em viagens entre Ásia e Europa ao atravessar a região.
A Rota Marítima do Norte, porém, é transitável apenas durante alguns meses do ano. Mesmo nesse período, navios precisam ser acompanhados por quebra-gelos.
Os riscos operacionais e as preocupações com poluição levaram algumas empresas a se comprometerem a evitar a rota. A discussão intensifica-se à medida que o degelo amplia janelas de navegação.
Søren Toft, CEO da Mediterranean Shipping Company, afirmou em publicação no LinkedIn que a empresa não utiliza e não utilizará a Rota Marítima do Norte. A MSC é a maior empresa de transporte marítimo de contêineres do mundo.
O debate sobre o carbono negro no Ártico ocorre, assim, em meio a interesses econômicos, disputas políticas e impactos climáticos globais. A região permanece no centro de uma discusão internacional que combina meio ambiente e geopolítica.

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